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A Praia

«I try to be as progressive as I can possibly be, as long as I don't have to try too hard.» (Lou Reed)

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sexta-feira, abril 30, 2004

Ser livre
Alguém que gosta o suficiente de si mesmo para não precisar da aprovação dos outros chama-se omnipotente, ou impotente?
 
Sair do armário


No Porto, o «Pontapé de saída», programa do Rivoli durante os meses de abril e maio sobre representações artísticas e literárias à volta do futebol. Nesse âmbito, na terça-feira passada, Ruy Castro conversou com Francisco José Viegas sobre Garrincha, mas também sobre Elza Soares, Nelson Rodrigues e Carmen Miranda. À noite, a própria Elza deu um show para meia-casa, provavelmente o seu primeiro show em Portugal em mais de trinta anos. Em Lisboa, no ISCTE, José Neves organiza um programa de conferências e documentários sobre futebol e imagem, a 13, 14 e 15 de maio. Eu próprio tenho neste momento em mãos a incumbência de fazer dois textos para publicações de cariz «intelectual» sobre bola. «Quem gosta de livros não gosta de futebol, e quem gosta de futebol não gosta de livros» - disseram a Ruy Castro quando ele se propôs escrever uma biografia sobre a personagem mais romântica do futebol brasileiro, Garrincha. Um dos melhores livros que li no ano passado – de Alex Bellos, Futebol. O Brasil em Campo (Rio de Janeiro, Zahar, 2002) – traça um retrato do Brasil a partir do futebol.
O tabu desfaz-se. Representações estéticas do mundo, conflito de emoções, dinâmicas sociais: como poderíamos não gostar de futebol? Saímos do armário.
 
Coisas que não se imaginava ser preciso explicar ao Pedro Mexia
Cyrano é a literatura. Mas Christian, o «outro», é que teve Roxanne nos braços.
[Pedro Mexia, 28.4.2004]

Sem «literatura», braços são só braços: bocados de carne, às vezes quente, às vezes desconfortável, às vezes com ossos. Ao fim de seis encontros «de braços», Christian sem literatura pensará na próxima cerveja.
 
Adoro o cheiro a napalm pela manhã, parte II
As imagens que chegaram hoje do Iraque são arrepiantes: tanto aquela em que um preso está envolto em fios eléctricos, de pé em cima de um caixote, donde não pode mexer-se sob pena de cair no chão com água e morrer electrocutado; como as outras em que soldados americanos se divertem com corpos amontoados de prisioneiros nus, como se fossem ratos. Devo dizer que, de um ponto de vista estritamente racional, parece-me que estas imagens não podem causar extraordinária supresa: imagino que na História não haja um único exemplo de um exército de ocupação que não tenha cometido excessos. Porém, não vale a pena tentar tapar o sol com a peneira. O que estas imagens tornam visível é o colapso definitivo da fantasia da ocupação benevolente. Depois de iniciada com premissas falsas, esta guerra foi explicada como um conto de fadas, uma guerra de libertação, com flores e alegria popular: toda a gente ainda se lembra da «lágrima furtiva» de José Manuel Fernandes e do «adorei Bagdad!» de António Ribeiro Ferreira. Nestas últimas semanas e meses, o conto de fadas já se havia complicado muito, a ponto de ninguém mais deixar de reconhecer que o Iraque se transformou num «sarilho».
Mas parece-me que estas imagens de hoje nos levam a um ponto novo; creio que é a primeira vez que os militares americanos no Iraque são expostos, não como incompetentes, mas como sádicos. Imagino que no mundo árabe estas fotos inaugurem um ponto sem retorno, a partir do qual já não será possível retocar a imagem do exército de ocupação. Espero que dentro dos Estados Unidos tenham um impacto análogo: que a guerra do Iraque não seja mais percebida como uma coisa que apenas se «complicou» pelo estranho comportamento dos «primitivos»; mas que a barbaridade seja vista no espelho.
Não constato nada disto com entusiasmo. Não apenas porque, de um ponto de vista puramente instintivo, aquelas imagens custam a olhar, mas porque de um ponto de vista racional não há uma solução simples para o sarilho que foi criado. Gostava de acreditar, como dizia Timothy Garton Ash num artigo interessante de há cerca de duas semanas, que isto ainda pode acabar bem. No entanto, não acredito. Mais vale olhar a realidade nos olhos e arrepiar caminho. Não vai acabar bem. Este exército de ocupação não vai aguentar-se.
 
A minha brasilofilia

Paolo Rossi e Júnior no Brasil-Itália de Sevilha, Julho de 1982

Quando começou a minha brasilofilia? É difícil saber. Acho que não foi em 1982, quando tinha nove anos; acho que foi mesmo antes disso. Em 1982 lembro-me do que chorei no dia em que a Itália eliminou o Brasil, 3-2, no mundial da Espanha. Depois disso chorei várias vezes por causa do futebol, algumas fora da idade – quase todas por causa do Brasil. Por que é que em 1982 eu já tinha uma paixão tão forte que me fazia chorar pela derrota do Brasil, não tenho ideia. Sei também que um ano mais tarde imaginava a minha «lua-de-mel» – conceito na altura positivo, apesar do nome – no Brasil. O Brasil era a «minha América, minha terra à vista»; ainda é. Não sei por que é que o era; por isso, não sei por que é que o é.
 

segunda-feira, abril 26, 2004

Esse Ivan
Alguém que não me conhece faz constar que sou um gajo «esquisito». Uma vez no liceu - eu estava na associação de estudantes - uma pessoa explicou-me longa e detalhadamente os meus defeitos, sem saber que estava a falar comigo.
 
Do inferno
Não sei nada sobre o inferno. Só sei que não pode ser para sempre. Se fosse para sempre, habituávamo-nos.
 
Social-democracia
Vêem-me de saab e assinalam que é «capitalista». É verdade - mas também é sueco.
 
Abril sempre
Primeiro dia do ano em t-shirt: eis para que serve o 25 de abril.
 
