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A Praia

«I try to be as progressive as I can possibly be, as long as I don't have to try too hard.» (Lou Reed)

teguivel@gmail.com

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quinta-feira, julho 31, 2003

O horror, o drama
Na discussão que anima Pacheco Pereira e o País Relativo sobre o Rendimento Mínimo, há um aspecto que não posso deixar de salientar: é que me toca, me impressiona, me constrange, que possa, como diz Pacheco, haver pessoas
"tão ou mais pobres [que] procuram ter um emprego e se vêm com muito mais dificuldades e com uma vida mais pesada, por terem optado pela via de não viverem do RMG." [29.7.03]
A ser verdade, trata-se, a meu ver, de um efeito certamente inesperado suficiente para pôr em causa toda a bondade da medida.
 
Na véspera de não partir nunca
Na véspera de não partir nunca
Ao menos não há que arrumar malas
Nem que fazer planos em papel

(Álvaro de Campos, trecho de poema de 27-9-1934)

O Campos não estava a falar de malas. E eu, quando arrumo a mala, não pode ser a mala que estou a arrumar, porque uma mala não pode causar tanta angústia.
 
Blogar para quê
Tenho escrito pouco porque tenho trabalhado muito.
Agora não escrevo mais para não dormir demasiado pouco.
Sei bem que vou ter uma dor de cabeça amanhã de manhã, e quero minimizá-la.
Mas acho que o blog - sem ser uma coisa essencialmente solitária, que evidentemente não é - é sobretudo o prazer de estar aqui a escrever sem destino.
Com destinatários, mas incertos.
 
Calor e alegria
Está um calor infernal. Hoje foi péssimo, porque tive que fazer quase seis horas de comboio, ida e volta, entre Lisboa e Coimbra. Mas eu gosto deste calor quase infernal. Ontem passeava de carro no Eixo Norte-Sul, 38º de temperatura, de vidros abertos, quando podia fechá-los e instalar-me no ar condicionado.
Não sei por que gosto tanto do calor. Chateia-me como a toda a gente (chateia mais os gordos e os asmáticos). Mas até na chatice e no excesso do calor eu tenho uma espécie de prazer, uma espécie de alegria.
Para mim o calor em excesso é uma alegria em excesso.
 
EH Carr (1892-1982)
Tinha estado a escrever um long post sobre isto; cheguei ao fim e o computador atirou tudo fora. Tenham paciência, não tenho saúde para repetir, muito menos a uma hora destas. Estava a dizer-vos que terminei umas provas académicas que me levaram tempo demais e que foi por isso que não escrevi nos últimos dias. Estava a dizer que as provas - dois textos, um longo e um curto - são sobre EH Carr, um autor que muito admiro. Estava a acrescentar que ficaria muito feliz, mas muito feliz, que alguém lesse e comentasse o que escrevi - e da forma mais feroz possível. Estava a dizer-vos que gosto mesmo que me critiquem violentamente este tipo de textos, talvez porque isso ajuda imenso, talvez porque para criticar violentamente este tipo de coisas é preciso o trabalho de as ler.
Sobre Carr falarei noutra altura, talvez. Agora deixo os links, embora com uma ressalva: sendo umas provas académicas recém-entregues, que ainda serão discutidas, devem encarar-se estes textos como provisórios: por um lado, não convém citar (nem copiar sem indicar a fonte); por outro, gostaria de receber comentários para as modificações que venha a fazer quando for o momento de, como espero, os publicar.
 
O único que interessa
Os discos com que tenho passeado no carro nos últimos dias são dos que mais gosto. Não dá para falar agora do Velô, do Caetano, nem do New York, do Lou Reed (donde eu tirei a frase que pus em epígrafe depois desta Praia e que é, for all I know and all I care, o melhor disco de rock da história da humanidade).
Vou só falar duma gravação de uma noite passada por Vinícius de Moraes em casa de Amália Rodrigues, com Natália Correia, Ary dos Santos e David Mourão-Ferreira, em 18 de Dezembro de 1968. Ouvi-o pela primeira vez na TSF no dia do 1º aniversário da morte da Amália, no carro, a caminho do emprego (não do meu). Fiquei completamente fascinado. É lá - e só lá, do que conheço - que se encontra a versão completa do "Dia da Criação", com a parte III que há uns dias o País Relativo transcrevia. A gravação foi editada em cd nos primeiros meses de 2001, e há poucas coisas que me emocionem tanto.
Justificava-se falar disto detalhadamente, com o disco ao lado, destacando algumas passagens. Agora não há tempo para isso. Sugeria que o fizessem por vocês mesmos. É natural que comecem por ficar encantados com a voz da Amália que, em 1968, estava certamente no seu auge, de uma limpidez extraordinária; e também com os dotes do Vinícius. Um dos encantos maiores do disco - e eu, hoje, gosto imenso de tudo, do Ary dos Santos à Natália Correia, incluindo a sua pose coquette e parva nalgumas passagens - é que vão ficando progressivamente todos notoriamente bêbados - pelo menos o Vinícius, a Natália Correia e o Ary dos Santos. A Natália perde metade da pose e diz poesia por vontade, por paixão. O Vinícius diz e faz o que só ele poderia dizer, contar e fazer. Os trechos do Vinícius são todos fantásticos, mas o culminar é mesmo o final, o discurso tocadíssimo que ele faz sobre o que leva dos portugueses.

"O contacto foi o mais amoroso possível, e esse é o único tipo de contacto que me interessa."
 
Regresso
Regresso daqui a umas horas para o Brasil, ao fim de exactamente sete meses. Não foram sete meses tristes, nem chatos, mas difíceis.
Acabei por não conseguir escrever praticamente nada nos últimos dias. Não sei também que condições terei para escrever de lá. Espero que, do ponto de vista prático, seja possível; mas se a cabeça vai querer também é incerto. Ninguém sabe o que nos acontece do lado de baixo do equador, muito menos em férias, muito menos quando se suspirou por elas longamente.
É quase certo que não lerei blogs enquanto lá estiver - assim como assim, já não tenho lido nos últimos dias. Ficaria muito grato se algum blogger que resolva referir-se a mim enquanto eu estiver fora tivesse a gentileza de me informar por email, porque eu provavelmente não vou ver.
Entretanto, beberei muitas caipirinhas e procurarei não escrever alcoolizado.
 

quarta-feira, julho 30, 2003

Teresa de Sousa: a cabala e a pedofilia
Os dois últimos dias têm sido de trabalho excessivamente intenso para poder escrever aqui. Espero retomar os posts amanhã. Entretanto, tive finalmente agora oportunidade de olhar para o jornal de hoje e gostei do artigo da Teresa de Sousa . É demasiado longo, por isso transcrevo a parte que me parece mais importante:

"Atente-se esta sequência de factos. O PÚBLICO noticia que continuam até à data as escutas telefónicas ao secretário-geral do PS, com uma abundância e uma persistência no mínimo inquietantes, dado que Ferro Rodrigues não é arguido em nenhum processo. A notícia do PÚBLICO é imediatamente desmentida em dois outros jornais nacionais, para ser confirmada ao pormenor pelo PÚBLICO logo a seguir. A reacção não se fez esperar. Alguns dias depois, fica a saber-se pelos jornais - outros jornais - que o líder socialista estava afinal a ser investigado num estranho caso que envolvia um centro de estudos e investigação do ISCTE com eventuais ligações à pedofilia. Mais uma passada de lama sobre a direcção socialista, de contornos vagos, de origem não identificada, mas suficientemente "picante" para merecer as mais diversas especulações.
Não é preciso possuir-se um especial espírito conspirativo para se admitir a existência de uma "central" (ou mais do que uma?) que gere criteriosamente as informações que vão pingando para a imprensa para obter determinados efeitos.
Segunda constatação empírica, que também já deixou de exigir um particular culto pelas teorias da conspiração: curiosamente e de há algum tempo para cá, o muito complexo e certamente muito vasto processo da pedofilia parece ter apenas um alvo: Ferro Rodrigues e a direcção actual do Partido Socialista. Curiosamente, nesta nebulosa de informações a conta-gotas, de boatos, de "teorias" e de suspeições, os partidos que estão actualmente no poder emergem total e absolutamente incólumes. Como se nunca tivessem tido nada a ver com a gestão da Casa Pia, como se estivessem protegidos por um cordão sanitário inviolável a quaisquer rumores ou especulações.
Compreender-se-ia facilmente o cuidado que o governo tem posto no tratamento público desta questão - que envolve a separação de poderes e a independência da justiça - não fora o facto de Durão Barroso não ter conseguido resistir à tentação populista na sua última entrevista televisiva antes de férias. O primeiro-ministro quebrou a sua circunspecção com uma tirada desnecessária que dá outra tonalidade política ao silêncio do seu governo e, sobretudo, do seu partido - a sua satisfação pelo facto de a justiça atingir finalmente os "poderosos."
Também o silêncio do PSD enquanto tal (quebrado, é certo, por algumas das suas figuras a título individual) sobre a manifesta e incontornável crise da justiça posta em evidência pelo processo da Casa Pia - sobre o abuso da prisão preventiva, sobre as escutas telefónicas, sobre a quebra sistemática do segredo de justiça - começa a ser demasiado ruidoso."

O que isto significa - para mim - é que, para lá das maneiras por vezes desadequadas, muitas vezes imprecisas, em que Ferro Rodrigues tem colocado a questão, eu acredito que a tese da "cabala" (que não é uma palavra feliz, de qualquer maneira, e Ferro diz que não a disse, mas houve amigos meus que disseram, logo no dia 21/5) não deve ser ridicularizada, mas, pelo contrário, tomada a sério e investigada. Penso que penso o mesmo que a Teresa de Sousa neste texto: que temos obrigação de não nos deixarmos comer por parvos.

É claro - e este comentário agora é politicamente muito inoportuno, mas que se lixe, isto é o meu blog - que, quando nos dizem que o abuso sexual de adolescentes (que, ao que parece, se prostituíam) é "o mais hediondo dos crimes", também estão a tentar comer-nos por parvos.
É evidente que abusar sexualmente de adolescentes é um crime, e agravado se isso for, como é no caso, feito sobre a condição social e pessoal extraordinariamente precária das pessoas que crescem na Casa Pia. E é evidente que eu não sei quantas crianças, em sentido estrito, foram violadas. O que eu estou agora a dizer é que um mínimo de decência na discussão imporia que nem tudo fosse tratado como pedofilia.
Espero não me enganar, nem à luz da lei nem à luz da medicina: abusar sexualmente de um menor de quinze anos é crime, e como crime é pior do abusar sexualmente de adultos; mas não é pedofilia.
 

segunda-feira, julho 28, 2003

Paixão
(Conversa com um amigo, à hora do lanche)
- Há quanto tempo é que não gostas de ninguém?
- Eu às vezes gosto.
 

domingo, julho 27, 2003

Lisboa
Ainda bem que não estou desterrado em Coimbra. Em dias como hoje Lisboa é um privilégio.
 
