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A Praia

«I try to be as progressive as I can possibly be, as long as I don't have to try too hard.» (Lou Reed)

teguivel@gmail.com

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domingo, dezembro 28, 2003

(De outro Planeta)
Summertime
And the living is easy...
 

domingo, dezembro 21, 2003

Paraíso
P. - Quando é o Natal?
R. - Quarta para quinta.
P. - Esta quarta? Já?!
 

quinta-feira, dezembro 18, 2003

Tu mamá

Y tu mamá también. Dia 30 com o Público, aproveitem.
 
Os ratos abandonam o navio
Salve-se quem puder: é Natal. Durante o período difícil, estarei longe. Até 2 de Janeiro é improvável que possa ter acesso sequer a um cibercafé.
Mesmo que tenha, sabem o que aqui vos espera: reflexões xaroposas sobre «a vida», «intimismo», «confessionalismos fúteis» - a porcaria do costume em dose ainda mais intensa. Se fosse a vocês, passava ao largo.
 
Saddam nos «Apanhados»
A questão das condições de exibição de Saddam tem sido levantada por muitas pessoas - o primeiro, que eu desse conta, foi o Daniel Oliveira no Barnabé, a que se seguiram, em particular, o Paulo Varela Gomes e, hoje, o Pacheco Pereira, ambos no Público. Embora o problema que os três colocam seja importante e no fundamental o mesmo, a forma como ele é colocado tem ganho em rigor: o Daniel criticava a exibição de Saddam comparando-a com a exibição dos cadáveres de Mussolini, Ceausescu e Savimbi; Paulo Varela Gomes escrevia que as imagens de Saddam eram piores que as de pilotos americanos aprisionados há alguns meses pelo regime iraquiano, quando estes pilotos, ao contrário de Saddam, estavam visivelmente feridos e aterrorizados.
Por outro lado, se é certo que o escrutínio sobre o tratamento dado a prisioneiros de guerra deve ser exigente, a ideia de que não fossem exibidas quaisquer imagens de Saddam e que isso não constituisse alguma espécie de humilhação política do antigo presidente do Iraque parece-me insustentável. Não sabemos ainda ao certo se o que foi capturado era «mesmo a cabeça da serpente ou apenas um idiota escondido num buraco»; fosse como fosse - neste caso como nos de Mussolini, Ceausescu e Savimbi -, a divulgação de imagens que demonstrem a capitulação inequívoca daquele que é o rosto visível do inimigo é sempre indispensável à prossecução da guerra.
O direito da guerra (jus in bello) vive numa margem complicada, numa tensão difícil - é o direito possível na situação extrema da guerra. Um jus in bello que não fosse um compromisso dentro da guerra mas uma ética alternativa à guerra seria simplesmente inútil.
Não o deviam mostrar sujeito a um exame aos dentes, mas não penso que ele pudesse aparecer senão como um sem-abrigo. Na verdade, se ao fim de uma semana sem fazer a barba estou com o aspecto com que estou, não serão demasiado altas as expectativas em relação a Saddam ao fim de seis meses?
 
O narcisismo maligno
O pior que se pode fazer, numa questão tão séria como esta [do Iraque], é transformar as nossas opiniões e o nosso envolvimento na causa política numa espécie de projecção subjectiva da nossa própria pessoa e importância. As coisas correm bem, levanta-se a grimpa e desdenha-se dos outros; as coisas correm mal e assobia-se para o lado e coleccionam-se os "mas". Infelizmente isto é comum no debate português, com raras excepções. Mas, insisto (...), isto não é certamente (...) um jogo de pingue-pongue com o nosso ego e o dos outros.

[Do excelente artigo de Pacheco Pereira de hoje]

Ficaria muito contente de ver alguém reconhecer explicitamente que lhe serve a carapuça.
 

segunda-feira, dezembro 15, 2003

Fracasso
Tentei esforçadamente obrigar-me a fazer na vida o que achava que os outros esperavam de mim. Não consegui. Se agora faço o que me apetece é que não me resta alternativa.
 
Saddam em Hollywood II
Segundo o Público, a operação de captura de Saddam Hussein foi baptizada «Alvorada Vermelha», nome inspirado num filme de «série B» de 1984 em que jovens norte-americanos combatiam uma invasão soviética dos Estados Unidos.
 

domingo, dezembro 14, 2003

Não era impossível
E pronto: está resgatada a esperança na Humanidade. Ainda não são dez da noite e já há um texto inteligente sobre a captura de Saddam.
Cuidado: é no Barnabé.
 
Any given sunday
O Pedro Lomba diz que eu não gostei nada deste domingo. É verdade. Mas eu nunca gosto nada de domingos.
 