O dia da alegria (2)
Não me lembro, não posso lembrar-me, de nada do 25 de abril de 1974 – porque tinha um ano. E, no entanto, «lembro-me» com certeza de imensa coisa. De outra forma, como é que se explica a alegria que este dia desde sempre convoca? Como se explica que eu - que não choro com nenhum filme, com nenhum livro, que não choro com nada - quase me comova com os Capitães de Abril, da Maria de Medeiros?
Temos as emoções presas às memórias. Temos as emoções mais fortes presas às memórias mais fortes – ou seja, exactamente àquelas de que não nos lembramos.
Desculpem: parece-me que o 25 de abril marcou mais as nossas vidas até do que as daqueles que o viveram despertos.
 

domingo, abril 25, 2004

O dia da alegria
Aproveito o 25 de abril para homenagear o Barnabé, o seu cabeçalho hoje inexcedivelmente bonito e o Rui Tavares, extraordinário blogger, que escreveu o seguinte post:

Nasci numa família de camponeses migrados para Lisboa nas décadas de 50 e 60. Poucos tinham mais do que a "instrução primária", mas a aldeia ribatejana de onde vieram tinha uma tradição republicana, oposicionista e de esquerda com raízes no início do século XX. Um dos meus tios foi preso diversas vezes, uma delas por participar em comemorações reviralhistas do 5 de Outubro, e mais tarde por suspeitas de pertencer ao Partido Comunista Português. Na verdade a única prova encontrada em casa dele havia sido um cabeçalho do Avante! que por azar tinha ficado esquecido, já não sei se debaixo de um colchão. O resto das coisas – cassetes, livros, etc. – tinha já sido enterrado num quintal insuspeito uns meses antes. Tudo isso tinha, contudo, pouquíssima importância, até porque o juiz que o condenou dormiu durante praticamente o tempo todo do julgamento. No fim abriu os olhos e proferiu as sentenças. O meu tio apanhou dois anos de prisão.
Em 1972, quando eu nasci, esse meu tio estava preso no forte de Peniche. No dia 15 de Agosto desse ano, com pouco mais de quinze dias, os meus pais levaram-me à cadeia para que ele pudesse ver o seu novo sobrinho. A minha mãe conta com orgulho que a dado momento os outros presos pediram aos familiares que se afastassem para que pudessem ver aquele recém-nascido enquanto ela me mudava as fraldas numa mesa ali mesmo no parlatório. Alguns daqueles presos estavam ali há anos; ver um bébé era ver um sinal da vida lá fora. Ou talvez, como eram comunistas, estivessem apenas a pensar no pequeno-almoço.
Foi essa a minha primeira acção de luta anti-fascista e de solidariedade para com os presos de opinião: deixar que me mudassem a fralda como sinal de que um dia haveríamos de sair daquela merda. Sei que não é grande coisa, mas fiz o que pude.
Uma estranha corrente freudiana liga este episódio a um outro ocorrido já depois da revolução: a minha primeira intervenção numa manifestação. Toda a família sabe que aconteceu num 1º de Maio, mas há divergências sobre se foi em 74 ou 75. A minha mãe acha que foi no grande 1º de Maio de 1974, e garante que esse foi o dia em que deixei de usar fraldas (viram?).
Aconteceu assim: perdi-me da minha família e as pessoas que me encontraram a chorar levaram-me até ao palco. Lembro-me de caminhar pelo meio de pernas de adultos que me pareciam gigantes, provavelmente políticos importantes. Puseram-me o microfone à frente da boca e perguntaram-me como me chamava, ao que eu respondi como tinha aprendido, repisando mecanicamente todos os meus cinco nomes. Não consta que as massas tenham ficado muito galvanizadas, mas pelos menos os meus pais e os meus quatro irmãos mais velhos chegaram a correr com grandes sorrisos e felicitaram-me muito.
Chegado a este ponto, parece que já estou a ouvir o típico comentador de direita do Barnabé a perguntar-me onde é que eu estava no Verão Quente de 1975 se não a ocupar terras arduamente adquiridas por honestos cidadãos. E, por incrível que vos pareça, era exactamente isso que eu estava a fazer aos três anos. Não tenho aqui à mão uma fotografia muito goyesca que mostra o pessoal da aldeia a invadir a Quinta do Brinçal, com o meu pai em cima de um reboque erguendo uma forquilha. A Quinta do Brinçal era posse de um senhor chamado Barbieri Cardoso, que caso nunca tenham ouvido falar era um competente e trabalhador PIDE com uma brilhante folha de serviços, incluindo o momento alto da sua carreira que foi o envolvimento no assassinato de Humberto Delgado. Curiosamente, ele também se tinha limitado a ocupar ilegalmente aquele terreno. Mas os seus altos serviços à Nação, quem sabe o dedicado sadismo com que mandava torturar os presos, fizeram com que esta fechasse os olhos a uma ocupação que foi feita sem arruaça nem recurso à ralé.
O meu Verão Quente foi então passado a perturbar a economia do país com as terríveis consequências que conhecemos e que hoje em dia explicam tudo o que de errado acontece em Portugal, desde os comboios atrasados à falta de respeito. Foi assim: todos os dias vinha uma camionete da Azambuja que levava os miúdos todos a nadar à piscina que tinha pertencido ao tal senhor PIDE. Era uma piscina redonda que não dava grande jeito para ter aulas. De qualquer forma, foi a primeira em que nadámos, tanto eu como muitos miúdos das aldeias em volta.
Estávamos na fronteira entre Azambuja e Rio Maior, e nem nos dávamos conta de que se o país entrasse em guerra civil se partiria ao meio exactamente por ali. Nós viveríamos num paraíso socialista e o leitor para lá da terra das mocas num Iémen do Norte chileno, com o Cónego Melo como grande Ayatollah e os senhores do ELP como pinochês.
 

sábado, abril 24, 2004

Um post que se calhar não se entende
«Aquele teu post quer dizer aquilo que parece?», perguntam-me às vezes. Não sei. Suponho que os meus textos são aquilo que parecem, mas não querem dizer nada que lhes seja propriamente exterior. Isto é: pelo menos não são nenhuma tradução em código de uma realidade que exista noutra linguagem. (Isto já deve estar mais do que dito pela filosofia). Os meus textos são acontecimentos, manifestações da realidade como as outras; e se são ambíguos, inconclusivos, deve ser não apenas porque a realidade a que eles se referem é ambígua e inconclusiva, mas porque ela se manifesta - na minha cabeça, no meu olhar, no olhar dos outros, e também nos meus posts - de forma ambígua e inconclusiva. Por mim digo tudo o melhor que posso.

[Não se entende? Pois. Exacto: é o que eu estou a dizer.]
 
O meu blog é sobre
Chamei-lhe A Praia e sem saber já estava a dar a dica: qualquer dia esta página será monotemática, só se fala no Brasil.
 
O mundo começou com um Fla-Flu
So the world began with a Big Bang. Not only the strangest creatures in the remotest galaxy appear speaking English in the movies: the Universe itself started uttering a typically short English expression. It sounded so much like «bang-bang» that the British scientist who coined it just couldn’t resist. (…) Nelson Rodrigues used to repeat in his poetic brief essays on soccer: «The world began in a Fla-Flu.» (…) Rodrigues was certainly referring to the transcendental importance of the matches in which the two giants faced each other, but he also brought to our minds the atmosphere of certain luminous if mysterious Sunday afternoons. And indeed Fla-Flu sounds a lot closer to the idea of the Breath of God than the showdown suggested by the English scientist.

Juro que não é culpa minha se o texto que acompanha o novo disco de Caetano Veloso começa logo com uma citação de Nelson Rodrigues, o biltre reaccionário, ultimamente mais famoso em Portugal por ter apoiado as ditaduras militares que levaram o mesmo Caetano à prisão e ao exílio.
 