Pessimismo de Schopenhauer
Tenho ainda menos paciência para os diários do Vergílio Ferreira do que os mais ferozes dos meus detractores têm para o meu blog. No entanto, nos últimos dias tenho-me lembrado de uma entrada que li em 1994, e que na altura copiei para um computador a que entretanto perdi o rasto. Conseguia lembrar-me que o texto devia ser do Verão de 1975, ou 1976 ou 1977, de modo que esta manhã fui à fnac e lá estava, no 1º volume da Conta-Corrente (p.346). Gastei três contos num livro que provavelmente nunca terei paciência para ler. Diz assim:

[10.8.1976]
Andar pela manhã no silêncio do pinhal, ficar preguiçando com o sono inserido ainda em cada célula do corpo. Depois preparar a ida à praia, ensacar as toalhas, os fatos de banho. Avançar pela praia, respirando o frescor marinho, despir-me, estender-me ao sol. Sentir o calor atacar-me todo o corpo, morder-me as costas, o peito, as pernas. Fechar os olhos à dormência do mar, ouvir-lhe o fervor, suspenso de mim. Mergulhar nas águas, sentir o frio constrito apertar-me à essencialidade. Deitar-me de novo a aquecer, sentir de novo a dormência do sol. Ir ao Zé do Café buscar o almoço num cabaz, almoçar na frescura da casa em penumbra, beber um vinho branco gelado e vivaz que ele lá tem. Ir tomar um café, voltar pelo sol entre os pinheiros, fechar as persianas do escritório, deitar-me na cama que lá há, adormecer. Sentar-me no sofá com um cartão nos joelhos, escrever, ler depois até à hora do jantar. Ver TV e ler ainda nos intervalos da atenção. Levar um livro para a cama, muitas vezes A Cidade e as Serras, para uma maior fascinação. E adormecer.
Assim vivo e comento o pessimismo de Schopenhauer.
 
Heróis
De todos os meus heróis, e tenho vários, nenhum, salvo o meu avô, é maior do que o Calvin.
Lembro-me quando o vi pela primeira vez, num dos números zero do Público, e não achei graça, provavelmente porque nos jornais a que eu estava habituado - o Diário de Notícias, O Independente, o Expresso - não havia comics, e também porque a primeira tira, em que o encontro do Calvin e do Hobbes é relatado, assenta basicamente num nonsense que, sem conhecer ainda os personagens, não é fácil de entender.
Em que reside o génio extraordinário do Calvin como cartoon? Parece-me que é essencialmente no facto de ser a expressão de uma cabeça só que se manifesta na forma de dois personagens. O que superficialmente aparece como "histórias", como descrições de acontecimentos supostamente "reais", é a representação de movimentos internos de uma cabeça, na dupla forma de Calvin e de Hobbes. A existência de Calvin com o seu alter-ego Hobbes permite um grau de loucura ao primeiro que seria paranoica sem o contraponto do segundo. É provavelmente a mistura de megalomania do Calvin com a auto-ironia corporizada no alter-ego Hobbes, acrescentada ainda de um entusiasmo inexcedível pelas coisas e alguns raros momentos de descarada ternura que faz do Calvin um herói tão fantástico. É isso tudo, e ainda a forma, que pode não se ver se não se quiser ver, como o universo adulto e o universo infantil se misturam, como nesta tira, ou nesta, ou nesta.
O Calvin começou a ser publicado em Novembro de 1985 e teve a sua última tira em 31 de Dezembro de 1995. O seu autor, Bill Watterson, ainda é relativamente jovem, nasceu em 1958, e optou por um estado de quase total reclusão que praticamente não permite saber a que se dedica hoje - a não ser referências muito vagas a que se dedica a "aprender pintura".
De todos os livros publicados, o que eu gosto mais - e é na verdade dos livros que gosto mais na vida - é o "The Calvin & Hobbes tenth anniversary issue" (está, como todos, traduzido em português, mas as traduções nunca são tão boas), porque inclui uma introdução relativamente longa em que Bill Watterson se expõe, relaciona algumas das tiras com coisas que lhe estavam a acontecer quando as desenhou e faz reflexões várias a propósito dos bonecos. Eis outra coisa de que gosto no Calvin: se há actualidade presente nas tiras, é a actualidade da cabeça do autor, e nunca o comentário directo a acontecimentos de fora.
Quando o Calvin acabou imaginei um final tristíssimo, uma morte de que ia ser difícil recuperar. Mas a última tira é tão notável, tão brilhante, tão entusiasmante, que, mesmo referindo-se ao fim, é até hoje das minhas preferidas. Como não consigo copiá-la para aqui, não me resta senão fazer o link.
 

sábado, julho 26, 2003

Sobering experience
Há duas noites atrás, à saida de O Nome e o NIM, o filme da Inês Oliveira que ganhou o Festival de Curtas-Metragens de Vila do Conde e que realmente é bom, encontrei o Fernando Cabral, professor de jornalismo no Pedro Nunes, herói de gerações, para mim, para o André, para o Daniel. Ele reconheceu-me, isto é: quando lhe disse que tinha sido aluno dele não se permitiu duvidar. Eis a glória e a fama a que posso aspirar pouco mais de dez anos depois.
 
Terapia
De acordo com a secção do Público que eu e o Lomba mais apreciamos, hoje é dia de aniversário do Kevin Spacey. Em vez de passar a noite como uma típica vítima de fadiga crónica, justificava-se mais uma sessão de manly self-assertiveness em frente ao dvd a ver o American Beauty.
 
Antibiótico
Ó Filipe, o que é pior: arrancarem-te um siso ou aguentar os efeitos da porra do antibiótico?
 
Peregrinação à fnac
Fui à fnac em peregrinação para comprar dois livros que me tinham indicado: uns comics e um Javier Marías. Não vou lê-los já, porque agora tenho com urgência que acabar um trabalho que estou a fazer. Por quê então a pressa de ir comprá-los para não os ler? Eu não fui às compras; fui visitar umas pessoas ausentes.
 
Escrever todos os dias
Há uma obrigação de escrever todos os dias? Só tive um diário durante alguns meses da minha vida, e ainda hoje ele permanece um relativo mistério para mim. Foi no início da adolescência. Tinha não só que ser escrito todos os dias, mas em cada dia assinalava detalhadamente, quase burocraticamente, aquilo que havia sido feito de mim. Era uma acumulação de factos. E eu escrevia-o com a plena consciência desta obsessão pelos factos, e com plena inconsciência das motivações para tal obsessão. Os que me conhecem sabem que esta mania deixou traços até hoje: uma acumulação irrazoável de factos, datas, nomes, números de telefone na minha memória, montanhas de informação abismalmente fixadas sem nenhum propósito útil. Para quê? E - sobretudo - porquê? Tenho uma teoria vagamente psicanalítica (em sentido lato) sobre o assunto, mas guardo-a para mim.
O meu diário desse tempo era um diário em sentido tão literal que, quando, por alguma razão, não o escrevia, me dedicava mais tarde a reconstituir escrupulosamente o que se tinha passado naquele dia anterior, até, com o atraso, ser totalmente impossível chegar a escrever as reflexões do dia no próprio dia. Mas com detalhe positivista assinalava também o dia em que escrevia a reconstituição do outro dia que não tinha escrito. Marado.

E há sobre esse diário, e outras formas de lixo que fui produzindo em escrita, um segundo mistério. Embora eminentemente descritivo, esse diário era ainda assim secreto. No entanto, não sei onde ele pára neste momento, sendo certo que não o destruí. E larguei páginas e páginas de lixo íntimo em computadores a que perdi o rasto.
Eis uma das vantagens do blog: a porcaria que aqui escrevo é por definição pública. Não há dois movimentos.
 

sexta-feira, julho 25, 2003

Resposta sobre Cuba
A propósito do post que escrevi relativamente às opiniões de alguns comunistas sobre as execuções em Cuba, recebi o email que transcrevo.
Inspirado no modelo da secção de cartas do Economist - e inspirado pelo desejo de não imitar o José Manuel Fernandes -, não faço nenhum comentário.

"É grave dizer que há militantes comunistas que defendem o assassínio como método de persuasão. A posição sobre a pena de morte não tem nada a ver com o marxismo-leninismo, mas apenas com o princípio romano de que a salvação do povo (ou da República) é a lei suprema. O mesmo princípio que pode justificar o recurso à guerra.
Justamente em situações de guerra as ordens jurídicas em geral prevêem a pena de morte para a colaboração com o inimigo. Nem doutro modo se podia exigir dos soldados o sacrifício da vida.
Ora a situação de Cuba é equivalente a esta.
A propaganda em torno da pena de morte em Cuba - que, pela boca do Fidel Castro, afirma a intenção de a abolir logo que possível - é sobretudo intolerável porque se refere a um conflito com os Estados Unidos e tem sempre como pano de fundo o confronto entre um sistema socialista e o tal país que representa "o melhor do século XX". País tão extraordinário que conseguiu a selvajaria, julgo que inédita em condições de paz, de ter reposto a pena de morte depois de superar um breve acesso de civilização que levara a aboli-la nos anos 70."
 
País Relativo
Há dias em que acredito no País Relativo.
 
Especial K
Ando há dias a tentar pensar num pretexto para pôr aqui este poema.
Encontrei: é que ando há dias a tentar arranjar um pretexto para pôr aqui este poema.

Ricardo Reis
12-6-1914


Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassosegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento —
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova
,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim — à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.


Se este meu blog fosse tão livre como era no princípio, provavelmente contaria aqui uma história que agora só posso reservar para diários íntimos e emails pessoais. Uma vez tive uma namorada depois de ter tido com uma outra namorada uma relação longa e turbulenta. Comecei a relação com esta segunda namorada como quem não quer a coisa. Eu não queria conscientemente a coisa, e depois não consegui senão querê-la. Enfim, pouco importa. Provavelmente para dar uma solução mental a estes impulsos contraditórios, ao fim de uma semana ofereci-lhe este poema. Suponho que não o percebeu, ou não quis percebê-lo, ou por tê-lo percebido sem ter querido percebê-lo é a única das minhas ex-namoradas que até hoje prefere fingir que eu não existo.
 
Good value for money
O catálogo da exposição do Centro de Artes Visuais de Coimbra, que hoje se vende a dez euros com o Público, e que para além de óptimas fotografias (por exemplo, de Inês Gonçalves) tem um texto de Paulo Varela Gomes.
O downside é que não tem índice e tem um texto do Durão Barroso. Mas é pequenino.
 
"Arregimentação irracional em defesa de Pedroso"
Hoje sugiro que depois da leitura de Miguel Sousa Tavares regressem ao que escreveu o Comprometido Espectador na semana passada. Abençoado liberalismo.
 

quinta-feira, julho 24, 2003

Wrong, and proud of it
Num post sugestivamente intitulado "Quem foi Ivan Nunes?", a cibertulia lembra que fui "o único que votou contra a edificação do Bloco de Esquerda, numa famosa reunião na Barraca". Num post seguinte, mais ou menos saúda-me por isso.
Votei convictamente, e hoje convictamente esclareço que estava enganado.
 
Sitemeter
Tenho o sitemeter instalado na mailbox e estou muito contente com ele porque é qualitativo.
 
O problema com a América
Only in America - part II
By ERIC HOBSBAWM
From the issue dated July 4, 2003
http://chronicle.com

To what extent has the United States changed in my lifetime, or at least in the 40-odd years since I first landed there? [...]