Dúvidas e sorrisos
Nem sorriso, nem muito menos amarelo: que o jaquinzinhos, que eu não faço ideia quem seja nem me interessa, porque me parece que é simplesmente um blog de polémica não muito sofisticada, diga que o meu post é qualquer coisa como um embaraço com a captura do Saddam, é lá com ele; que o Mexia e o Lomba remetam para ele, parece-me pior ideia.
Já agora, esclareço: posso pensar e sentir muitas coisas a propósito desta captura - por exemplo: surpresa; preocupação; curiosidade relativamente às consequências - mas o que não senti com certeza foi embaraço. É que penso que se podem percorrer escrupulosamente todas as coisas que escrevi (não foram assim tantas) sobre a questão do Iraque ao longo do último ano e não se encontrará nenhuma razão para eu ficar embaraçado com este acontecimento. Já houve vitórias e derrotas dos americanos no Iraque, e eu não me senti pessoalmente embaraçado com nenhuma dessas coisas. Aliás, como é sabido, o «lunático» do Pedro Lomba, por exemplo, não pode gabar-se do mesmo.
Se estou contente? O Pedro Mexia queria que dissessemos todos, antes de tudo o mais, que estamos contentes - uma espécie de prova de amor à democracia e ódio à tirania. Mas na verdade isso não está em questão: Saddam caíu do poder há meses. O que está em questão é o que vai acontecer ao Iraque e ao futuro do Médio Oriente e da política internacional em consequência desta guerra e, em particular, deste episódio nesta guerra.
Não preciso de dizer que não gosto de Saddam: pessoalmente, não tenho contas a prestar nem por Pinochet, nem por Saddam, nem por nenhum dos monstros habitualmente invocados. Mas até vai mais longe do que isso: se não vi mal, as bandeiras que apareciam nas imagens festejando hoje no Iraque a captura de Saddam não eram apenas vermelhas - tinham a foice e o martelo. Puzzling?
Para mim, esta é, ou não é, uma boa notícia essencialmente em função das suas consequências políticas, que são múltiplas, diversificadas e por isso oferecem dúvidas. É legítimo que quem queira possa sintetizar tudo com «que bom!»; mas também é legítimo que haja quem coloque dúvidas.
O sentido do post do jaquinzinhos é que hoje não se pode falar sobre dúvidas. Hoje os tambores da festa não ficam contentes se não forem ao ponto de calar o pensamento.
 
Saddam em Hollywood
Ladies and Gentlemen... We got him!
[Paul Bremer, administrador americano do Iraque, anunciando a captura de Saddam Hussein]

Muitas coisas serão ditas e escritas durante as próximas horas e os próximos dias sobre a captura de Saddam Hussein - e nem excluo que no meio disso venha a aparecer qualquer coisa inteligente. Para já, gostava era de pensar sobre este assunto que me intriga, a forma como o anúncio da captura foi encenado. Antes da declaração política, veio a exclamação toda feita de implícitos (Him - who? What do you mean - got?). Não foi certamente só para mim que aquele Ladies and Gentlemen seguido de uma pausa para suspense, do anúncio, dos gritos e palmas eufóricos da plateia foi fortemente reminiscente da cerimónia «and the Oscar goes to...»
Porquê? O que é que isto significa? Tem precedentes? Tem implicações para a política internacional, na medida em que grande parte dela se faz hoje na televisão? O que é que nos diz sobre a América, ou sobre o Ocidente em geral, e pode ser visto da mesma maneira em toda a parte do mundo?
 