Foreign para lá e Foreign para cá


Está finalmente à venda em Portugal – duas semanas depois de anunciado – o novo disco de Caetano Veloso, que é a realização de um antiquíssimo projecto, culminando quase quarenta anos de apropriação brasileira da música dos Estados Unidos. Nenhuma «moda» passageira leva Caetano agora a cantar em inglês: tem-no feito quase desde o início. A singularidade da sua apropriação – como a de João Gilberto – da língua estrangeira é que não se trata de uma cópia: o sotaque brasileiro não é de modo nenhum apagado. Em Transa, um disco de 1972 hoje bastante esquecido mas um dos meus preferidos, algumas canções misturam frases em inglês com frases em português, e um português até bastante idiomático. De João Gilberto, João (o meu disco favorito de sempre) é cantado em português, mas também em espanhol, italiano, inglês e francês; mas duvido que algum francês entenda à primeira os versos de «Que reste-t-il de nos amours?» interpretados por João Gilberto, ou um italiano o entenda cantando «Estate» no disco ao vivo em Montreux.
Aqui o projecto é levado mais longe: «Tenho a impressão que a vontade de transformar uma mera colectânea num comentário coerente é que orienta o disco», diz Caetano. Um comentário que «inclui um grande amor, um grande reconhecimento, por aquele material, e, por outro lado, é um pensamento sobre a presença da cultura de massas americana nas nossas vidas.» «Como parte do comentário que o disco pretende ser, as canções norte-americanas são tocadas apenas por músicos brasileiros» - assinala Nuno Pacheco. «E com a sua linguagem própria (violões, surdos, pandeiros, tamborins, timbaus, afoxés, bandolins), ancorada em instrumentos de estatuto universal: cordas, sopros, bateria, guitarras eléctricas.»
O resultado é por isso um som foreign: como diz Caetano, foreign para os dois lados, «foreign para lá e foreign para cá».
 
A Foreign Sound
(...) É em inglês que Caetano consuma, agora, um dos seus mais antigos projectos, que remonta aos tempos de exílio: um disco só com canções norte-americanas. A princípio era uma forma de devolver, à laia de boomerang cultural, a influência americana no quotidiano brasileiro já devidamente digerida e adaptada pela vontade soberana do colonizado. Era quase uma pequena vingança, que deveria ter o sabor do triunfo. Mas à medida que o projecto foi ganhando corpo, e as canções avolumando-se na prateleira das potencialmente graváveis (o disco agora editado reúne 23 canções, num total de mais de 75 minutos), Caetano transformava a revolta inicial em ironia. O disco, como surge agora, já não é a vingança prometida, é mais um comentário erudito vestido com os melhores tons da música popular. O olhar sobre a América (...) não se alterou, refinou-se. (...) Como parte do comentário que o disco pretende ser, as canções norte-americanas são tocadas apenas por músicos brasileiros. E com a sua linguagem própria (violões, surdos, pandeiros, tamborins, timbaus, afoxés, bandolins), ancorada em instrumentos de estatuto universal: cordas, sopros, bateria, guitarras eléctricas.
Clássicos como «Summertime», «The man I love», «Body and soul», caetanizam-se apenas na forma como soam, mantendo intacta a sua estrutura melódica original. «Nature boy», por exemplo, ganha profundidade num arranjo que repousa sobre uma guitarra lânguida que poderia ter saído dos mistérios de Twin Peaks, enquanto «Smoke gets in your eyes» brilha num arranjo feito para onze saxofonistas brasileiros, sem nenhum outro instrumento a acompanhá-los. «Diana», de Paul Anka, aparece contaminada por uma mescla de jazz e samba, perdendo nessas novas vestes o kitsch que lhe é associado, antecedendo na metamorfose uma das obras-primas de Duke Ellington, «Sophisticated lady». Mais adiante, quando canta «Love for sale» de Cole Porter a capella, ou quando coloca surdo e tamborim em «Cry me a river», mostra até onde pode ir a sua releitura de standards. Só ele se lembraria de juntar, em sequência, essa falsa canção americana que é «Feelings» (composta por um brasileiro de nome Maurício Alberto que imposições contratuais transformaram no «americano» Morris Albert), símbolo kitsch por excelência e campeã das músicas para elevador, e «Summertime», dos Gershwin, nos seus antípodas. E, depois disso, avançar em seguida para «Detached», tema quase experimental de Arto Lindsay, onde a voz se transfigura numa mistura vocal de Dylan e Nick Cave. E, podendo o ouvinte não se ter refeito logo do choque, adocicar o ambiente com um suave «Jamaica farewell», a vogar entre o reggae e o mambo. As abordagens, notáveis, a Dylan («It's alright ma, I'm only bleeding»), Kurt Cobain («Come as you are») ou Stevie Wonder («If It's magic») são outras das paragens obrigatórias deste disco que se percorre como uma viagem de paisagens múltiplas, parecendo por vezes caminhar numa direcção quando envereda por outra, surpreendendo o ouvinte onde ele menos esperava e sossegando-o quando ele imaginava o contrário. (...)
Este som estranho, ou estrangeiro, ou exótico, este Foreign Sound, é tão próximo de nós quanto distante. É Caetano como sempre foi, mostrando à América, a sul ou a norte, como só ele sabe ser e soar. (...)

[Nuno Pacheco, extraordinário conhecedor português da música brasileira]
 

quinta-feira, abril 22, 2004

Direito ao segredo
Pedro Mexia escreveu na Grande Reportagem de sábado mais um texto de que gostei muito. Porém, esse texto desfaz uma teoria sobre a «técnica» de Pedro Mexia na crónica, que ainda dois dias antes eu tinha desenvolvido. Por isto: ali não há técnica nenhuma destinada a seduzir o banal leitor de jornal, o rápido folheador de revista. Voluntária ou involuntariamente, Mexia manda-o às malvas e entrega-nos um texto em registo não dedutivo, pensando por analogia, por associação, sobre sonhos. Contas por baixo, metade dos seus leitores deve ter ficado pelo caminho; mas o texto é óptimo.
Penso que na sequência valeria a pena ler um livro que Mexia provavelmente não conhece - conjectura arriscada, eu sei. O livro é uma compilação - às vezes atamancada - das crónicas que João dos Santos fez na Rádio Comercial, no princípio da década de 1980, em conversa com João Sousa Monteiro. João dos Santos (1913-1987), médico, foi seguramente um dos maiores psicanalistas portugueses do século XX. Tem às tantas a seguinte passagem, judiciosa, luminosa, muito a propósito:

Mesmo o conteúdo latente do discurso das pessoas, ou o conteúdo latente de um sonho, só devo interpretar aquilo que me foi dito que está muito próximo da consciência, isto é, quando eu percebo que a pessoa quer realmente revelar a si própria aquele segredo. A psicanálise não visa revelar o inconsciente à pessoa que fala, visa apenas ajudar a pessoa a revelar a si própria as relações, por ela ignoradas, entre o seu consciente e o seu inconsciente.
[João dos Santos (com João Sousa Monteiro), 1988, Se não sabe porque é que pergunta?, Lisboa: Assírio e Alvim, p.101]
 