Curiously, the experience, what in the '60s they used to call «the vibes,» of the U.S.A. has changed much less than that of other countries I have known in the past half-century. There is no comparison between living in the Paris, the Berlin, the London of my youth and those cities today; even Vienna, which deliberately hides its social and political transformation by turning itself into a theme park of a glorious past. [...] Changes there looked less dramatic to us because the sort of prosperous high-tech mass-consumer society that did not arrive in Western Europe until the 1950s was not new in America. Whereas I knew by 1960 that a historic chasm divided the way Britons lived and thought before and after the middle '50s, for the U.S.A. the 1950s were, or at least looked like, just a bigger and better version of the kind of 20th century its more prosperous white citizens had known for two generations, its confidence recovered after the shock of the Great Slump. [...] California did not seem fundamentally different to me driving through it in the 1970s, 1980s, and 1990s from what it had looked and felt like in 1960, whereas Spain and Sicily did. New York had been a cosmopolitan city of immigrants for all my lifetime; it was London that became one after the 1950s. The details in the great carpet of the U.S.A. have changed, and are constantly changing, but its basic pattern remains remarkably stable in the short run.

[...] Forced into the straitjacket of an 18th-century Constitution reinforced by two centuries of Talmudic exegesis by the lawyers, the theologians of the republic, the institutions of the U.S.A. are far more frozen into immobility than those of almost all other states. It has [...] made the government of the U.S.A. largely immune to great men, or indeed to anybody, taking great decisions, since rapid, effective national decision-making, not least by the president, is almost impossible. The United States, at least in its public life, is a country that is geared to operate with mediocrities, because it has to, and it has been rich and powerful enough to do so. It is the only country in my political lifetime where three able presidents (F.D.R., Kennedy, Nixon) have been replaced, at a moment's notice, by men neither qualified nor expected to do the job, without making any noticeable difference to the course of U.S. and world history. Historians who believe in the supremacy of high politics and great individuals have a hard case in America. That has created the foggy mechanisms of real government in Washington, made even more opaque by the sensational resources of corporate and pressure-group money, and the inability of the electoral process to distinguish between the real and the increasingly restricted political country. So, since the end of the U.S.S.R., the U.S.A. has quietly prepared to function as the world's only superpower. The problem is that its situation has no historical precedent, that its political system is geared to the ambitions and reactions of New Hampshire primaries and provincial protectionism, that it has no idea what to do with its power [...]. As the victorious U.S.A. prepares for the post-Iraq presidential elections, uncertainty surrounds even the public discourse, which veers between the language of ruthless power politics, self-delusion, lies, and Orwellian newspeak.

Our problem is not that we are being Americanized. In spite of the massive impact of cultural and economic Americanization, the rest of the world, even the capitalist world, has so far been strikingly resistant to following the model of U.S. politics and society. That is probably because America is less of a coherent and therefore exportable social and political model of a capitalist liberal democracy, based on the universal principles of individual freedom, than its patriotic ideology and Constitution suggest. So, far from being a clear example that the rest of the world can imitate, the U.S.A., however powerful and influential, remains an unending process, distorted by big money and public emotion, a system tinkering with institutions, public and private, to make them fit realities unforeseen in the unalterable text of a 1787 Constitution. [...]

Our problem is rather that the U.S. empire does not know what it wants to do or can do with its power, or its limits. It merely insists that those who are not with it are against it. That is the problem of living at the apex of the "American Century." As I am 86 years of age, I am unlikely to see its solution.
 

quarta-feira, julho 23, 2003

Um magnífico texto
Only in America
By ERIC HOBSBAWM
From the issue dated July 4, 2003
http://chronicle.com

Looking back on 40 years of visiting and living in the United States, I think I learned as much about the country in the first summer I spent there as in the course of the next decades. With one exception: To know New York, or even Manhattan, one has to live there. For how long? I did so for four months every year between 1984 and 1997, but even though my wife, Marlene, joined me for the whole semester only three times, it was quite enough for both of us to feel like natives rather than visitors. I have spent a lot of time in the U.S.A. teaching, reading in its marvelous libraries, writing, or having a good time, or all together in the Getty Center in its days in Santa Monica, but what I learned from personal acquaintance with America was acquired in the course of a few weeks and months. Were I a de Tocqueville, that would have been quite enough. After all, his Democracy in America, the best book ever written about the U.S.A., was based on a journey of not more than nine months. Alas, I am not de Tocqueville, nor is my interest in the U.S.A. the same as his.

If written today, de Tocqueville's book would certainly be attacked as anti-American, since much of what he said about the U.S.A. was critical. Ever since it was founded, the U.S.A. has been a subject of attraction and fascination for the rest of the world, but also of detraction and disapproval. However, it is only since the start of the cold war that people's attitude to the U.S.A. has been judged essentially in terms of approval or disapproval, and not only by the sort of inhabitants who are also likely to seek out «un-American» behavior in their own fellow citizens, but also internationally. It substituted the question «Are you with the U.S.A.?» for the question «What do you think of the U.S.A.?» What is more, no other country expects or asks such a question about itself. Since America, having won the cold war against the U.S.S.R., implausibly decided on September 11, 2001, that the cause of freedom was again engaged in another life-and-death struggle against another evil, but this time spectacularly ill-defined enemy, any skeptical remarks about the United States and its policy are, once again, likely to meet with outrage.

And yet, how irrelevant, even absurd, is this insistence on approval! Internationally speaking, the U.S.A. was by any standards the success story among 20th-century states. Its economy became the world's largest, both pace- and pattern-setting; its capacity for technological achievement was unique; its research in both natural and social sciences, even its philosophers, became increasingly dominant; and its hegemony in global consumer civilization seemed beyond challenge. It ended the century as the only surviving global power and empire. What is more, as I have written elsewhere, «in some ways the United States represents the best of the 20th century.» If opinion is measured not by pollsters but by migrants, almost certainly America would be the preferred destination of most human beings who must, or decide to, move to a country other than their own, certainly of those who know some English. As one of those who chose to work in the U.S.A., I illustrate the point. Admittedly, working in the U.S.A., or liking to live in the U.S.A. -- and especially in New York -- does not imply the wish to become American, although this is still difficult for many inhabitants of the United States to understand. It no longer implies a lasting choice for most people between one's own country and another, as it did before the Second World War, or even until the air-transport revolution in the 1960s, let alone the telephone and e-mail revolution of the 1990s. Binational or even multinational working and even bi- or multicultural lives have become common.

Nor is money the only attraction. The U.S.A. promises greater openness to talent, to energy, to novelty than other worlds. It is also the reminder of an old, if declining, tradition of free and egalitarian intellectual inquiry, as in the great New York Public Library, whose treasures are still, unlike in the other great libraries of the world, open to anyone who walks through its doors on Fifth Avenue at 42nd Street. On the other hand, the human costs of the system for those outside it or who cannot «make it» were equally evident in New York, at least until they were pushed out of middle-class sight, off the streets or into the unspeakable univers concentrationnaire of the largest jail population, per capita, in the world. When I first went to New York, the Bowery was still a vast human refuse dump or «skid row.» In the 1980s it was more evenly distributed through the streets of Manhattan. Behind today's casual mobile-phone calls on the street, I still hear the soliloquies of the unwanted and crazy on the pavements of New York in one of the city's bad decades of inhumanity and brutality. Human wastage is the other face of American capitalism, in a country where «to waste» is the common criminal slang for «to kill.»

Yet, unlike other nations, in its national ideology the U.S.A. does not simply exist. It only achieves. It has no collective identity except as the best, the greatest country, superior to all others and the acknowledged model for the world. As the football coach said: Winning is not just the most important thing, it is all there is. That is one of the things that makes America such a very strange country for foreigners. Stopping for a brief holiday with the family in a small, poor, linguistically incomprehensible seaside town in Portugal, on the way back from a semester in New England, I still remember the sense of coming home to one's own civilization. Geography had nothing to do with it. When we went on a similar holiday to Portugal a few years later, en route this time from South America, there was no such feeling of a culture gap overcome. Not the least of these cultural peculiarities is the U.S.A.'s own sense of its strangeness («Only in America ... »), or at least its curiously unfixed sense of self. The question that preoccupies so many American historians of their own country, namely, «What does it mean to be American?,» is one that rarely bothered my generation of historians in European countries. Neither national nor personal identity seemed as problematic to visiting Brits, at all events in the 1960s, even those of complex Central European cultural background, as they seemed in local academic discussions. «What is this identity crisis they are all talking about?» Marlene asked me after one of them. She had never heard the term before we arrived in Cambridge, Mass., in 1967.

Foreign academics who discovered the U.S.A. in the 1960s were probably more immediately aware of its peculiarities than they would be today, for so many of them had not yet been integrated into the omnipresent language of globalized consumer society, which fits in well with the deeply entrenched egocentricity, even solipsism, of American culture. For, whatever was the case in de Tocqueville's day, not the passion for egalitarianism but individualist, that is anti-authoritarian, antinomian, though curiously legalistic, anarchism has become the core of the value system in the U.S.A. What survives of egalitarianism is chiefly the refusal of voluntary deference to hierarchic superiors, which may account for the -- by our standards -- everyday crudeness, even brutality with which power is used in and by the U.S.A. to establish who can command whom.

It seemed Americans were preoccupied with themselves and their country, in ways in which the inhabitants of other well-established states simply were not with their own. American reality was and remains the overwhelming subject of the creative arts in the U.S.A. The dream of somehow encompassing all of it haunted its creators. Nobody in Europe had set out to write «the great English novel» or «the great French novel,» but authors in the United States still try their hand (nowadays in several volumes) at «the great American novel,» even if they no longer use the phrase. Actually, the man who came closest to achieving such an aim was not a writer, but an apparently superficial image-maker of astonishingly durable power, of whose significance the British art critic David Sylvester persuaded me in New York in the 1970s. Where else except America could an oeuvre like Andy Warhol's have come into being, an enormously ambitious and specific, unending set of variations on the themes of living in the U.S.A., from its soup cans and Coca-Cola bottles to its mythologies, dreams, nightmares, heroes, and heroines? There is nothing like it in the visual-arts tradition of the old world. But, like the other attempts by the creative spirits of the U.S.A. to seize the totality of their country, Warhol's vision is not that of the successful pursuit of happiness, «the American dream» of American political jargon and psychobabble. (...)
 
A América de Hobsbawm
O texto que acabei agora de ler - um artigo de Eric Hobsbawm, intitulado "Only in America", publicado no The Chronicle a 4 de Julho - é um dos melhores que li este ano. Infelizmente, é de acesso restrito (embora qualquer pessoa possa aceder à página gratuitamente durante um mês) e é muitíssimo longo para ser inteiramente transcrito num blog. Agradeço imenso à Joana, que mo fez chegar, e vou ter a ousadia de reproduzir metade do texto.
Tem várias coisas especialmente curiosas para mim. Em 2000 (penso que foi nessa altura), escrevi no Público uma recensão sobre um livro de Hobsbawm que é um conjunto de entrevistas sobre o século XXI - uma espécie de continuação ultra-light do trabalho que ele fez como historiador sobre o século XIX e como testemunha sobre o século XX. A minha impressão sobre esse livro é genericamente má e, de resto, estou longe de ser um incondicional de Hobsbawm (a ideia que faço do livro sobre A Questão do Nacionalismo, publicado em português, também não é famosa). Mas impressionaram-me muito, e muito bem, as últimas três ou quatro págs., de que então fiz uma citação extensa, no contexto das quais as últimas linhas do livro se referem aos Estados Unidos dizendo o seguinte:

"Por certos aspectos, foram o melhor do século XX, a História de maior sucesso, o que resta e dura para além do seu final".