sábado, dezembro 13, 2003

Jameson e duas pedras de gelo
Eduardo Prado Coelho, na sua crónica de hoje no Público, fala de Stuart Hall, um autor de que gosto muito e de quem acaba de ser publicada uma antologia de textos no Brasil. Fala também – e já não é a primeira vez que o faz, sempre mais ou menos nestes termos – de Fredric Jameson, «um nome fundamental do pensamento americano contemporâneo, (...) de uma cultura imensa, que passa pela filosofia, o cinema, a literatura, a arquitectura, o vídeo ou a arte contemporânea», assinalando que este autor permanece por traduzir em Portugal. O caso, porém, é um bocadinho mais sério – o que pode ser ilustrado com uma história inteiramente anedótica.
Jameson esteve em Portugal em Janeiro de 1998. Sei-o porque cheguei um dia a casa e tinha, no atendedor de chamadas, o seguinte recado: «Hi, Mr. Nunes, this is Fredric Jameson». As circunstâncias – políticas e não académicas – que levaram a que Jameson tivesse o meu número de telefone agora não interessam. O que é facto é que Jameson estava em Lisboa por dois ou três dias, penso que pela primeira vez, e o meu número de telefone era o único que ele tinha. E foi assim que se deu o encontro de dois grandes vultos do pensamento contemporâneo: Fredric Jameson, cerca de setenta anos, vasta obra publicada, e Ivan Nunes, vinte e cinco anos incompletos, nenhuma obra publicada. Com o pormenor adicional de que, se é certo que o segundo conhecia as capas dos livros do primeiro, estava tão informado sobre o conteúdo da sua obra como o primeiro estava da dele, por acaso inexistente.
Tentei convocar para esse encontro quem tinha à mão. Pensei em Boaventura Sousa Santos, que não estava disponível, em Paulo Varela Gomes, que não estava disponível, e em Miguel Portas, que estava disponível mas tinha em relação a mim a desvantagem adicional de nem ter ouvido falar do nome em causa. Fomos os três beber uma cerveja ao Bar Americano, no Cais do Sodré, e, à falta de melhor, falámos de amenidades, ideias vagas sobre a globalização, a revolução portuguesa de 1974 e a disseminação dos telemóveis na sociedade portuguesa contemporânea. Provavelmente foi esta a única deslocação a Portugal de Fredric Jameson em toda a sua vida; sobre a ideia que terá feito do nosso universo intelectual reservo-me o direito de não especular.
 

sexta-feira, dezembro 12, 2003

Sê teu filho
Nunca a alheia vontade inda que grata
Cumpras por própria. Manda no que fazes,
nem de ti mesmo servo.
Ninguém te dê quem és. Nada te mude
Teu íntimo destino involuntário.
Cumpre alto. Sê teu filho.

[Ricardo Reis]
 
A marca da família
Maria Eugénia Varela Gomes, mãe do Paulo, apresentou hoje publicamente o seu livro de memórias, na maior parte composto por uma entrevista dada a Manuela Cruzeiro, do Centro de Documentação 25 de Abril [Maria Manuela Cruzeiro, 2003, Maria Eugénia Varela Gomes - Contra ventos e marés, Porto, Campo das Letras]. (O extraordinário poema de que vou fazer post a seguir aparece em epígrafe no livro). Estou com vontade de o ler todo, já, de ponta-a-ponta, e, se conseguir realmente fazê-lo agora, é provável que volte a falar no assunto. Por enquanto, quero apenas assinalar um detalhe.
O livro tem fotografias boas - pelo menos para mim, que conheço várias das pessoas. A última - que é também a da capa - é uma belíssima fotografia tirada pelo André, filho do Paulo, à avó. A penúltima é de João e Maria Eugénia Varela Gomes de pé junto à árvore, em Sintra, em que o irmão do Paulo, filho deles, se suicidou no dia 2 de Dezembro de 1998.
Muitos pais - respeitavelmente - perante semelhante dor seriam provavelmente incapazes de chegar sequer perto do local onde tivessem perdido o filho em tais circunstâncias. O filho partiu porque quis. Eles sofreram - ainda sofrem - indubitavelmente com isso. Vejo-os lá, junto à árvore, a homenagear o filho em tudo e até no que ele fez de mais doloroso para eles, naquilo que em princípio se poderia imaginar que eles mais censurariam. Estão a homenagear o filho, a própria morte do filho, a própria árvore em que o filho se enforcou. Não estão a subscrever o gesto; estão a homenageá-lo a ele e até à sua escolha.
Ninguém me disse isto. Não sou íntimo destas duas pessoas nem tenho nenhum acesso privilegiado ao que se passa na cabeça delas. Eu sei muito pouco, ou quase nada, das circunstâncias que «propiciaram» este suicídio. Isto não é o que me disseram; é o que a foto me diz.
São dois velhos. Vêem-se cansados, e fracos, e tristes - e estão .

Não sou como estas pessoas; gosto muito delas.
 
Bom Bastonário
Ando sem tempo nenhum para escrever, o que muito me chateia - não porque tenha coisas muito importantes para dizer, não só porque me faz falta escrever, mas talvez sobretudo porque gosto de ir alimentando o blog como quem o vai fazendo crescer (mesmo que nem sempre cresça).
No meio da falta de tempo, quero, no entanto, destacar mais um excelente artigo que o Bastonário da Ordem dos Advogados publicou há dois dias.
Acho curioso o ódio que alguns blogs de direita - mesmo daqueles que acham que são liberais e não de direita - dedicam hoje em dia ao Bastonário dos Advogados, porque é inteiramente simétrico da estima que lhe tenho. No dia em que Júdice foi eleito, lembro-me de comentar com amigos que me parecia tratar-se de uma boa notícia, porque eu achava que Júdice - coisa rara -, sendo de direita, tinha a cabeça muito clara sobre os elementos fundamentais do Estado de Direito. Nenhuma supresa até agora, portanto; só, talvez, por ele ser ainda mais claro, mais corajoso e menos politiqueiro do que eu imaginava que seria.