Um tapa não é apenas um tapa
(...) Súbito, ocorre o episódio inesperado, o incidente mágico, que veio conferir ao match de quinta classe uma dimensão nova e eletrizante.
Eis o fato: - um jogador qualquer enfiou o pé na cara do adversário. Que fez o juiz? Arremessa-se, precipita-se com um élan de Robin Hood e vem dizer as últimas ao culpado. Então, este não conversa: - esbofeteia o árbitro. Ora, um tapa não é apenas um tapa: - é, na verdade, o mais transcendente, o mais importante de todos os atos humanos. Mais importante que o suicídio, que o homicídio, que tudo o mais. A partir do momento em que alguém dá ou apanha na cara, inclui, implica e arrasta os outros à mesma humilhação. Todos nós ficamos atrelados ao tapa.
Acresce o seguinte: - o som! E, de fato, de todos os sons terrenos, o único que não admite dúvidas, equívocos ou sofismas é a bofetada. Sim, amigos: - uma bofetada silenciosa, uma bofetada muda, não ofenderia ninguém, e pelo contrário: vítima e agressor cairiam um nos braços do outro, na mais profunda e inefável cordialidade. É o estalo medonho que a valoriza, que a dramatiza, que a torna irresgatável.
Pois bem: - na bofetada de Olaria não faltou o detalhe auditivo. Mas o episódio não esgotara ainda o seu horror. Restava o desenlace: - a fuga do homem. Pois o juiz esbofeteado não teve meias medidas: - deu no pé. Convenhamos: - é empolgante um pânico assim taxativo e triunfal, sem nenhum disfarce, nenhum recato. Digo «empolgante» e acrescento: - raríssimo ou, mesmo, inédito.
Via de regra, só o heroísmo é afirmativo, é descarado. O herói tem sempre uma desfaçatez única: - apresenta-se como se fosse a própria estátua eqüestre. Mas a covardia, não. A covardia acusa uma vergonha convulsiva. Tenho um amigo que faz o seguinte: - chega em casa, tranca-se na alcova, tapa o buraco da fechadura e só então, na mais rigorosa intimidade – apanha da mulher. Mas cá fora, à luz do dia, ele é um Tartarin, um Flash Gordon, capaz de varrer choques de polícias especiais.
Pois bem. Ao contrário dos outros covardes, que escondem, que renegam, que desfiguram a própria covardia – o juiz correu como um cavalinho de carrossel. Note-se: há hoje toda uma monstruosa técnica de divulgação, que torna inexeqüível qualquer espécie de sigilo. E, logo, a imprensa e o rádio envolveram o árbitro. Essa covardia fotografada, irradiada, televisionada projetou-se irresistivelmente. E quando, em seguida, a polícia veio dar cobertura ao árbitro, este ainda rilhava os dentes, ainda babava materialmente de terror. Acabado o match a multidão veio passando, com algo de fluvial em seu lerdo escoamento. Mas todos nós, que só conseguimos ser covardes às escondidas, tínhamos inveja, despeito e irritação dessa pusilanimidade que se desfraldara como um cínico estandarte.

[Nelson Rodrigues, «Conveniência de Ser Covarde», in Manchete Esportiva, 17.12.1955, reproduzido em À Sombra das Chuteiras Imortais, São Paulo: Companhia das Letras, pp.13-14.]
 

quarta-feira, abril 21, 2004

Hugh Grant's finest hour

Hugh Grant e Andie MacDowell em Quatro Casamentos e um Funeral

- «Let me ask you one thing. Do you think - after we’ve dried off, after we’ve spent lots more time together - you might agree not to marry me? And do you think not being married to me might, maybe, be something you could consider doing for the rest of your life? Do you?»
- «I do.»
 

terça-feira, abril 20, 2004

A blogosfera em crise
O meu modem pifou.
 

sexta-feira, abril 16, 2004

My view precisely (2)
[Da entrevista de Caetano Veloso a Nuno Pacheco no Público]

P: E a sua relação com a América, para lá da música? Que sentimentos é que a América lhe suscita, nestas convulsões que o mundo vai vivendo?

R: Mexe muito com a minha alma, muito. Porque sou um grande admirador dos Estados Unidos. Gosto muito da história de revolução americana, gosto muito do que os americanos conquistaram e construíram, fico maravilhado com a contribuição dos americanos para a ciência, como o país que acolheu os grandes cientistas, como aquele que, nas suas universidades, deu espaço e motivação para a pesquisa das mais avançadas inovações tecnológicas, desde Edison até ao cara que inventou esses microtransmissores... Então, quando vejo um filme como Dogville e vejo que Lars von Trier botou o nome daquele idiota como Thomas Edison, fico com raiva dele. Fez um filme chato e querendo dizer que é uma crítica aos Estados Unidos. Não gosto. [O que eu escrevi sobre Dogville está aqui.] Agora eu disse que mexe muito com a minha alma, porque essas conquistas da revolução americana, até nos direitos individuais, são um tesouro da humanidade...

P: Mas não há, depois, uma imagem contraditória da própria América?

R: Claro que há! E o que dói é que parece haver negatividades inúteis. Há um certo tom de regressão em muitas coisas. (...) Eles também são um país particular, porque por mais que representem todas essas conquistas universais (e o Ocidente tem essa característica de tender para o universal, não se pensa em termos de sociedade fechada, de cultura fechada), o que Huntington e Fukuyama estão querendo, e o que Bush representa, é transformar essas conquistas numa realidade cultural fechada contra as outras ou tão fechada como as outras. E não é. Isso está errado e é uma contradição tremenda. Mas eles são um povo organizado sobre linhas puritanas, calvinistas, e muitas das doenças, dos sintomas do puritanismo e do calvinismo aparecem ali de maneira às vezes brutal. E o Governo Bush representa o que há de pior em tudo isso.

P: E qual é o papel do Brasil neste universo, hoje em dia?

R: O Brasil é sempre uma promessa de alguma coisa que poderia levar isso adiante e para um lugar mais bonito. Mas eu não sei se o Brasil passará, jamais, alguma vez, de ser uma promessa. Tomara que passe...

P: Houve esperanças, criadas com a Presidência Lula, que se tenham desvanecido?

R: O próprio Governo Lula tem um valor simbólico. Em termos práticos, esse valor tem peso na história do Brasil e peso internacional. Dá uma mudança de equilíbrio de forças. E isso é muito importante.
 
My view precisely
 
Family matters
Tenho-me entretido para aqui a falar de outras coisas e há meses que não falo do blog do meu avô. Ora, isto é tanto mais absurdo quanto nos últimos tempos não me lembro de ter lido nenhum post de que gostasse tanto quanto do «nome», na páscoa, do meu avô.
 

quinta-feira, abril 15, 2004

Aulas
Quando as aulas são más, ainda assim é melhor tê-las do que dá-las. Só quando são boas é que é melhor dá-las do que tê-las.
 