Hobsbawm volta a referir-se agora a essa frase.
Caetano Veloso também escreveu um magnifico texto, intitulado "Americanos", que se encontra em Circuladô Vivo:

"Americanos são muito estatísticos
Têm gestos nítidos e sorrisos límpidos
Olhos de brilho penetrante que vão fundo no que olham
Mas não no próprio fundo

Os americanos representam grande parte da alegria existente neste mundo."

Talvez nenhuma destas frases pudesse ter sido pensada - ou, pelo menos, não por estas pessoas (ou não entendida por mim desta maneira) - depois do 11 de Setembro. Não se terão tornado falsas de um dia para o outro, mas a ideia que fazemos da América num momento histórico que está a mudar para qualquer coisa de novo não é a mesma.
Se comecei a tal recensão de Hobsbawm com o deslumbramento com aquela citação foi pelo que me revi nela. Tinha ido pela primeira vez aos Estados Unidos em Julho de 1999, a Chicago, e voltei de lá completamente fascinado. E lembro-me de pensar, nos primeiros dias depois de ter chegado a Chicago, que - um pouco como diz Hobsbawm - nunca tinha estado num mundo tão diferente. Nem na Índia.
Impressionaram-me sobretudo a escala e a informalidade.
Os meus regressos à América, incluindo a Nova Iorque, nunca conseguiram assemelhar-se ao fascínio inicial.
No melhor espírito de A Praia - a revista que não chegou a existir, onde nós queríamos sobretudo publicar bons textos mais do que textos nossos - a seguir transcrevo uma larga parte de Hobsbawm. É curioso ele ter-se lembrado de estabelecer comparações com Portugal.
Hobsbawm nasceu em 1917, tem agora 86 anos, e pelos textos mais recentes eu estava longe de imaginar que ainda fosse capaz de escrever alguma coisa assim.
 
Dois diários
Curioso o que Pacheco Pereira (19.7.2003) diz de Tolstoy:

"Tolstoy escreveu vários diários, durante praticamente toda a vida. Atribuía-lhes grande importância e chegou a dizer «o meu diário sou eu». Disse «vários» porque, nalguns momentos, escrevia dois ao mesmo tempo, um dos quais intitulava de «secreto». Esta classificação de per si coloca o outro diário como quase «público» – Tolstoy falava dele aos seus próximos e é provável que estes conhecessem algumas entradas."

Eu, que praticamente nunca escrevi um diário, chego a pensar em criar um íntimo agora só porque tenho um que é público. O que se fazia antes sem problemas dentro da minha cabeça tem que passar para fora da cabeça por, em virtude do blog, ter ficado por dentro inundado de ruído.
 
A Praia do Público
O Público hoje traz um artigo enorme de José Neves intitulado "A Praia" - nada que ver com a minha. Eu e José Neves não somos membros de nenhuma organização política em comum; no passado talvez pudessemos ter sido, e do futuro ninguém sabe. Algumas ideias do artigo parecem-me simpáticas, outras nem isso. Mas revejo-me nesta passagem:
"É o bronze contra a pureza, a rebentação contra o território, a vida contra o trabalho. (...) Contra a Europa das Pátrias, a Europa das Praias."

Só é pena as praias da Europa serem uma porcaria. Não dá para juntar a América Latina?

PS. Mas, mais uma vez, estou com o Mexia: "isto não é política". O post dele é mauzinho mas não é injusto.
 
Pena de morte e assassinato como método político
Hoje comprei A Capital (antes ou depois de arrancar o siso?), por causa de uma entrevista a Ruben de Carvalho com chamada de primeira página: "Pena de morte em Cuba pode justificar-se".
A entrevista compõe-se das contorções retóricas característica do personagem em concreto e de uma cultura polí­tica mais vasta. RC tem fama de ser muito inteligente, e por isso diz coisas tão inteligentes como:
"Estranho é que uma pessoa que teve exactamente a mesma noção, que eu mantenho, que sou um comunista, e que tenha partilhado comigo esse ponto de vista, tenha deixado de o ter e tenha continuado a afirmar-se comunista."

"P: Quando foram conhecidas as pesadas penas de prisão e as execuções em Cuba a posição do PCP não ficou muito clara. Não concorda?
R: Nós temos uma posição que como é evidente não pode ser muito clara, porque a situação ela própria assim o obriga. A situação é esta: nós temos uma posição claríssima contra a pena de morte. Temos essa posição absolutamente clara. Mas também temos simultaneamente uma posição de não nos imiscuirmos na acção política de outros partidos e nomeadamente de partidos com quem temos relações de amizade, fraternidade e solidariedade, como é o caso concreto do partido comunista cubano. Portanto, aquilo que fizemos foi reafirmar a nossa posição, para que não restem dúvidas, contra a pena de morte e manifestarmos também a nossa solidariedade com a situação cubana. A forma como os camaradas cubanos resolvem os problemas é lá com eles."

"Se alguém quiser fazer alguma coisa por Cuba e pela solução dos problemas daquela terra, então têm de acabar primeiro com o embargo."

Estou, na verdade, a marimbar-me para as entrevistas de Ruben de Carvalho, porque já sei do que a casa gasta. Mas comprei A Capital por há meses ter tido uma conversa com um militante comunista sobre o mesmo assunto, que me deixou a pensar.
Estávamos nessa altura a falar sobre a pena de morte em abstracto - nada que ver com Cuba. Esse militante é sinceramente contra a pena de morte. Estava a comentar comigo a impressão que lhe fazia o facto de certas pessoas defenderem a pena de morte por desejo de vingança. Acrescentou que a pena de morte é uma impossibilidade lógica, pois aquele que morre não sofre, depois de morto, nenhuma pena; e enquanto vivo sofre apenas a condenação de saber que irá ser morto.
O militante comunista fez então a ressalva de que não era contra a pena de morte em Cuba, na medida em que fosse indispensável à "salvação do socialismo".
O que me deixou a pensar que o referido militante comunista não é a favor da pena de morte em Cuba, pois ele já tinha desfeito suficientemente os argumentos a favor da pena de morte. O militante comunista sabe que a pena de morte é impensável dentro de qualquer quadro jurídico. O que o militante comunista me estava a dizer é que era a favor do assassinato como método político. No caso concreto, método de persuasão política de todos os que, de outra forma, pudessem querer tornar-se dissidentes.
Há quem ache que esta posição decorre de uma filosofia marxista-leninista. Mas eu suspeito que chamar-lhe isso é apenas uma forma de - para ser muito brando - embelezar uma tolice.
 
Burrice e siso
Acabo de arrancar um siso. Tendo em conta a quantidade de hate-mail que tenho recebido nos últimos dias por só falar de mim, nunca me atreveria a falar do meu malogrado siso não fosse o vasto pedigree literário que as dores de dentes têm.
Que fique registado que foi por inteira culpa minha que disse adeus ao siso. Durante mais de um ano andei a adiar a ida ao dentista porque tinha sempre mais que fazer. Acabei por ir em crise e abcesso, e sofri o destino que sofrem todos os bárbaros que nunca se querem tratar. A culpa foi minha; a sorte foi ser só um siso.
Estou mal-disposto (e a papas) para o resto do dia. Para me compensar (da minha própria burrice) hoje só faço o que me apetecer. Consequentemente, trabalho nenhum e provavelmente alguns posts.
 
1973
Breve consideração à margem do ano assassino de 1973
Vinícius de Moraes


Que ano mais sem critério
esse de 73
Levou para o cemitério
três Pablos de uma só vez

Três Pablões, não três pablinhos
No tempo como no espaço
Pablos de muitos caminhos:
Neruda, Casals, Picasso.

Três Pablos que se empenharam
contra o fascismo espanhol
Três Pablos que muito amaram
Três Pablos cheios de Sol.

Um trio de imensos Pablos
em gênio e demonstração
Feita de engenho, trabalho
Pincel, arco e escrita à mão.

Três publicíssimos Pablos:
Picasso, Casals, Neruda
Três Pablos de muita agenda
Três Pablos de muita ajuda.
Três líderes cuja morte
o mundo inteiro sentiu

Oh ano triste e sem sorte
Vá prá puta que o pariu

[Gravado ao vivo em São Paulo, 1974, com Toquinho e Quarteto em Cy]
 

terça-feira, julho 22, 2003

Turismo
A Praia está cheia de turistas, como é próprio da saison. Qualquer praia gosta de ser visitada. O pessoal chega, senta-se, começa a fazer barulho. A partir de certa altura é impossível não dar por eles. Dão uma certa alegria ao ambiente. Só depois começamos a ansiar pela hora de pegarem na lancheira e de irem até casa, de nos darem a noite até ao dia seguinte. É que há alturas em que quase não se consegue pensar nem escrever com o pessoal todo a arrotar e jogar raquetes.
 
XXI
Quando eu tinha 15, 16, 18, 21 anos, as pessoas espantavam-se por eu tão cedo
ter a cabeça tão clara sobre o que queria e fazia da vida.
Aos 21 anos é canja. Depois é que é o sarilho.
 
Sexo e adolescentes
(vou escrever sobre isto, mas mais tarde)


Teenage sex
Steamy, heated and wrong
Jul 17th 2003
From The Economist print edition
Britain's new sex law bans teenage kisses. It shouldn't

WEAPONS of mass destruction were blown off Britain's front pages this week by 12-year-old Shevaun Pennington, who decamped for a few days with Toby Studabaker, a 31-year-old American ex-Marine whom she met in an online chatroom. The story hits some of modern Britain's hottest buttons: sex, children and the internet.

For reasons which sociologists struggle to understand, and despite a fall in sexual offences involving children, paedophilia has become a regular, reliable source of newspaper hysteria in Britain in recent years. In response to this outburst of public concern, a new law is now passing through Parliament, making seduction of children over the internet (known as “grooming”) a crime punishable with five years in jail—more if it actually leads to sex. That should encourage grown-ups to think twice before starting steamy online friendships with people of uncertain age and identity, but is an excessive punishment for writing dodgy letters.

More worrying still is the criminalisation of all sexual contact involving children. The existing law already prohibits sexual intercourse or “indecency”, however consensual, with anyone aged under 16. But the new law widens that to include “sexual touching”, which includes fully clothed kisses and cuddles, even among consenting 15-year-olds. They, as the law stands, could face a five-year prison term.

Although an absolute and puritanical approach to juvenile sex may have the virtue of logical consistency, it has the drawback of failing to reflect real life. A third of 16-44-year-old men and a quarter of women say they had full sex before the age of 16. Many will have had their first fumbles behind the bike shed well before that. They may regret it later if they started early, but not because it broke the law.

There are sensible public-policy reasons for encouraging teenagers to engage in sex later rather than sooner, but using the criminal justice system to do it is wrong. It makes the law look an ass; it blurs the important distinction between real child abuse, which is wicked, and teenage canoodling, which is not; it has bad practical consequences, most obviously in discouraging teenagers from seeking advice about contraception and sexually transmitted diseases.