PS. Já agora: por muito que eu não partilhe da perspectiva de que os governos de Cavaco foram uma espécie de social-democracia à portuguesa; por muito que eu estivesse disposto a votar em virtualmente qualquer candidato contra Cavaco Silva (e estaria), o artigo de Pacheco Pereira desta semana é inegavelmente interessante.
 

quinta-feira, dezembro 11, 2003

Destino Telheiras
Não sei se sou muito a favor do alargamento da rede de metro para a periferia, pelo menos enquanto se mantiver este género de avisos que anunciam o próximo comboio.
Um lugar onde se vai é só um lugar onde se vai. Um lugar onde se mora é só um lugar onde se passam algumas horas por dia. Convinha desdramatizar.
 
Mon zizi


Journal d'un obsédé
O Meu Pipi fut d'abord une chronique très populaire sur Internet. Aujourd'hui, les propos de ce machiste caricatural ont été rassemblés dans un livre que tout le monde s'arrache. D'autant plus que l'auteur garde savamment l'anonymat.

Joana Gorjão Henriques
Público (extraits), Lisbonne

C'est un superhéros doté de superpouvoirs sexuels et créé à l'image du plus viril des mâles. Il a 27 ans, il est étudiant et vit dans un état de surexcitation permanente. Sa lubricité est si grande qu'il transforme les choses les moins érotiques du monde - avis d'imposition, autoroutes, restrictions budgétaires, cliniques, polices d'assurance - en littérature obscène. Son aphrodisiaque préféré? Les mots, les mots, et encore les mots. On le dit misogyne, homophobe, indécent, abject. On lui prête tous les attributs du politiquement incorrect. Ce superhéros s'appelle Pipi [zizi]. Il est né sur Internet il y a six mois, à l'adresse suivante : <www.omeupipi.blogspot.com>. C'est le premier des milliers de blogs portugais existants à être devenu un livre, sous le titre O Meu Pipi * [Mon zizi]. L'ouvrage est arrivé cet automne dans les librairies auréolé de mystère. Personne ne sait en effet qui en est l'auteur. A moins d'ailleurs qu'ils ne soient plusieurs. "Je ne vous dirai pas si je suis seul ou si nous sommes plusieurs. Je ne réfute rien: je suis peut-être un, dix ou mille" , nous a confié l'auteur par e-mail, après une conversation téléphonique qu'il nous avait accordée à la condition expresse de ne pas révéler son identité. Nous avons tout de même pu reconnaître une voix d'homme (il ne s'agirait donc pas d'une femme, comme certains l'avaient imaginé). Mais rien n'interdit de penser qu'il soit juste le porte-parole de quelqu'un d'autre. "Mettre une signature, ce serait comme si un magicien se mettait à expliquer les secrets de ses numéros" , se justifie-t-il.
Le livre en est déjà à sa deuxième édition, et son éditeur, Oficina do Livro, reconnaît que le succès du blog et la polémique autour de l'auteur ont influé sur la décision de le publier. Deux éditeurs brésiliens se proposent de le publier dans leur pays et une maison de production veut monter un spectacle autour du personnage.
Mais à quoi peut ressembler le créateur d' O Meu Pipi? Le poète Vasco Graça Moura, que l'on a soupçonné d'être cet auteur et qui a publié un démenti sous forme de poème dans le blog Abrupto se risque à en brosser un portrait: "Il s'agit certainement d'un jeune âgé de 20 à 30 ans, dont le maniement de la langue portugaise laisse supposer qu'il a fait des études universitaires. C'est son insolence, typique de cette génération, qui permet de le situer dans cette tranche d'âge."
La première lecture peut être un choc: un torrent de mots particulièrement expressifs, une intimité masculine exposée sans aucune retenue, des délires masturbatoires, des femmes chosifiées, des homosexuels ridiculisés, des récits hardcore de performances sexuelles décrites avec une crudité et une agressivité extrêmes. Mais rien ne peut être pris au sérieux, tout est parodie. Avec son ton antipathique, Pipi n'est pas franchement un personnage agréable (il prend plaisir par exemple à insulter les lecteurs). Il est même abject et c'est le plus horrible des machistes. C'est un fervent adepte du phallocentrisme.
La caractéristique principale de Pipi est qu'il défend une sexualité libre de toute contrainte (sa seule limite est le crime). "Tout ce que fait Pipi est assujetti au sexe et à la célébration du sexe." Pipi revendique "un retour de la sexualité dans ce qu'elle a de plus physique et de plus primaire, dans le sens de brut et de primordial". Il refuse l'intrusion de l'émotion, qu'il considère comme une entrave à la jouissance.
Pipi est une recréation de la caricature du machiste, mais simultanément il met à nu la "conscience de rustre" du sexe masculin. Il dit ce que tous les hommes pensent mais qu'aucun n'a le courage de dire. L'auteur estime toutefois que son écriture n'exclut pas le féminin, que Pipi ne traite pas mal les femmes. C'est d'ailleurs une femme, Carla Hilário de Almeida, qui a eu l'idée d'éditer ce livre, en raison de ses qualités littéraires et de son humour irrésistible. O Meu Pipi, dit-elle, ne s'adresse pas exclusivement aux hommes mais à tous ceux qui ont le sens de l'humour. "Il parle de sexe de la seule façon possible: avec beaucoup d'humour et de distance. Les femmes lisent le livre en cachette, ce qui est assez drôle. Au début, elles ne savent pas très bien quoi en penser, mais ensuite elles sont amusées. C'est l'admettre publiquement qui est plus compliqué."