O fim das ideologias
Uma visão pessimista sobre a natureza humana não é intrínseca à direita, nem uma visão optimista intrínseca à esquerda. Uma visão pessimista sobre a natureza humana é intrínseca a quem tem que corrigir testes.
 
A personalidade dispensa a Personalidade


Devo ter estado com a Aldina Duarte, por junto, uns cinco minutos, há mais de cinco anos. O que é impressionante é que a memória que me deixou, bem viva, foi exactamente a mesma de que fala hoje o Público em dois textos a propósito de uma entrevista na televisão.
 
A solidão de dia
Temos, que eu saiba, dois ou três admiráveis cronistas na imprensa: um é José Eduardo Agualusa na Pública; outro é, em poucos meses, Pedro Mexia na Grande Reportagem. Não creio que o Mexia das crónicas sejam tão bom como o Mexia do Dicionário. Mexia domina já a técnica da crónica, aos meus olhos, na perfeição, mas talvez o formato dos 4500 caracteres fixos, talvez a periodicidade obrigatória, fazem com que nos seus textos ainda seja perceptível o exercício técnico. Algumas crónicas são integralmente boas; outras, a meu ver, têm rasgos concentrados num ou dois parágrafos. Embora do ponto de vista da técnica – a escrita fluente, o adjectivo acertado - me pareçam todas perfeitas.

Existe uma diferença abissal entre a noite e aquilo a que muitas pessoas chamam «a noite». Sobre a noite possuo saber de experiências feito. Em contrapartida, «a noite» é-me quase desconhecida (...).
Começo pela palavra entre aspas, e termino com a palavra sem aspas. «A noite» significa, basicamente, «a noite fora de casa». Ou, de modo mais preciso, a diversão nocturna em bares, pubs, dancings, discotecas e outras casas mais especializadas. (...) Só se vai para «a noite» por causa do álcool, da dança e do sexo. Ora, os dois primeiros não me motivam. E sobre o terceiro, poupo-vos a homilia. Assim, «a noite» não me interessa nem um poucochinho.
Em compensação, a noite é o meu mundo. Distingue-se a noite de «a noite» por se tratar de uma experiência caseira, recatada e eventualmente solitária. Ora eu vivo à noite: é quando se faz escuro que compreendo minimamente a existência, que regresso, uma e outra vez, a tudo o que a faz mais suportável: os discos, os filmes, os livros. Com excepção dos afazeres profissionais e da época de férias, sou um indivíduo razoavelmente filisteu de manhã e de tarde. À noite, porém, chegam, como amigos ao domicílio, Nicholas Ray e Nick Drake, Kundera e Kieslowski, Neil Hannon e Nabokov. Para citar uma escritora francesa, por vezes penso que as minhas noites são mais belas que os vossos dias. Não foi sempre assim. Sou um noctívago há cerca de uma década. Na verdade, descobri a noite no início dos anos noventa, quando tinha de fazer noitadas jurídicas compulsivas. E não quis outra coisa desde aí. As rádios nocturnas, com música de adultério e confissões. Os filmes às três da manhã, com preciosidades que a RTP comprou em saldo. A distensão do corpo. A madeira que estala. As sombras indecisas dos móveis. A inescapável reflexão. A vida nua, crua e porca. E momentos tão admiravelmente tristes como a teleshop, os carros que regressam, a chuva contra o vidro. E o silêncio. Mais escuro que o escuro da noite. E este vício nocturno que é a escrita.
[Pedro Mexia, «A noite e 'a noite'», Grande Reportagem, 10.4.2004]

Não sou noctívago. Procuro desfrutar da solidão durante o dia, o que é muito mais difícil.
 