Finnesse
Some Europeans deal with the issue much better. In Finland, for example, sex involving under-16s is illegal, but there is a defence of proximity—“if there is no great difference in the ages or the mental and physical maturity of the persons involved”. Whereas a 22-year-old taking a 14-year-old to bed is probably committing an offence, the same 14-year-old with a school classmate is probably not. That seems commonsensical and workable. The government says that it will advise the Crown Prosecution Service not to pursue children engaged in “harmless consensual sex”. But passing a law which you say you are not going to enforce is a bad idea.

The government is now considering amendments before the bill goes before a parliamentary committee in October. There will be no perfect answer—indeed during the last debate on the bill the home secretary offered champagne to anyone who could come up with a satisfactory law on all this. But an explicit exemption for juvenile sexual behaviour where no abuse is involved is needed. Teenage bedrooms are a difficult enough area of family life without police involvement.
 
Next best thing
Em mais um artigo importante no Público de hoje, Vital Moreira assinala que o juiz Rui Teixeira pode estar a incorrer em crime de abuso de poder punível com pena de prisão até três anos.
"Num Estado de direito decente, um magistrado destes não poderia fugir a prestar contas no foro penal, disciplinar e civil."

Uma coisa destas seria importante e pedagógica, porque ajudaria a fortalecer o nosso Estado de direito.
Em não podendo ser, passar com um camião TIR por cima dos oculinhos do Meretíssimo Teixeira também não estaria mal.
 

domingo, julho 20, 2003

Me, myself and I
Eu tive a felicidade de encontrar mais ou menos por acaso um blog que me arreia porrada. Tem piada e eu andava a pedi-las. Está em Criticar os Blogs:

"A praia poluída
Ivan Nunes continua simplesmente insuportável. Em quinze dias de blog, já conseguiu usar mais de cem vezes (verifiquem se quiserem) a palavra "eu". Comparem com outros blogs pessoais e vejam a discrepância. É um pormenor, sem dúvida. Mas acho esta tendência muito reveladora. Normalmente, até por questões de elegância, o "eu" omite-se. Ivan Nunes não é capaz disso. O mais recente post que se encontra em A Praia, neste momento, tem quatro linhas. E três "eus". "Eu embirro muito com, etc." em vez de "Embirro muito com, etc." A seguir: "fulano não gosta nada da forma como eu me refiro ao assunto" em vez de "fulano não gosta nada da forma como me refiro ao assunto". Depois: "e eu leio-o todos os dias" em vez de "e leio-o todos os dias". Todos os "eus" podem (e devem) ser omitidos, excepto se o objectivo é fazer propaganda a si próprio, como parece ser o caso de Ivan Nunes. Em posts anteriores, Ivan dá-nos conta de títulos muito bons que inventou (segundo a sua opinião distanciada) - "O nome Política XXI também fui eu que inventei" -, eleições que venceu no Pedro Nunes - "Eu não conhecia quase ninguém no liceu e estava a tentar formar uma lista"; "a tal lista que eu andei a formar ganhou as eleições" -, etc. Esperam-se, para breve, relatos sobre a épica vitória de Ivan Nunes no Torneio de Corridas de Caricas da Estrela, em 1983 - "que belo piparote que eu dei!" - e do prestigiante Bom + que obteve numa composição sobre a vaca, na terceira classe - "a vaca dá-nos o leite, escrevi eu"."

Devo, no entanto, fazer uma correcção: eu tive Muito Bom em todas as redacções da escola primária. Nem doutra forma se compreenderia tanta parvoíce.
Descobri que gozam comigo também os reflexos de azul eléctrico e um pulha. Não lhes achei graça, mas agradeço a distinção.
 
Gosto dela na mesma
Estou há uma semana a tentar digerir o ciúme causado por a minha cronista preferida se ter declarado apaixonada pelo Desejo Casar. Esta semana ela escreve mais um óptimo texto.
 
O prazer é todo meu
A minha admiração pelo que o Pedro Mexia escreve, e pelo que disso transparece da personalidade dele, é pública e notória. O assunto tem-me sido tantas vezes referido que já percebi que há quem ache que é um pouco obsessiva. Mas eu sou um pouco obsessivo nos meus entusiasmos, isso é incontestável.
Nem quero escondê-lo, nem um bocadinho, em especial num dia como o de hoje em que o Mexia está muito inspirado. Vejam a forma muito mais elegante do que a minha como ele fala do feedback e vejam a decência e integridade pessoal que transpiram do post sobre o caso DNa. Acho que ele exagera nas vantagens do celibato e nas qualidades do João Pereira Coutinho, mas todos temos o direito a errar. Aliás, mais uma virtude do Mexia: é transparente que ele erra.
E há ainda uma outra razão para me apetecer escrever isto: é que não conheço pessoalmente o Pedro Mexia, e ele, no blog, não me liga peva. Isto é para mim fonte de algum gosto, porque me dá uma liberdade total e absoluta de dizer sobre ele o que me passa pela cabeça. E ainda gosto mais do que ele escreve por ele nem mencionar quem o bajula tão ostensivamente. Parabéns, muito gosto, o prazer é todo meu.
 

sábado, julho 19, 2003

Liberalismo
O Luciano - mas, estou certo, virão mais - acha que as críticas indignadas que se fazem ao processo pelo qual o Paulo Pedroso está a passar são "arregimentação irracional em defesa de Paulo Pedroso". É por estas e por outras que eu não acredito nem por um momento no liberalismo dele.
 
O obsceno
Gosto particularmente do facto de ASS hoje não recuar em chamar a Durão Barroso "o obsceno". Tenho a pior impressão, do ponto de vista intelectual e do ponto de vista moral, do primeiro-ministro. E não acho que haja nenhuma regra própria do debate democrático que nos deva impedir de assinalar a mediocridade intelectual e a falta de escrúpulos nos nossos adversários políticos quando elas saltam à  vista.
 
Augusto Santos Silva
Recomendo vivamente o artigo do Augusto Santos Silva no Público de hoje. Estou de acordo com praticamente tudo o que ele diz sobre o caso Pedroso e não me choca, de maneira nenhuma, o tom indignado em que o diz.
Aliás, acho que é esta paixão que infelizmente costuma faltar aos textos de Santos Silva. Os seus artigos de sábado no Público são, habitualmente, um xarope. Dantes não era assim: antes de ser ministro e de achar que adquiriu grandes responsabilidades de Estado, escreveu alguns óptimos textos, como um, de 1995, sobre "Os óscares, o Benfica e o PSD" e outro sobre a Jane Birkin e o trotsquismo. Podia reeditá-los, só para a gente se lembrar. Hoje em dia parece ter-se esquecido de que é uma pessoa e fala como se fosse uma Entidade.
Augusto Santos Silva foi um dos primeiros grandes entusiasmos que tive na licenciatura em sociologia, e não era meu professor. De resto, durante muito tempo nem lhe conheci a cara. Foi tudo por causa da tese de mestrado dele, que li no primeiro ano, em Teorias Sociológicas. Chama-se Entre a Razão e o Sentido. Durkheim, Weber e a teoria das ciências sociais (Porto, Afrontamento) e foi escrita na primeira metade da década de 1980. Obviamente hoje em dia já ninguém escreve teses de mestrado que sejam importantes e interessantes assim.
 
De nada Luciano
Eu embirro muito com as opiniões políticas do Luciano e ainda mais com o estilo em que ele as exprime; e ele também não gosta nada da forma como eu me refiro ao assunto. Mas estejam atentos: estamos a tentar um entendimento. Aliás, valha a verdade que há muitas coisas no blog dele que me interessam, e eu leio-o todos os dias.
 
Os horríveis cadernos da prisão
O País Relativo não fala sobre o assunto porque possivelmente acha que não pode. Felizmente, o Daniel pode, e eu também posso. Tudo o que se tem passado no caso Paulo Pedroso, desde o início, é inquietante. Também seria ridículo, se não fosse demasiado inquietante. Em primeiro lugar foi aquele papel com o qual o juiz pediu o levantamento da imunidade parlamentar (eu vi como toda a gente viu). Estou de acordo que nós não podemos saber efectivamente se o Paulo Pedroso é culpado ou não, por mais inverosímil que nos pareça, porque ninguém sabe ao certo que coisas faço eu no momento em que desligo este computador. Subscrevo inteiramente o que escreveu o Pedro Mexia , no contexto de uma polémica com o Miguel Esteves Cardoso:
"O Miguel tem uma noção canina da amizade, que o levou por exemplo escrever um texto lamentável sobre Carlos Cruz, com a velha retórica das «mãos no fogo». Ora o Miguel, que é um conservador e um homem muito lido, sabe que a natureza humana não é benigna, que as pessoas não são transparentes e que o ser humano é um abismo. Por isso, o Miguel devia saber que não se pode pôr as mãos no fogo por absoutamente ninguém, sobretudo em domínios tão obscuros como o da sexualidade."
Mas se houve coisa que reforçou em mim, de forma praticamente absoluta, a convicção de que o Paulo Pedroso está inocente foi ter lido aquele documento inacreditável.
O Paulo Pedroso está em prisão preventiva há dois meses, faz daqui por dois dias. Parece que se entretém a escrever um livro sobre o Durkheim que andava para fazer há tempo, para além de ter ajudado outros presos a fazerem o exame de sociologia. Fiquei contente por ver estas notícias porque isto condiz inteiramente com a pessoa decente e intelectualmente muito séria que conheço.
Quando o Paulo Pedroso sair, não se sabe o que terá sido feito da vida dele - da actividade política a que dedicou inteiramente a última década, da carreira profissional em que os novos alunos do 1º ano o conhecerão sempre, e em primeira instância, por ser "o que esteve na história da Casa Pia", da filha, que tem agora cinco anos e não pode ficar indiferente.
Isto acontece com todos os que são presos, e a questão é exactamente essa: penso nisso cada vez que vejo a bebé do Carlos Cruz a caminho da Penitenciária.
O mínimo, dadas as consequências dramáticas que tudo isto implica para a vida das pessoas, é que lhes fossem dadas condições decentes para se defenderem, e não a sensação de que estão sistematicamente a ser vítimas de arbitrariedades e de trafulhices procedimentais.
Porque foi isso que eu vi no famigerado documento e é o que vejo agora com a recusa da apreciação do recurso da prisão preventiva: arbitrariedade paranóica e trafulhices procedimentais.
Vão lá ver o que escreveu o Daniel - que, para além da admiração que tem pelo Paulo Pedroso, que resulta de ter sido aluno dele e ele ser um óptimo professor, não tem o menor interesse em promovê-lo politicamente.

 

sexta-feira, julho 18, 2003

Pedinte
Há uma senhora já velha que pede esmola na Barata Salgueiro, junto ao semáforo à chegada à Avenida da Liberdade. Às vezes dou.
De uma forma geral não costumo dar esmola, embora de um ponto de vista "ético", abstracto, ache que o devia fazer. Mas prevalece o incómodo parcialmente inconsciente face a uma situação que chega a ser mais humilhante para quem dá do que para quem pede.
O resultado é que só dou esmola aos pedintes que escondem a humilhação. E esta senhora escondeu-a, para mim, de duas maneiras: uma, pôs-se uma vez a dançar ao som do New York, do Lou Reed, que saía da estereofonia do meu carro; duas, num dia de eleições perguntei-lhe se já tinha ido votar e ela disse que não, mas que ia fazê-lo, e não fez a mínima menção de tentar agradar-me com o seu sentido de voto.
Mas quando lá passei ontem estava um casal de trinta e poucos anos, com um aspecto junkie, aparentemente a chulá-la do dinheiro que ela tinha esmolado. Talvez não fosse nada disso, talvez eu esteja a ser injusto, mas está-me a parecer que não lhe volto a dar dinheiro.