* Oficina do Livro, Lisbonne, 2003 (pas encore traduit en français).

Contexte
Qui est l'auteur d' O Meu Pipi? Dans le petit monde littéraire portugais, chacun y va de son hypothèse. Les premiers soupçons se sont portés sur Miguel Esteves Cardoso. Ecrivain et éditorialiste, ce dernier est en effet célèbre pour sa verve et son insolence. Devant les dénégations de l'intéressé, on a ensuite avancé le nom de Rui Zink. Mais cet écrivain iconoclaste a lui aussi démenti. Etait-ce un coup monté de Produções Fictícias, un collectif de scénaristes très en vogue, ou bien de l'humoriste José Vilhena? Mauvaise piste, une fois de plus.

[Courrier International, 11/12/2003, Numéro 684]
 
Com os braços abertos: «um subversivo?»


Procuro reparar nas imagens, mas acho que continuo essencialmente sensível ao texto: as tiras do Calvin de que acabo por gostar mais são sempre as explicitamente «filosóficas», em que a única actividade a que os dois se dedicam é passear, para terem o tempo e o espaço para produzir insights incrivelmente acutilantes sobre a vida.
 

quarta-feira, dezembro 10, 2003

Porque não sou cristão
Diz Lutz, do quase em português:
Como pode um homem [eu], que postou a foto da Emanuelle Béart, postar isto [Samantha Fox] e aquilo [Madonna]? Brrrrrr.

A Samantha Fox e a Madonna - de resto, muitíssimo diferentes - não são imagens bonitas. Mas já pus outras imagens que não são belas antes. Qual é o problema com estas?
É que são ícones sexuais nem sequer sublimados pela doçura.

Pode-se (deve-se) gostar de meninas. Mas cuidado com as gajas - por favor.
 

segunda-feira, dezembro 08, 2003

Não esquecer de celebrar a Imaculada Concepção

Madonna, Like a Virgin
 
Como diz o meu avô
Trabalha, filho - que o trabalho é honra.
 

sexta-feira, dezembro 05, 2003

Dias sem blog

Ouvindo «I'm Your Man»

Quatro ou cinco dias sem postar, pelas razões anexas.
 

quinta-feira, dezembro 04, 2003

Quem precisa de um tablóide de esquerda?
Eis a lista dos textos a que, de forma espontânea, dediquei a minha atenção na primeira leitura que fiz do Público:
- Textos dos deputados António Braga (PS), Joana Amaral Dias (BE) e Gonçalo Capitão (PSD) sobre o péssimo filme Camarate, incluindo classificação com estrelinhas (surpreendentemente, o primeiro e o último estão escritos em português);
- Texto de Eduardo Prado Coelho sobre o filme As Invasões Bárbaras;
- Notícia sobre projecto de resolução do Bloco de Esquerda na Assembleia da República, ocupada em 9/10 pelas críticas feitas pelos outros partidos ao projecto e sem descrição do dito projecto;
- "Pragmatismo dominará política externa britânica na próxima década";
- "Autarca brasileiro proíbe homossexuais de viverem na cidade";
- "Contínuo de Beja diz ignorar por que queimou aluno";
- Três breves: "Dar comida aos pombos vai ser proíbido" (em Londres), "Surf pouco hospitaleiro" (em Sidney) e "Táxis rosa desesperam condutores" (na cidade do México);
- Inquérito de rua sobre: "neste natal vai gastar mais ou menos do que em anos anteriores?";
- "Natal na prisão, a redenção pelo «hip hop» e pelas loiras «pimba»";
- "Freitas «crítico» com biografia de Jesus";
- "Canibal alemão contou ao tribunal as suas «fantasias»".