A hora da auto-crítica
Em dia e lugar determinados, perante dezenas de testemunhas, houve um sujeito que prometeu despir-se no Rossio caso não fossem encontradas armas de destruição em massa no Iraque até um ano após a invasão. Para evitar transformar um cenário deprimente noutro que seria deplorável, ninguém, até agora, pediu ao indivíduo que cumprisse a sua promessa. Mas a credibilidade intelectual dele ficou seriamente abalada.
O Pedro Lomba não prometeu despir-se. Porém, foi um defensor histriónico da intervenção americana, primeiro por causa das armas, depois pelas virtudes da deposição de um regime despótico. O Pedro Lomba pede-me que lhe indique onde, na Coluna, ele defendeu a guerra com base neste segundo argumento. Mas eu não vou à Coluna à procura da prova: em princípio, até ser estritamente necessário, penso que se guarda esse tipo de escrutínio do passado para os que fazem vida de negá-lo. Com Pedro Lomba não será preciso: basta-me lembrar-lhe que, quando começou a tornar-se evidente que as armas não existiam, ele acenava entusiasticamente no Flor de Obsessão com o livro de Christopher Hitchens que situa a guerra do Iraque como um combate «antifascista», e proclamava, nestes termos ou noutros análogos, que a intervenção no Iraque teria sempre valido a pena quanto mais não fosse pela deposição da tirania. Agora, nem o antifascismo está a correr nada bem.
A forma como o Lomba se deixou convencer pelo argumento das armas foi - ele estará agora de acordo - ligeira. Mas a forma como insistia nas virtudes da intervenção pelo seu carácter democratizador foi irresponsável. Continuamos à espera de que o Pedro Lomba compense esta ligeireza e esta irresponsabilidade com um reconhecimento dos seus erros. Não basta um «eu não sabia»; o que faz falta é um «eu disparatei». Em vez dele, por diversas ocasiões, o Pedro Lomba tem agravado os disparates com ataques violentos contra os detractores da administração Bush: desta vez, foi «má-fé», «ligeireza», «radicalismo»; antes, chamou-lhes indistintamente «lunáticos»; e antes ainda, num exercício alegadamente irónico mas manifestamente infeliz, disse que «todos mentimos» sobre o Iraque.
No email que me enviou, o Pedro Lomba enuncia três pontos que carecem de resposta. O primeiro é uma variação benigna sobre o «todos mentimos»: todos nos enganámos sobre as dificuldades da transição no Iraque. Lomba enuncia: o desmantelamento do partido Baas; o fecho do jornal xiita de Al Sadr; a dissolução do exército iraquiano; a confiança em exilados iraquianos que não tinham nenhuma representatividade. Foram asneiras, diz Lomba, mas quem o sabia? Talvez John Keegan, mas não certamente eu e os meus companheiros de manifestações e panfletos.
Tirando o ponto dos exilados, que vinha em todos os jornais (mas é escusado perdermos tempo com detalhes), a verdade que Lomba enuncia é cristalina e inútil. Porque, mesmo não sabendo tanto quanto John Keegan, por acaso o maior especialista britânico em História militar, todos sabíamos mais do que o suficiente para encarar o projecto de democratização do Iraque por estes meios, com esta agenda política e nesta altura como um logro. Está, de forma clara, aqui – mas este é um dos casos em que não era preciso ir buscar nenhum especialista. José Manuel Fernandes viu o 25 de abril que quis na queda de Saddam; e Pedro Lomba, à falta de melhor argumento, agarrou-se a Hitchens. Esperava-se melhor de Lomba.
O segundo ponto de Lomba é que o erro do Iraque não condena necessariamente toda a política conduzida por Bush para combater o terrorismo – e, por isso mesmo, Lomba ainda confia mais nos Republicanos do que nos Democratas em matéria de política externa, ao ponto de caricaturar os riscos de uma vitória de Kerry nas eleições de Novembro. Lomba confia em Bush porque «ele percebeu que o 11 de Setembro obriga a reequacionarmos as nossas prioridades políticas e as relações internacionais.»
Salvo o devido respeito, se há alguém não percebeu os aspectos novos na guerra ao terrorismo, foi Bush: aproveitou o momento político para fazer avançar com uma agenda conservadora que não era a sua plataforma eleitoral, mas vinha de trás e tem resultados desastrosos. Kenneth Waltz, que me dei ao trabalho de traduzir aqui no blog (embora não haja nenhum jornal ou revista deste país interessado em publicá-lo), assinalou-o com clareza meridiana no imediato pós-11 de Setembro, quando os sinais ainda eram talvez difusos. Escreveu Waltz, em finais de 2001 ou inícios de 2002:
«O combate aos terroristas forneceu à administração Bush um pretexto para fazer aquilo que de qualquer maneira ela queria fazer. (...) O terrorismo não altera o primeiro facto essencial da política internacional – o enorme desequilíbrio de poder mundial. Ao contrário, o efeito do 11 de Setembro foi o de reforçar o poder americano e alargar a sua presença militar pelo mundo. (...) Os terroristas não alteram o segundo facto brutal da política internacional: são as armas nucleares que governam as relações militares entre os países que as possuem. Além disso, as políticas da administração americana estimulam a proliferação vertical [aumento do armamento nuclear de um mesmo país, n.t.] e promovem a disseminação de um país para outro. O terceiro facto essencial da política internacional é a preponderância de crises que infestam o mundo, na maioria das quais os Estados Unidos estão directa ou indirectamente envolvidos. (...) Ao perseguirem os terroristas e ameaçarem atacar Estados que os acolham, os Estados Unidos acrescentarão novas crises a uma lista já longa. (...) Os actos terroristas de 11 de Setembro impeliram os Estados Unidos a alargar as suas já insufladas forças militares e a estender a sua influência a partes do mundo que os seus tentáculos não tinham ainda alcançado.»
A agenda de Bush não é apenas ilegal e imoral; é, pior que isso, altamente nefasta do ponto de vista da segurança internacional. E, tendo em vista a enorme importância que a política externa americana assume hoje em dia para a segurança mundial, torna-se bastante incompreensível que, seja o que for que pensemos da direita religiosa, não seja a política internacional a determinar as nossas preferências quanto às eleições nos EUA.
Por fim (aliás, no início), Pedro Lomba tece algumas considerações pessoais sobre mim. Não sou suficientemente burro para fazer orelhas moucas às observações que um amigo como o Lomba me faz, aliás por diversas vezes, sobre as minhas idiossincrasias. Mas penso que as «repreensões políticas» que alegadamente lhe faço só podem ser entendidas no quadro mais amplo da indignação e da emoção política. Ao contrário de outros, estou consciente de que as nossas posições políticas não são matéria emocionalmente neutra, mas são coloridas por sentimentos bastante fortes face à justiça e injustiça, à honestidade e à desonestidade, à verdade e à mentira. Ao contrário de outros, penso até que deve ser assim. Mas acho que justamente a consciência da dimensão emocional do nosso envolvimento político é um ponto de partida para que sujeitemos as nossas posições a um escrutínio especialmente crítico. Em suma, a dificuldade de reconhecer os prórios erros tem levado muitos defensores da guerra no Iraque a, paradoxalmente, aumentarem a violência com que disparam sobre os seus adversários políticos. Vai sendo tempo de, pelo contrário, os textos do Pedro Lomba sobre a questão iraquiana arrefecerem um pouco na retórica e revelarem as virtudes da inteligência auto-crítica.
 