O Paulo Varela Gomes escreveu um dia um texto notável sobre crianças e esmolas num número do , em 1996. Quando a net for uma boa biblioteca, estará online.
 
A propósito da infidelidade
Karl Marx escreveu que
"Todos os mistérios que levam a teoria para o misticismo encontram a sua solução racional na praxis humana e na compreensão dessa praxis. (...)
Os filósofos têm-se limitado a interpretar o mundo de diferentes maneiras; a questão, porém, é transformá-lo."
(Teses sobre Feuerbach)
 

quinta-feira, julho 17, 2003

Half Rambo, Half Rimbaud
(a propósito de um email)

Bons títulos há muitos, obviamente; eu só falei nos meus porque são um pretexto para falar de coisas da minha vida que me interessam.
De todos o meu preferido é o que o Times (acho) publicou no dia seguinte a Cantona ter dado um pontapé num espectador que o insultou:
"Half Rambo, Half Rimbaud".
Para os que não sabem, o Cantona era dado a tiradas filosófico-literárias.
 
Meus títulos
Já me gabei aqui de ter inventado títulos de que gosto muito, como A Praia teria sido para uma revista sobre política e ideias. O mais célebre dos meus títulos tornou-se mesmo bastante célebre, e sofreu o efeito perverso, que muitos bons títulos sofrem, de as pessoas só conhecerem o título e perceberem dele coisas muito diferentes daquilo a que originariamente correspondiam. Estou a falar de "Geração à rasca". Esse título era tão bom que durante anos era convidado para colóquios e debates para falar do assunto - e tudo o que eu tinha para dizer sobre isso estava dito em 4500 caracteres, no Público, em Maio de 1994. Ainda no espaço deste último mês o Diário de Notícias fez uma capa de edição de domingo com o título "Uma geração à rasca" e descobri que há um filme, que passou na televisão, com o Ewan McGregor e a Catherine Zeta Jones, a quem na tradução portuguesa resolveram chamar "Geração à rasca". Aparentemente, pela sinopse, é sobre problemas de pessoas quando chegam aos 30 anos; não me pagaram direitos de autor mas fizeram-me esta pequena homenagem, o que já me parece bem.
Eu ainda nem tinha reparado no editorial do Vicente Jorge Silva, "Geração rasca", tinha acabado de me levantar e estava pachorrentamente a tomar o pequeno-almoço, quando o Paulo Varela Gomes, na companhia do Miguel Portas e do André Belo, me ligou do Porto em estado de grande excitação a dizer que eu tinha que responder - responder ao que nem tinha lido. Mas nessa altura eu não era dado a muitas angústias existenciais em frente ao computador, e escrevi o que me pareceu e o que me apeteceu, e fiquei satisfeito com o que tinha escrito. Fiquei ainda mais satisfeito com o título. Mas "Geração à rasca" não era, como perceberiam todos os que me conhecessem, nenhuma desculpabilização, a dizer "tu dizes que nós somos rascas, mas devias ver que estamos mas é à rasca". Nada disso. Alguém assinalou que quem é rasca está sempre, de alguma maneira, "à rasca", e talvez seja verdade, mas eu não tenho nada que ver com isso.
O que eu escrevi no meu texto é que o VJS e pessoas como ele não percebiam nada do que estavam a falar e, por não perceberem nada, ficavam à rasca e recorriam à linguagem bastante primária do "tabefe" (estava lá, no texto dele). Tenho simpatia por VJS, mas acho que é bastante habitual ele não perceber nada de nada. Na versão inicial do texto, eu até escrevi: "Não é a minha geração que é rasca. É a vossa que está à rasca". Mas fui eu próprio que num momento desinspirado achei que aquela coisa do "vossa" não ficava bem num texto de jornal, e substituí por uma coisa ambígua qualquer, como "um mundo que está à rasca", ou uma porcaria no género. Mas cheguei a ler em voz alta, no (in)famous congresso Portugal: Que Futuro?, a original versão do "vossa".
Quando eu disse ao M. Portas que o título do meu texto era "Geração à rasca", ele, com sagacidade tipicamente jornalística, achou que devia substituir por outro soundbyte que também estava no texto, "Leite não é juventude". Felizmente nessa altura pensei pela minha cabeça; valha a verdade, sempre fiz muito isso, quando a alternativa era pensar pela do Miguel Portas.
O nome Política XXI também fui eu que inventei, e também gosto. Acho piada a pensar que há aí uma forma de culto da personalidade escondida, porque eu tinha XXI anos nessa altura. E assim também a lista gloriosa que formei no Pedro Nunes era I, de lista independente, ou mesmo de O Independente, a moda que copiávamos na altura, mas também podia ser de Ivan. (Obviamente esta versão eu refuto).
O jornal que inventámos para o Pedro Nunes chamava-se O Intendente e no grafismo copiava até o triângulo - magnífico triângulo, que às vezes mudava de cor e até se invertia - de O Independente. E O Intendente tinha dois subtítulos - "o jornal que não tem tendência" e "o jornal de quem se intende".´
E chega, pour le moment, de gabarolices.
 
CD para o verão
Seguindo o exemplo do Pedro Adão e Silva, também vou fazer uma proposta discográfica para o Verão. É certo que tem mais de 40 anos, mas aposto que a maioria não conhece o duplo cd que colige as músicas cantadas pelo João Gilberto no final da década de 1950 e inícios de 1960 a que deram o título de O Mito. Eu ia para dizer que sou suspeito, porque para mim o João Gilberto é deus, mas não há nada de suspeito nisso: ele pode ser deus para todos vocês também.
 
Digestão
É natural que escreva menos por estes dias, por razões a que já me referi. É também natural que responda pouco aos emails que recebo. Há uma série de razões para isso. A mais evidente, e superficial, é que o tempo não dá para tudo. Podendo escolher, prefiro responder aos emails em posts do que pessoalmente. Mas há mais razões, e mais complicadas.
A satisfação que dá receber emails é directamente proporcional à ansiedade que cria. Escrever é uma coisa que requer muita liberdade; mas também (contraditoriamente?) muito narcisismo. Com os emails insuflam-me o ego; mas também, se eu não souber lê-los de forma doseada, roubam-me (na minha cabeça, é óbvio) a minha liberdade. Ontem nem levei o portátil para casa à noite, para não ter a tentação de passar mais umas horas a ler emails e blogs e a produzir posts antes de dormir; ontem foi provavelmente a primeira vez desde que tenho o blog que tirei um bocado de tempo para ler e pensar antes de dormir. E sem ler nem pensar é difícil escrever.
Deve haver pessoas ofendidas por eu não responder às mensagens que me enviam. Gostava que admitissem que não o faço por me colocar numa posição de superioridade, mas precisamente o contrário. Peço-vos que continuem a escrever. Peço que me autorizem a não responder, e a digerir o que me escrevem ao meu ritmo. Muito obrigado.
 
Nostalgia
O André resolveu acabar com o extemporâneo. As razões são parcialmente conhecidas para mim, parcialmente conhecidas para ele. Esta coisa da escrita é muito singular, confronta-nos de uma maneira muito especial connosco próprios. E, às vezes, desse confronto ou resulta uma grande satisfação ou uma grande incapacidade para dizer qualquer coisa. Por que é que sai satisfação ou frustração é relativamente misterioso, e não tem nenhuma relação directa com a qualidade do texto. Seria muito fácil fazer uma lista das pessoas que só escrevem merda e que o fazem com uma grande satisfação - mas isso ia trazer-me mais inimizades, coisa que eu não quero.
Bom, o André tem um talento ímpar. Tem quase 32 anos e, por essas razões que eu parcialmente desconheço e ele parcialmente desconhece, tem mantido esse talento escondido. É um talento especial, parece-me, que é o de encontrar fórmulas ou imagens extraordinariamente sugestivas ou engraçadas. Não sei, mas não me parece que se trate de uma coisa que o André possa programar - simplesmente acontece-lhe. Provavelmente não lhe acontece quando quer, e não vai deixar de acontecer mesmo que ele não queira. Mesmo que ele ache que essas tais coisas que eu acho geniais são umas coisinhas que não têm nada que ver com o núcleo essencial da vida dele.
O André diz que vai partir para um blog colectivo. Ainda não sei quase nada desse blog, mas tenho as maiores expectativas.

Conheci o André em finais de 1988, eu tinha acabado de chegar ao Pedro Nunes (10º ano), ele estava quase a terminar (12º). Eu não conhecia quase ninguém no liceu e estava a tentar formar uma lista independente para a Associação de Estudantes. Alguém se lembrou do André, e o André disse que não, porque queria namorar, e havia a PGA, e as específicas. Enfim, ele queria lá saber da Associação de Estudantes.
O que se passou em Março de 1989 foi que, contra todas as expectativas, contra tudo o que era imaginável, a tal lista que eu andei a formar ganhou as eleições. Pela primeira vez, em muitos, muitos anos, no Pedro Nunes a JSD foi derrotada. E a surpresa foi tanto maior quanto nós não tínhamos dinheiro nenhum senão o dos nossos bolsos e pintávamos autocolantes à mão (que fizeram sucesso). Posso dizer sem exagero que foi a maior vitória da minha vida e posso dizer sem hesitação que nunca mais terei nenhuma comparável. E quem me ler não compreenderá, mas devo acrescentar também: nem todos têm alguma vez na vida uma vitória assim. O Independente de que falei há dias, o Daniel Oliveira, o Diogo, o Rufino e muitas outras coisas e pessoas de que falarei inevitavelmente - incluindo o Luís Camilo Alves do Desejo Casar e a Amália Rodrigues e a Rita Ferro Rodrigues - estão metidos nessa história. De um certo ponto de vista, essa é a minha história.
E a verdade é que quando a coisa ganhou, para usar essa palavra, dinâmica - isto é, quando de repente os veteranos do 12º ano perceberam que estava ali uma coisa nova no liceu como antes não tinham visto -, vieram juntar-se. E o Daniel sugeriu directamente o seu próprio nome, o do André e o do Miguel Fontes - que depois foi Secretário de Estado da Juventude, do Guterres - para fazerem comigo o jornal, que (por escolha minha e em homenagem indisfarçada a O Independente) se chamava O Intendente. Eu fiz o que tinha a fazer e aceitei, e acho até hoje que fizemos uma coisa memorável. E depois disso fizemos outras coisas boas - e chegámos a pensar fazer uma revista chamada A Praia.

Sim, egocêntrico, eu sei; mas não me peçam para falar disto de outra maneira.
 
A segunda leitura
Voltei ao livro do João dos Santos por sugestão insistente da Joana. É a transcrição de um programa de rádio de 1983-84 e está relativamente pouco "editado": há frases que não acabam, ideias fragmentárias, etc. Parece-me que é preciso estar disposto a embarcar na viagem sem compreender completamente cada pedaço dela. Eu tinha lido o livro em 1995 e constato agora que nessa altura devo ter podido perceber muito pouco.
 