Tudo o que pudesse requerer mais de três neurónios - isto, isto, isto e isto - deixei para mais tarde.
O tablóide está lá. Não lê quem, respeitavelmente, não gosta de tablóides e por isso não quer ler.
 
Cuidado com as palavras
Uma dedicada atenção ao real é uma forma de virtude, como assinala a filósofa Hannah Arendt numa curta introdução, escrita em 1966, às extraordinárias memórias de J. Glenn Gray sobre os seus anos como funcionário dos serviços de informação durante a II Guerra Mundial, combatendo em Itália, na Alemanha e em França. Arendt escreveu que «tanto as noções abstractas como as emoções abstractas não são apenas falsas relativamente ao que na realidade acontece, mas estão ligadas num círculo vicioso». Porque, e aqui ela cita o próprio Glenn Gray, «o pensamento abstracto é estritamente comparável à desumanidade das emoções abstractas». Existe um risco moral, como nos avisa este combatente, se não formos capazes de nos perguntar de forma clara se as nossas emoções morais são reais, se nos pertencem autenticamente e se respondem de forma rigorosa a uma situação – um abuso, um crime, uma catástrofe – tal como ela realmente é.
Vivemos as nossas vidas na linguagem e, portanto, na representação. Vemos sempre através de um vidro que distorce, nunca directamente. Mas, embora o real esteja escondido, ele existe, e por inferência e estudo paciente podemos descortinar as suas formas. Só a mais dedicada atenção ao que é real pode ajudar-nos a ajuizar e a agir de formas que sejam ao mesmo tempo eficazes e responsáveis.

[Michael Ignatieff, 2000, Virtual War - Kosovo and beyond, London: Chatto & Windus, p.214].
 
Ignatieff


O próximo post é um pouco singular: eu citando Michael Ignatieff citando Hannah Arendt citando J. Glenn Gray. Ignatieff (n.1947) é um autor de que gosto. É um jornalista sui generis, de nacionalidade canadiana, que vive entre Londres e Harvard (onde é director de um centro universitário sobre Direitos Humanos). Publica com muita regularidade, designadamente no New York Times, ensaios sobre política internacional com uma componente de reportagem, mas escreveu também romances premiados e uma biografia de Isaiah Berlin.
Desde o final da Guerra Fria, Ignatieff tem escrito vários livros que - de forma relativamente acidental - acabam por formar uma espécie de conjunto. Primeiro, um sobre o nacionalismo, chamado Blood and Belonging, que na verdade é a versão escrita de uma série documental feita por Ignatieff para a BBC. A seguir, The Warrior's Honour, sobre a natureza das guerras étnicas, que começa a levantar questões sobre as possibilidades da intervenção e da ajuda humanitárias e também sobre as responsabilidades dos jornalistas nesse contexto. Desta série, é o meu livro preferido, um brilhante conjunto de ensaios, muitíssimo bem escritos. Depois, o livro donde extraio a citação seguinte, compilando um conjunto de reportagens e reflexões que me parecem muito menos profundas sobre a «intervenção humanitária» no Kosovo em 1999. Ignatieff foi um partidário da guerra da NATO contra a Jugoslávia - e, de resto, tem vindo consistentemente a defender uma espécie de responsabilidade neo-imperial do Ocidente nas áreas que no pós-Guerra Fria entraram em «desagregação». Isso é prosseguido no seu mais recente volume, como fica expresso no próprio título, Empire Lite - nation-building in Bosnia, Kosovo and Afghanistan, acabado de escrever antes da Guerra do Iraque deste ano, que de resto Ignatieff apoiou.
É evidente que não partilho das soluções concretas que Ignatieff defende e muito especialmente da defesa desta última guerra. No entanto, isso é trivial perante o facto de que Ignatieff é um intelectual sério que - mais até do que propagandear a defesa deste novo imperialismo - tem procurado explorar os limites, os paradoxos e os riscos presentes nas opções políticas que toma.
Agora, eu podia estragar tudo e arriscar-me a prejudicar este meu estatuto de «esquerda inofensiva» que, segundo me parece, a direita da blogosfera se habituou a apreciar em mim. Poderia assinalar que é intelectualmente desonesto e não ajuda absolutamente nada a pensar sobre o que se deve fazer no futuro que as pessoas que em Portugal defenderam a intervenção no Iraque agora fujam, todas ou quase todas, a prestar contas por aquilo que então disseram; que prefiram «discutir o futuro», disparar acusações infundadas para todos os lados e repartir as culpas. Em suma, podia estragar tudo dizendo que ando com uma paciência muito limitada para a «direita inteligente» que por aí tem aparecido. Mas eu não quero estragar tudo - para já; vai ser preciso voltar ao assunto. Por agora quero apenas chamar a atenção para o trecho que se segue. Escusado será dizer que o que diz não se aplica só às guerras actuais, nem só à política internacional, nem mesmo só à política.