quarta-feira, abril 14, 2004

Resposta de Pedro Lomba
Caro Ivan,

Ligas-me de noite e para me dizeres o quê? Que, depois do pequeno apontamento que escrevi sobre Bush, vais dar-me uma coça como nunca me tinhas dado e como eu há muito merecia. Não posso dizer que dormi atarantado mas fiquei moderadamente expectante e apreensivo. Eu acho sempre graça às tuas repreensões políticas. A queda para a repreensão é uma coisa que te ficou da militância política activa e de algumas más companhias. Não faz mal nenhum porque se trata de ti e eu confio, em regra, no teu discernimento. Mas não penses que não te enganas. E não penses que és sempre correcto e intelectualmente honesto como pensas que és.
Vamos então à bordoada «devastadora» que decidiste, pela primeira vez, conceder-me. Não vou reescrever nem explicar o que escrevi. Fico-me por aquilo que tu escreveste. Em primeiro lugar, cometes uma falsidade. Dizes que eu defendi primeiro a guerra por causa das armas e depois, quando as armas não apareceram, a «ingerência humanitária». Ivan: cita-me, por favor, um só texto meu em que esta duplicidade exista. Mostra-me um único artigo meu que exiba essa pirueta argumentativa. O ónus da prova é teu. Não tenho agora tempo para pesquisar na Coluna Infame os posts que escrevi sobre o assunto e que desmentem o que disseste. Além disso, nunca falei em «ingerência humanitária», doutrina que, como tu bem sabes, nunca poderia ser aplicada ao Iraque. Mencionei umas poucas vezes a guerra preventiva, nunca a «ingerência humanitária». Não sei em quem é que estavas a pensar mas não era, certamente, em mim.
Em segundo lugar, cometes outra falsidade. Dizes que eu chamo ligeiros, radicais e mal-intencionados aos críticos de Bush, quando aquilo que eu escrevi, é que muitas das críticas feitas a Bush no último ano tiveram «traços inaceitáveis de radicalismo e má-fé». Existe uma diferença: tu és um crítico da decisão de invadir o Iraque e eu não te acho ligeiro por isso. Bush pode e deve ser criticado. O que digo é que acho ligeiro e mal-intencionado muito do que se disse e escreveu sobre Bush no último ano. Como bem sabes, nem toda a gente desejou desde o início que os americanos saíssem bem do Iraque. Como bem sabes, há gente que festeja a morte de cada soldado americano. Como é que tu qualificas estas pessoas?
Um dos meus problemas, quando procuro perceber o que se passa no Iraque, é saber que, sim, eu defendi uma guerra baseada em pressupostos falsos e num optimismo ingénuo e exagerado. Eu tenho responsabilidade intelectual, e apenas intelectual, por aquilo que se passa no Iraque. Mas, se me percebes, isso não quer dizer que eu esteja obrigado a reconhecer os meus erros com os vossos argumentos, pelo menos com todos os vossos argumentos. Por mais que o lado onde estou seja difícil e incómodo, não estou a obrigado a vir para a rua e dizer que toda a política conduzida por Bush para combater o terrorismo falhou. Não, Ivan, a guerra do Iraque está a ser, por enquanto, um falhanço de terríveis proporções. E digo por enquanto, porque nós não conseguimos antecipar o que vai ser o Iraque daqui a um, dois ou três anos. A História prega-nos partidas que a nossa própria prosápia, às vezes, não consegue prever. Mas nem tudo o que foi feito pela presidência de Bush foi mau. Bush foi o Presidente dos Estados Unidos que acordou com o 11 de Setembro. Ele soube reagir ao 11 de Setembro com a determinação e clareza necessárias. A intervenção no Afeganistão foi positiva. Ele percebeu que o 11 de Setembro obriga a reequacionarmos as nossas prioridades políticas e as relações internacionais.
Estou de acordo que a guerra do Iraque não foi conduzida pela Administração americana com a lisura necessária. Tal como estou de acordo que o pós-guerra não foi preparado com inteligência. Houve má-fé de Bush a propósito das armas de destruição maciça? Ao ler, por exemplo, o relatório do Instituto Carnegie sobre as armas de destruição maciça, fiquei a saber que a Administração Bush deveria ter tratado a informação disponível de outra forma e que o casus belli não era tão forte como eu pensava. De resto, se não atacar o Iraque envolvia um risco, desde que se admita que a perigosidade do Iraque não era inteiramente cognoscível, atacá-lo comportava também um risco: o risco de a guerra ter sido, no fim de contas, uma escolha política errada. É aqui que entra a responsabilidade política. Toda a responsabilidade política é objectiva. A culpa ou a má-fé de um decisor político são secundárias. No Iraque, não havia armas de destruição maciça. No Iraque, cometeram-se erros de preparação do pós-guerra. Os factos são estes. Quem os provocou, é objectivamente responsável por eles.
Como digo, são factos. Mas deixemos agora de lado o tema das armas de destruição maciça e pensemos no que foi feito para o pós-guerra. Sabe-se agora que os americanos fizeram mal em desmantelar o partido Baas, em dissolver o exército e o Estado iraquiano. Sabe-se que os americanos nunca tiveram tropas suficientes no Iraque. Sabe-se que os americanos confiaram em exilados que não tinham nenhuma representatividade no Iraque. Sabe-se que os Estados Unidos nunca deveriam ter acabado com o jornal xiita de Al Sadr. Sabemos agora que tudo isto é assim e que as coisas deveria ter sido feitas de outra forma. Mas, precisamente: quantas pessoas é que disseram, na devida altura, como é que a ocupação deveria ser feita? Quantas pessoas é que alertaram que, por exemplo, a dissolução do exército iraquiano seria contraproducente? Quantas? Eu não me lembro de muitas. Lembro-me de um historiador inglês, nas páginas do Daily Telegraph, John Keegan, escrever coisas muito judiciosas sobre o assunto. Tu, por exemplo, não escreveste nada. Outros, por exemplo, não escreveram nada. Mas insistem em falar sobre o assunto com uma segurança tão criticável como aquela exibida pelos americanos ao decidirem atacar o Iraque.
Depois, ficas espantado por eu desconfiar da política externa americana nas mãos do candidato democrata e dizer, ao mesmo tempo, que não votaria em Bush se fosse americano. Deixa-me ser eu agora a mostrar-te a minha perplexidade. Suponho que conheces bem a política americana. Sabes que ela é complexa e que a oposição tradicional entre republicanos e democratas esconde muitas outras posições que não são facilmente redutíveis a um campo ou outro. Eu nunca seria bushista porque não seria capaz de apoiar um presidente sustentado pela direita ultra-religiosa dos Estados Unidos, um presidente culturalmente conservador, um presidente que já deu vários sinais de não respeitar aquilo que me parece ser uma das principais riquezas americanas: o federalismo. Não estou, portanto, a falar da política externa. Estou a falar de muitos outros assuntos que seriam importantes para o meu voto, caso fosse americano. Neste momento, é muito importante saber o que diz John Kerry sobre o Iraque, é muito importante conhecer a política externa de Kerry e os passos que ele pretende dar caso seja eleito em Novembro.
Para terminar, eu não disparo erraticamente para tudo quanto é lado. Eu penso pela minha cabeça. Digo que falhei em muita coisa que escrevi, mas não me peçam para pensar como vocês, para pensar o que vocês pensam. Não me peçam isso que prefiro ficar sozinho. Quanto ao facto de dizeres que estou de má-fé, respondo-te com as tuas próprias palavras: «a gente até finge que não ouve um insulto quando quer mesmo guardar um amigo».

[email de Pedro Lomba]
 

terça-feira, abril 13, 2004

Em cheio sobre si mesmo
«Não aceito a ligeireza com que se critica a Administração Bush pelo que se tem passado no Iraque. Porque a crucificação a que Bush foi sujeito no último ano teve traços inaceitáveis de radicalismo e má-fé. Porque, com o Iraque num vazio de poder, sucedem-se agora análises retrospectivas ao mau planeamento da ocupação, análises infalíveis que vêem incompetência em qualquer erro. Porque a reconstrução do Iraque é um projecto de nation-building necessariamente demorado e doloroso. No entanto, Bush não se tem defendido dos seus próprios erros como devia. Tem respondido com evasivas ou com silêncio. Entregar a política externa americana aos democratas seria, citando P. J. O’Rourke, o mesmo que pôr uma garrafa de whisky nas mãos de uma criança. Mas Bush tem que recuperar uma imagem de decisor transparente ou então dificilmente merecerá a reeleição.»
[Pedro Lomba, no DN de hoje]

Lomba defendeu que era preciso fazer a guerra por causa das armas. Os críticos da intervenção apontaram para as inúmeras fragilidades da alegação das armas. Lomba defendeu então a «ingerência humanitária», a deposição do tirano. Os críticos da intervenção apontaram – na altura, e não «retrospectivamente» - para as dificuldades da democracia pela bomba, para as complicações particulares do nation-building no Iraque pós-Saddam. Neste momento já nem sabemos se Lomba ainda defende a intervenção no Iraque: agora fala apenas contra os críticos da administração Bush. Que diz ele? Que são ligeiros, radicais e de má-fé. Vejamos. A administração Bush e os seus apoiantes trataram – e continuam a tratar – com ligeireza as dificuldades da reconstrução do Iraque. A administração Bush tratou o caso das armas com ostensiva má-fé. E o que dizer quando uma pessoa alega que «entregar a política externa americana aos democratas seria o mesmo que pôr uma garrafa de whisky nas mãos de uma criança», no mesmo dia em que noutro lugar afirma que «nem seria um eleitor de Bush se fosse americano»? Das duas, uma: ou se trata de um apoiante de Ralph Nader, e nesse caso não deve ter problemas em ser chamado de radical, ou escreve uma coisa no DN e outra nos comentários do Barnabé, e nesse caso não pode estar de boa-fé.
Não preciso de lembrar a estima intelectual que tenho por Pedro Lomba - a pessoal nem é para aqui chamada. Mas em matéria de discussão política, Lomba está transformado num case study. O seu reconhecimento dos próprios erros é tímido, oblíquo. Para compensar, dispara erraticamente para tudo quanto é lado. O problema é que o seu inimigo é ele mesmo: com os seus ataques aos críticos da administração Bush, diz dos outros o que não pode deixar de notar em si.
 