Pesadelo (2)
"Penso que [Freud] se referia a sentimentos, a sensações, muito anteriores ao aparecimento das palavras. Isso é muito importante para compreendermos certos medos, certos sonhos, certos pesadelos que todos nós temos, que todos nós tivemos em criança e que continuamos mais ou menos a ter, porque os pesadelos fabricam-se numa determinada idade e persistem pela vida fora. Na minha idade, felizmente, já não há pesadelos. Pelo menos em mim. Dormir, sonhar, é sempre para mim uma coisa extremamente agradável e os meus sonhos são sonhos muito divertidos, mas não sei se é uma coisa particular minha ou se é só da idade. (...)
Às vezes há alucinações, imagens, coisas que a criança vê, por exemplo de noite, quando vê dentro do quarto um lobo, um cão, um bicho, um homem mau, uma bruxa. Creio que tudo isto está relacionado com as sensações antigas que voltam agora depois de se aprenderem as palavras (...) Todos nós temos uma grande necessidade de pôr palavras em cima das coisas que sentimos. (...)
Quando tinha três meses a minha mãe pôs um cobertor de papa que se usava quando eu era miúdo - isto estou eu a inventar, claro - mas admitamos que a minha mãe me tinha posto um cobertor áspero e desagradável por cima, numa emergência, para me proteger do frio, e eu senti-me muito mal. E mais tarde, quando aprendi que havia uma palavra e um bicho chamado aranha, passei a atribuir a essa sensação que registei o significado de aranha. Portanto, eu tenho medo das aranhas, não gosto, são desagradáveis.
(...) Toda a gente tem medo de alguma coisa, claro (...) Mas eu vou trocar-lhe as voltas a si, João, procurando nas suas representações de palavras, ou nos textos que vai trazer aqui, ou nas gravações que me apresentar, a representação de coisas, quer dizer, o conteúdo latente, escondido e antigo, arcaico, anterior à existência das palavras, porque há toda uma vida riquíssima de todos nós que está antes da representação das palavras."

[João dos Santos (com João Sousa Monteiro), 1988, Se não sabe porque é que pergunta?, Lisboa: Assírio e Alvim.]

(Cheguei a este trecho por sugestão da Joana).
 

quarta-feira, julho 16, 2003

MEC, de novo
Há uns dias atrás fiz uma referência ao Miguel Esteves Cardoso como uma espécie de "pai" de muito do que se passa hoje nos blogs. O Pacheco Pereira já prometeu pegar no assunto do ponto de vista da influência do velho Independente, o que me deixa com grande expectativa. O Mar Salgado, recusando identificar-se como "filho", fez uma história das coisas em que o MEC os marcou, desde as críticas da Escrítica Pop.
Eu próprio recebi um email do MEC que era tão afectuoso que me deixou meio interdito.
As referências a O Independente desse tempo vão, inevitavelmente, voltar a aparecer nos meus posts - estão na minha vida, que na verdade é muito mais feita de passado do que de presente.
O que eu queria agora assinalar é que a paternidade do MEC não tem só, nem talvez sobretudo, que ver com a graça da Causa das Coisas e de O Independente nem com a pop inglesa dos anos 80. No que o MEC me parece peculiar, pelo menos em Portugal, e marcante para a blogosfera (a "velha" blogosfera, na categorização do Pacheco Pereira) é na self-deprecation recorrente e no sentimentalismo indisfarçado. No Independente depois das crónicas vieram ainda as polaroids e os poemas. Quando lhe morreu o pai ele publicou uma série deles, de que gostei tanto que cheguei a mandar-lhe uma carta só para dizer isso. O que é engraçado é que, apesar de referências cruzadas ao longo de mais de uma década, eu e o MEC nunca nos conhecemos. Em Portugal isto é raro e saudável.
"Ninguém morre enquanto alguém continua vivo./ O meu pai deixou-me vivo/ ninguém ficou para me fazer companhia".
(cito de memória)
Haveria Dicionário e Flor de Obsessão sem isto?
 
Hoje o Lomba
O Pedro Lomba certamente que não precisa para nada que eu o recomende. Mas, não vá dar-se o caso de alguma das pessoas que visitam o meu blog não visitarem o dele, espreitem o post "servidão humana", de hoje:
"Ouço gritos apoplécticos na rua e coloco-me à janela. Um homem e uma mulher gritam, insultam-se, batem-se, prometem suicídio. (...) Sabemos tão pouco de nós mesmos. A nossa capacidade de servidão é grande, tão maior do que queremos admitir."

Haverá muita porcaria, futilidade e desinspiração na blogosfera, mas parece-me que quem não perde algum tempo por dia para encontrar coisas destas nem sabe o que perde.
 

terça-feira, julho 15, 2003

Barrilaro
Parece-me que o Barrilaro Ruas é merecedor da homenagem que o Pedro Mexia, no tom inteligente e decente que o caracteriza, lhe faz. Quanto mais não fosse por ter sido um monárquico que esteve com a oposição democrática, o que não é coisa pouca.
Conheci Barrilaro Ruas muito superficialmente, mas em circunstâncias significativas. Ele não faltava às reuniões de um movimento pelo referendo sobre Maastricht que se procurou promover em 1992. Essas reuniões passavam-se habitualmente na sede do MDP/CDE, e quem participava eram sobretudo representantes do PSR, da UDP, da Plataforma de Esquerda (mas só a esquerda da Plataforma, porque os outros já estavam com um pé no PS e não lhes convinha), do POUS. No meio deles, Barrilaro Ruas, às vezes também Gonçalo Ribeiro Teles, e uma vez (embora não na sede do MDP) Manuel Queiró.
Ao Barrilaro Ruas a companhia visivelmente não incomodava. É claro que as ideias de deus e de pátria que o ocupavam são, e sempre foram, de mim as mais distantes; mas lembro-me de comentarmos entre amigos, sobretudo com o Daniel Oliveira, como era admirável que ele lá estivesse e daquela maneira.
 
Aposta
Isto é uma aposta. A minha paixão pelo futebol é sincera, mas a cultura é frágil:
O Clayton não vai servir para nada no Sporting, que vai fazer uma época miserável; em compensação, o Ricardo Fernandes vai encaixar que nem uma luva no Porto e, mesmo que não jogue sempre, vai mostrar que cedo ou tarde chega à selecção.
Adorava estar completamente enganado. Mas não estou.
 
Elogio do Magalhães
É inútil endeusá-lo: ele não é perfeito. Muitas vezes escreve coisas com que não concordo, e tem (e cultiva) um estilo ambíguo que me chateia. Há muitos anos ele costumava dizer que nunca se tinha interessado por política antes de se interessar pela política como objecto de estudo. Esta atitude distanciada em relação às escolhas substantivas parece-me pouco menos do que incompreensível, mas tem pelo menos a virtude de o preservar do estilo da gritaria. Ele é - ou pelo menos quer ser, e nós devemos desconfiar disso - o espectador não-comprometido. Desse não-comprometimento transparece uma excessiva e injusta preocupação em criticar igualmente ambos os lados em todas as questões, mas também saem quase sempre textos que vêem mais, mais profundamente e melhor do que a maior parte de todos nós, os outros, conseguimos ver.
Na televisão o estilo neutro do Magalhães resulta pomposo, e isso irrita-me. Mas na escrita é evidente que ele é informado, inteligente, original e pensa de forma séria: desfaz o senso-comum com uma facilidade impressionante e diz o que mais ninguém disse. Pouca gente comenta o que o Magalhães escreve, e quando o fazem é sempre a um nível muito superficial. Talvez só isso explique que, depois de o ler, ainda haja quem ache que é com as diatribes repetitivas do Vasco Pulido Valente que se aprende alguma coisa. Com a política o Magalhães é um cínico, mas o cinismo para ele é uma coisa séria, não uma questão de "maus fígados".
O estilo neutro do Magalhães identifica-o, inevitavelmente, com o "centro" político. Não sei se é onde ele se posiciona, mas de qualquer forma ele publicamente esforça-se por que não se saiba. Chegam a imaginá-lo como um discípulo do José Manuel Fernandes. Não só o que ele diz frequentemente não serve os propósitos do director do Público, mas tal ideia faz tanto sentido como achar que Marx era um discípulo de Estaline.
O Magalhães é também um ingénuo? Para esta pergunta, em anos de convívio, nunca encontrei resposta. Ele parece que acredita na Ciência Política (embora, caracteristicamente, tenha sido por ele que pela primeira vez ouvi falar do Feyerabend). Se é Ciência que ele faz, então ela tem realmente bastante para oferecer.

Por curiosidade, logo depois de ter terminado este post o meu pai ofereceu-me uma t-shirt com a efígie do Gramsci e a seguinte frase:
"Vivo, sono partigiano, perciò odio chi non parteggia. Odio gli indifferenti".
Not quite.
 
A conversa
Estou muito contente por receber imenso email, mas tenho as respostas em grande atraso. Sobretudo àqueles que fazem blogs, não queria dar respostas protocolares. Preciso de algum tempo para ir ver o que se passa nos blogs deles.
Entretanto, tenho uma pilha de trabalhos para ver e alguns exames, de alunos que querem notas para irem para férias. E tenho também um texto meu, relativamente longo, para acabar. Ou seja, como toda a gente, tenho imensas outras coisas por fazer.
Peço desculpa por este atraso nas respostas. Peço também que continuem a escrever-me, porque francamente gosto. A conversa continua dentro de momentos.
 
Que há-de ser de nós?
A Inês, por email, diz que de quando era miúda só se lembra de dois Ivan: um personagem de telenovela - que ela diz que era A Guerra dos Sexos, mas eu duvido - interpretado pelo Fábio Jr. (também duvido) que se chamava assim. Tenho uma vaga recordação desse Ivan, mas acho que era um personagem pouco agradável, pouco notável e não com certeza nessa telenovela que foi das últimas que eu vi e gostei (1985, com a Bruna Lombardi, não era?).
O outro Ivan era o Lins a cantar, num disco do Sérgio Godinho, "Que há-de ser de nós?". Cheguei a ver o Lins ao vivo, a cantar "Nicarágua/ capital Manágua", uma música anti-Reagan. Era - e é - péssimo.
A música do Godinho conheço-a de trás para a frente, como tudo o que ele fez nas décadas de 1970 e 1980. Está num álbum de 1983, "Coincidências", onde não sei se é (como diz a Inês) a melhor do disco. Mas a primeira vez que a ouvi (pelo menos, a ponto de a conhecer) foi em "Era uma vez um Rapaz", uma colectânea de 1985 que ouvi vezes sem conta nas tardes da primavera de 1990.
 
Isso não é nome
Ao que parece passaram três meses entre o meu nascimento e o meu registo, porque em 1973 não era aceitável que um português se chamasse Ivan. Tem equivalente nacional, que é João (o nome do meu pai, aliás). Sou, assim, quase de certeza, o mais antigo português chamado Ivan.
Um dia na Manta Rota, tinha eu uns doze anos, passei por um miúdo de uns sete que tinha uma camisola com o nome "Ivan", semelhante a uma que eu também tinha tido. Achei piada à coincidência e perguntei-lhe se se chamava Ivan. Disse-me que sim. Mas quando eu lhe disse que também me chamava, não acreditou.
 