Prometo não escrever mais nada hoje depois da citação, para que, se quiserem, possam lê-la com o tempo que ela exige.
 

quarta-feira, dezembro 03, 2003

Pelas costas


Há estudos que comprovam que a parte do corpo masculino mais atraente para as mulheres é o rabo. Parece, até, que este fenómeno é universal. E logo depois do rabo, por ordem de preferência, vêm as costas. É sabido que as famosas «costas em V» têm atormentado muitos rapazes noutros aspectos graciosos mas a quem a natureza não atribuiu esse particular encanto. Uns bíceps salientes, por exemplo, que tantos se empenham em conquistar, são, ao que parece, muito menos compensadores que umas belas costas.
Encontro na preferência uma certa lógica. Dizia Nelson Rodrigues - travestido de Myrna no correio sentimental que escrevia por volta de 1950 - que «o homem brilha pela ausência»: só ela permite à mulher idealizar o ser amado e amá-lo na graça que, geralmente, ele não tem. Sem ilusão não há amor, o homem comum não resiste ao olhar escrupuloso e, em tais circunstâncias, a espécie contemplaria a extinção.
Visto de trás um homem é mais bonito: a mulher gosta tanto mais dele quanto tenha frequentes ocasiões de o ver pelas costas. O mistério da sedução estética não tem, afinal, mistério nenhum.
 
Terrorismo

Working-class hero

O Público errou. Errou - apenas? Não: o Público caluniou. Difamou. Perseguiu. Direi mesmo: aterrorizou. Estou certo de que Pacheco Pereira confirmará a minha análise: trata-se de uma atitude muito reaccionária, uma vez que só lhe fazem isto por ela ser mulher.
O Público escreveu hoje, na sua secção mais nobre («Hoje fazem anos»), que Samantha Fox completa 52 anos. O que Samantha Fox representou e representa ninguém ignora - nem blogs de esquerda nem de direita. Ela é um dos maiores ícones da década de 1980: quem esquece Touch me, Touch me, o calção de ganga meticulosamente rasgado? O que a Samantha criou outras apenas imitaram. Samantha Fox é, além disso, um símbolo de ascensão social, a luz ao fundo do túnel indispensável ao capitalismo: nenhuma outra página 3 do The Sun algum dia chegou tão longe. Ninguém a esquece, não será esquecida.
E que idade tem, de facto, Samantha Fox? 37 anos e alguns meses. Tão torpe é a campanha que é movida contra ela, tão distorcidas as mentes que a conspiram, que nem atentaram em factos elementares. Faz por esta altura um ano que anunciaram o seu 50º aniversário; na ânsia de a envelhecerem, atropelaram regras elementares da artitmética. Por este caminho, em breve dirão que está entregue aos cuidados de um lar. Já admito tudo. Já não acredito em nada. Samantha Fox nem faz anos em Dezembro: nasceu a 15 de Abril de 1966, para sermos exactos.
Por que defendo apaixonadamente a causa de Samantha Fox? Nada de pessoal me move, a não ser isto: quando os nossos ícones entrarem na meia-idade, o nosso futuro já não será risonho. Quando Samantha Fox for velha, eu serei velho: sete anos menos velho, mais precisamente. Ora, se querem distorcer a minha idade por uma diferença de quinze anos, dêem-me quinze a menos. Não fico ofendido e até agradeço.
 

terça-feira, dezembro 02, 2003

J Vítor M
É sempre muito bom. Hoje é também divertido.
 
Tentarei não morrer na autoestrada


Gosto imenso de conduzir e tenho uma vaidade absurda no meu carro - absurda porque um bom carro não se tem por mérito, mas por ter dinheiro para o comprar, e ridícula porque, assim sendo, o carro que eu guio não é, em bom rigor, meu. Há mais de cinco anos que dou aulas em Coimbra e vivo a maior parte do tempo em Lisboa. Ainda assim, não é só por o comboio ser incrivelmente mais barato, menos cansativo e menos poluente que é raro eu sair para a estrada com o carro; a razão fundamental é que, se em nenhuma circunstância me apetece morrer, ainda menos me apetece morrer na A1. Nas vezes que fui, em cinco anos, já vi que chegue para perceber que a probabilidade não é remota.
Ontem vi um noticiário da SIC (fiz mal, claro, mas isso agora não vem para o caso). Fiquei para ver porque anunciaram um choque em cadeia de 44 automóveis na A1. Afinal, felizmente, desta vez não era nada, apenas feridos ligeiros e muita chapa partida. De outras vezes é pior: lembro-me de um dia em que o choque em cadeia foi de tal ordem que durou mais de vinte minutos, e pessoas avisadas pelo rádio de que o choque estava a acontecer não tiveram, chegadas ao local, nenhuma forma de escapar a ser batidas também; não havia por onde fugir. Há alguns meses vi um carro fazer um pião à minha frente e ficar parado, atravessado, no meio da pista, com um adulto e uma criança lá dentro esperando atónitos pelo que poderia acontecer-lhes, enquanto eu procurava evitar eu próprio ser traído pelo aquaplanning, contornar o obstáculo e também os carros que pudessem bater-me a seguir. A A1 é muito emocionante.
Conduzo prudentemente, quase sempre dentro dos limites de velocidade estabelecidos - eu sei que não acreditam: mas estou a falar literalmente - desde que aprendi a conduzir, isto é, para aí uns três ou quatro anos depois de começar a conduzir habitualmente. Os meus records de velocidade (170 km/h) na A1 foram atingidos com um Renault 5 logo nos primeiros meses de carta, porque eu não tinha a menor consciência do perigo. Mas depois de ter ido aos EUA em 1999 e de ter percebido como é muito mais seguro e menos cansativo se todos os carros forem a velocidades moderadas, o meu respeito pelo código da estrada cresceu acentuadamente. Infelizmente, a minha situação só melhorou um bocadinho: para ser realmente mais seguro era preciso que todos os meus compatriotas também lá tivessem ido e tivessem aprendido a mesma lição, porque uma componente essencial da segurança na autoestrada é que os carros vão a velocidades semelhantes.
Sou - até por razões de história pessoal - extremamente sensível a iniciativas como a da Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados. Infelizmente, penso que o abismo de consciência em que vivem as pessoas que sofreram de perto com a morte de pessoas nas estradas e as outras - todas aquelas outras que guiam muita bem, cuja condução não se prejudica nada por falarem ao telemóvel, que acham que então o sistema de mãos-livres é o cúmulo da precaução concebível, já para não falar daquelas que estão perfeitamente bem mesmo depois de terem saído com os amigos e bebido um bocado - o abismo, dizia, parece-me que não é adequadamente combatido por associações deste tipo, de que sou simpatizante. Uma vista de olhos pelo site da ACA-M - e em particular sobre um teste sobre a agressividade ao volante - faz-me pensar que quem sofreu na pele tem toda a razão na substância mas tem muitas dificuldades na retórica.
Eu também tenho. Sinto uma fúria enorme de ver pessoas noutros aspectos sensatas e sensíveis excederem alegremente em trinta, quarenta, cinquenta, sessenta ou mais km/h o limite de velocidade, mesmo que estejam a guiar carros que comparados com o meu têm a estabilidade de uma trotinete (e eu vou a 120, 100 se chove). Sinto uma raiva incontida enquanto eles conversam fraternalmente ao telemóvel e guiam com a outra mão e com o outro olho. Espumo, sobretudo, de raiva quando os vejo disporem alegremente não só da vida deles, da minha, do condutor que possa passar no caminho, mas também da de crianças de 1 ou 2 anos que transportam. Não encontro normalmente plataforma comum para uma conversa possível.
Meto-me no comboio todas as semanas, o que me aborrece relativamente, porque não permite ouvir a música que eu quero na estereofonia automóvel de que eu me gabo saindo donde eu quiser à hora que me apetece. Mas, para além de ser sensível ao ambiente e à lógica do transporte público, de cada vez que faço isto ponho-me ao fresco de ser vítima da audácia de um compatriota - ou da minha própria imperícia. Se tiver que morrer ao volante, que seja numa estrada decente, numa curva apertada, de noite com pouca visibilidade, numa cena de filme, e não por causa do aquaplanning ou do telemóvel do condutor do lado na miserável autoestrada que é a mais importante do país.
 

segunda-feira, dezembro 01, 2003

As praias
Agora olho demoradamente para a minha infância como antes olhava para as praias.

[José Eduardo Agualusa, "O Esplendor do Silêncio"]

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