Isso é pseudónimo?
O nome é tão incomum que chegou a haver quem pensasse tratar-se de um pseudónimo. Perguntam-me onde arranjei um nome assim. O meu pai diz que o escolheu em homenagem ao filme do Eisenstein, Ivan, O Terrível - que nunca vi. A minha mãe diz que não teve nada que ver com isso, simplesmente gostava do nome.
Não acho provável que qualquer deles esteja a mentir. Também não acho provável que se tivessem posto de acordo sobre o meu nome. O mais certo é ter-se dado a incrível coincidência de terem escolhido os dois o mesmo nome, e ter saído este.
 
Quem sou?
A Bomba disse outra coisa que me interessa: é que não tem a mínima ideia de quem eu sou. E claro que muitas outras pessoas, incluindo das que me escrevem emails, também não têm.
Devo dizer que este género de cumprimentos me agrada especialmente. Houve um tempo bastante ido - não tenho, por exemplo, nenhum aluno que tenha a mais remota recordação dessa altura - em que eu era uma espécie de aspirante a figura semi-pública: candidato ao Parlamento Europeu por um movimento bastante desconhecido, Política XXI, e depois colunista habitual do Público.
Esse tempo acabou, por um conjunto de razões, nem todas más. E, a partir de certa altura, não ser o Ivan Nunes da Política XXI tornou-se uma coisa importante para mim. E não por causa da Política XXI, coitada, que não fez (praticamente) mal a ninguém. Mas porque é bastante aborrecido ter um programa a saltar-nos da boca para fora ainda antes de a abrirmos; ou seja, já toda a gente achar que sabe aquilo que eu vou dizer. E sobretudo convidarem-me para falar nos mais diversos sítios para dizer aquilo que achavam que já sabiam que eu diria. Ser eu tornou-se numa actividade muito burocrática.

É, aliás, a primeira vez neste blog que escrevo o meu nome "completo". No princípio pensei que teria de me apresentar. Depois comecei a perceber que tem muito mais piada a minha "apresentação" ser feita aos poucos, pelos fragmentos, pelo que vou pensando, pelas referências. O nome completo tornou-se desnecessário quando noutros blogs sou completamente identificado, e de resto se há coisa que sempre me agradou neste nome próprio que me deram é dispensar quase completamente o apelido.
 
Template
A Bomba elogiou o meu template, o que me coloca numa posição difícil. Quem fez o template foram o Diogo Vitorino (quando andávamos na escola primária chamava-se Cordovil, mas está bem, eu faço uma concessão) e o Pedro Rufino, numa noite em que os deixei à solta. Há tradições antigas de eles fazerem estas coisas para mim: em 1989/90, faziam a paginação de O Intendente, o jornal da associação de estudantes do Pedro Nunes, provavelmente o melhor jornal escolar da história da humanidade. Hei-de falar disso, é inevitável. Já nessa altura havia momentos em que eu embirrava com o que eles faziam, e ainda há.
Eu não gostei de praticamente nada do que me fizeram à página, tirando talvez os separadores entre os dias. Puseram-me a coisa a vermelho, que eu tinha dito expressamente que não queria. Convenci o Diogo a mudar-me o vermelho para azul escuro - ia melhor com a praia, mas não se distinguiam bem os links do corpo do texto. Acabámos provisoriamente num azul de compromisso, ora definido como de cueca, ora como de O velho Independente, enquanto o Rufino foi passar o fim-de-semana ao algarve.
Agora, não só a coisa foi ficando, como a Bomba diz que gosta. E eu tenho um problema: é que sou um bocado sensível a elogios de meninas.
 

segunda-feira, julho 14, 2003

Pesadelo
Não tenho muitas vezes pesadelos, mas quando tenho é quase sempre o mesmo: conduzo um carro de que perco o controlo. Esta noite a estrada chegava ao fim e eu fazia inversão de marcha sem conseguir travar nem reduzir as mudanças; virava o volante e fazia uma espécie de pião. Em direcção inversa, dava-me conta de que estava sem luzes, e não via nada, e a estrada dos dois lados era mar para onde eu podia cair. Abri a janela do meu lado para tentar orientar-me pelos sons. Às tantas, para além de não ter luzes, dei-me conta de que não conseguia manter os olhos abertos. Foi pouco mais ou menos por aí, tentando violentamente abrir os olhos, que acabei por acordar.
Será que a literatura me pode dar uma ajuda? Aceito sugestões.
 

domingo, julho 13, 2003

Administração de condomínio
Passei por casa dele para assinar a acta; fiquei a saber que o administrador do meu condomínio também tem um blog. Vou agora para casa com a sensação do trabalho que não fiz, e a isso acresce um excesso de mensagens curtas em que não disse nada. É o dever de que ele fala, mas também são os ritmos variáveis das coisas que não têm dever. Os textos obrigatórios é que têm um tamanho e um estilo.
 
Exposed persuader
O Hidden Persuader diz-me que também lê a Nova Cidadania. O que já faz sete leitores, porventura nem todos chatos e beatos.
 
A pior derrota
Uma das mensagens de boas-vindas de que gostei mais foi a do Lomba (suspeito que nunca mais pôs a vista neste blog, mas isso já está para além da etiqueta). Escreveu:
"Perdoamos ao Ivan o tempo que perdeu à procura um novo pensamento de esquerda. O que lá vai, lá vai."
O que me fez pensar que, por alguma razão que eu ainda não percebi, os únicos tipos provocadores e com graça que andam por aí nos dias que correm são os da direita. Por que é que eles gozam connosco, e não nós com eles? Serão ainda os efeitos diferidos de O Independente? O meu próprio blog abre com uma frase do Lou Reed que é uma forma de gozar com a própria esquerda. Mesmo fora da blogosfera, nos jornais, quando penso num colunista inteligente e provocador, o que me vem à cabeça é o Cintra Torres - que se farta de gozar com a esquerda.
Qual é a dimensão da nossa derrota? Eles dizem-se católicos e falam com gravidade das virtudes do liberalismo. O que é que nos aconteceu para nos deixarmos - pard my french - comer assim?
 
Categorias
Recebo saudações vindas de vários lados. Pessoas que não me conhecem vêem-se na contingência de ter de dizer coisas sobre mim. O Mexia, por exemplo, diz que eu sou marxista e o Luciano chama-me surfista soixantehuitard. A partir de hoje vou tentar ajudá-los, fornecendo uma lista de designações adequadas a mim-próprio. A primeira que me ocorre é esta: betinho mal-disfarçado.
 
Ironia
A Bomba e o Lomba espantam-se por o Pacheco Pereira não se divertir nem ter ironia. Mas vocês não perceberam nada? O camarada é maoísta. A Revolução Cultural, apesar do título, não foi nenhuma pândega. E, se eu vos fizer uma lista de maoístas -
Fernando Rosas;
Ana Gomes;
José Lamego;
Durão Barroso;
Saldanha Sanches;
Maria José Morgado;
José Manuel Fernandes
(por exemplo)
-, conhecem algum que seja dado à ironia?
 
Matéria-prima
Passei uma noite animada no Tóquio com o Paulo e a Patrícia, o que significa que agora estou com aquele nojento cheiro característico de fumo, suor e cerveja. No entanto, há uma coisa que me preocupa: metade da noite estive a pensar no que iria escrever no blog. Já não tenho vida; tenho matéria-prima
 

sábado, julho 12, 2003

Visitas
Vivo em santa ignorância de quantas pessoas por dia, ou no total, visitam A Praia ("A Praia" obviamente também não é a praia, em mais uma ilustração notável da tese do Mexia ["Todos os nomes", 20.6.03]). Não sei como se obtém essa informação.
Mas também não desejo muito obtê-la. A parte mais interessante desta experiência do blog tem sido receber mails em que as pessoas me dizem não apenas que me lêem, mas sobretudo que aquilo que eu digo lhes interessa. Nos tempos muito antigos em que eu escrevia uma coluna de opinião no Público, havia muito mais leitores, mas muito menos este tipo de feedback.
A Inês, que eu não conheço, mandou-me um óptimo email, e diz que ficou com uma nova imagem do Economist. Essas coisas dão-me imenso gosto. Eu também cheguei tarde ao Economist, e pelos caminhos mais improváveis. Foi a Mónica que me trouxe o talão da assinatura.
 
Sempre à volta do mesmo
Diz-se por aí que vai ser lançado um jornal satírico com o título O Procurador-Geral, ligado às Produções Fictícias. A ideia parece-me boa, mas desconfio de uma certa falta de imaginação quando me dizem que as Produções também estão associadas a um programa de televisão chamado O Perfeito Anormal.
 

sexta-feira, julho 11, 2003

I beg your pardon?
"Porque será que Maria Barroso, António Borges, Diogo Lucena, Ernâni Lopes, Jorge Jardim Gonçalves e Manuel Braga da Cruz lêem a revista Nova Cidadania?
Assine e perceba porquê."

(de um anúncio no jornal de hoje)
 
Blair mentiu?
Discute-se se Blair mentiu no caso das armas de destruição massiva iraquianas. Discussão bizantina: a terceira via, que ele inventou, é a mentira elevada a forma de arte, dizer às pessoas sempre aquilo que se pensa que elas querem ouvir.
Eu estava em Inglaterra no ano em que Blair foi eleito - e teria, se pudesse, votado nele. Mas nunca tive a menor ilusão relativamente ao personagem.

Diz-se de Blair que é um homem de convicções. E de Guterres que é um homem de fé. Pelo contrário, têm o despudor de acreditar piamente e com olhar cândido naquilo que no momento mais lhes convier.
Alguém acredita seriamente que o Guterres, depois de ter votado pela despenalização do aborto em 1983, mudou de ideias e, por uma convicção íntima, teve de publicar em 1998 num jornal do norte um artigo exprimindo a sua posição proibicionista?
 
Vai para casa
Houve um tempo - e não tão distante - em que Giddens escrevia análises muito bem feitas de grandes autores da sociologia e da teoria social. Desses livros, só um está (mal, como de costume) traduzido em português, Capitalismo e Teoria Social Moderna (sobre Marx, Durkheim, Weber), para aí­ de 1972. Mas publicou várias compilações de pequenos ensaios sobre autores como Goffman, Habermas, etc. Eram óptimos livros.
A partir de 1994, ou por aí, encontrou uma oportunidade, com Tony Blair, de se lançar à  política. Não tem, infelizmente, nenhuma ideia interessante e insiste em apresentar tudo como grandes novidades de um Runaway World - título de um dos mais péssimos dos seus últimos livros. Desde 1997 acumula esta actividade com o cargo de director da London School of Economics e, segundo se diz, já nem escreve os livros - dita-os.
Como o seu patrono Blair, repete uma cassette cuidadosamente estudada para agradar; e acrescenta, como na entrevista de hoje no Público, pequenas frases que mudam em função do auditório. Como os grandes músicos internacionais que no meio do concerto dizem "Boa noite, Lisboa" ou "Obrigato". Assim:
"P: Quais foram as mudanças mais significativas que tornaram necessária uma segunda onda da terceira via?
R: Houve mudanças do mapa polí­tico, em Portugal e noutros países."

É - Portugal é o primeiro exemplo que vem à cabeça quando se pensa em como o mundo tem mudado. Qualquer cientista social se lembraria logo disso.
O sofá da foto vai bem com a cara do homem e com a ideologia.

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Verões passados

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Para depois da praia

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