Sexta, treze
Passam hoje vinte anos desde que vi uma pessoa morrer à minha frente. 13 de Abril de 1984 foi uma sexta-feira. Às sextas tínhamos aulas chatíssimas de português entre as oito e as dez da manhã. A professora era uma criatura estranha, muito pálida, muito grande e muito surda – de 34 anos. O Filipe Hasse estava no quadro quando, subitamente, a cabeça da professora tombou para trás e bateu com muita força no parapeito, de pedra, da janela. Tinha tido um ataque cardíaco. Saímos correndo pela escola a chamar auxílio; outros de nós riram-se, demoraram a perceber o que se tinha passado. Fomos mandados para casa, era o último dia antes das férias da Páscoa.
Essa pessoa teria hoje 54 anos. Foi substituida no último trimestre por um professor bestial. Nunca soubemos propriamente nada dela a não ser o nome próprio, e que morreu à nossa frente numa sexta-feira treze. Constou que tinha abusado da bomba para a asma.
 
Olha os mano
Quando eu passei por aqui
A minha luta
Foi exibir
Uma vontade fela-da-puta de ser americano
(E hoje olha os mano)

[de «Rock’n’Raúl», de Caetano Veloso]


«Farto do anti-americanismo primário e idiota, [Caetano] está de novo fascinado com a América. Digamos que, agora, se penteia para aquele lado», diz Francisco José Viegas, ligeiro e ligeiramente irritado. Mas a ideia de que Caetano alguma vez tivesse sido anti-americano parece bastante estranha. O Tropicalismo entrou em confronto com a MPB por ser declaradamente entusiasta da cultura pop dos Estados Unidos. Num famoso show do final da década de sessenta, Caetano insultou a sua jovem plateia de esquerda dizendo: «se vocês forem em política como são em estética, estamos fritos». Caetano é em política um pouco como é em estética: vasto, experimentando muita coisa, às vezes à frente do seu tempo, outras «pisando no tomate». Mas nunca renegou a herança do tropicalismo e da cultura pop. Caetano é complexo e contraditório. A América também.
Por outro lado, convém notar que quase tudo o que forma o património ideológico da esquerda hoje – desde o keynesianismo semeado por FDR, passando pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, até ao movimento pelos direitos cívicos dos negros, à emancipação sexual, ao ambientalismo, ao movimento contra a guerra no Vietname – nasceu nos Estados Unidos. As alegações de anti-americanismo são com certeza o lado para onde Caetano dorme melhor.
 
Rohmer na cinemateca (2)
Não sei quem é António Rodrigues; nunca tinha ouvido falar dele. Sei que assina a folha da cinemateca da semana passada sobre Pauline à la plage, um texto que me pareceu bastante inteligente:

Se há um cineasta que pode ser considerado como um «autor», pois sempre agiu e trabalhou com o fito de produzir uma «obra» coerente do ponto de vista temático e formal, este cineasta é Eric Rohmer. (...) A nível anedótico, mencione-se o facto de o seu verdadeiro nome ser Maurice Schérer e de ele ter adoptado o pseudónimo de Eric Rohmer nos Cahiers por não querer causar à sua mãe o desgosto de saber que o seu filho, um professor, se interessava pelo cinema. Reza a lenda que levou o escrúpulo ao ponto de proibir a publicação de fotografias suas na imprensa enquanto a mãe fosse viva...
(...) Rohmer guardou uma absoluta independência de pensamento e os seus métodos de trabalho, simples e baratos, são mais próximos dos de um jovem principiante do que dos de um septuagenário ou octogenário consagrado. (...) Aos que criticam o «excesso de diálogos» nos seus filmes, ele retruca que «na vida real, quando alguma coisa se passa é sempre através da palavra», embora o provérbio que este filme ilustra afirme, em francês antigo, que «qui trop parle, il se méfait», ou seja, quem muito fala, pouco acerta. Em Pauline à la plage, como em quase todos os seus filmes, as ideias que os personagens expõem, sempre de modo muito articulado, são desafiadas pelos factos, pois Rohmer sabe que a realidade não é verbal, embora os seus personagens prefiram, em última instância, refugiar-se no verbo. (...)
É preciso muita arte para realizar um filme destes, cuja simplicidade de factura e cuja banalidade a nível dos personagens é fruto de um trabalho extremamente complexo a todos os níveis. (...) Que Rohmer tenha conseguido tantas vezes filmar o nada e que o tenha feito com tanta arte, preenchendo este nada com muitas horas de cinema, é a sua grande proeza como realizador. (...) Rohmer guardou a sua agudeza, talvez em parte graças à crueldade (...) [com que trata] os seus personagens.

[António Rodrigues, 7.4.2004]
 
Rohmer na cinemateca


Na semana passada foi o extraordinário A Marquesa de O… Na cinemateca, temos Rohmer pelo resto do mês.
Com a ressalva do costume: em nenhuma sala do país, nem no Colombo nos filmes do Eddie Murphy, o público se ri tão esfusiantemente como na cinemateca. A cinefilia traduz-se, ao que parece, em perceber que nada na arte é literal, tudo tem um segundo sentido irónico que deve ser saudado de forma ruidosa. Paciência - apreciem o Rohmer com gosto, atenção ao detalhe e paciência.
 
Ça arrive
Às vezes sem que saibamos exactamente porquê ocorre ao espírito uma angústia extemporânea; outras vezes um optimismo inusitado. Nada tem a ver com ideias; do ponto de vista das ideias, pessimismo e optimismo são igualmente arbitrários. O optimismo é mais agradável. Mas não se escolhe, acontece.
 

segunda-feira, abril 12, 2004

Leis do trabalho
O trabalho é sempre mais do que se imagina, e até ao fim sempre mais chato do que se previu.

[de um email]
 

domingo, abril 11, 2004

O começo da carreira

Rosario awesome

Shattered Glass é um filme que não é propriamente bom, mas também não chega a ser realmente mau. Conta a história de um jornalista da New Republic, jovem estrela em ascensão, que nos finais dos anos noventa foi despedido quando se descobriu que a maior parte das informações dos seus textos eram total ou parcialmente inventadas. «Hoje o repórter mente pouco, mente cada vez menos», lamentava-se já Nelson Rodrigues. Mas o que impressiona em histórias como a de Glass é que talentos literários aparentemente formidáveis foram desperdiçados em carreiras fraudulentas. O universo mental de Nelson Rodrigues, que desembocaria nos contos de A vida como ela é..., formou-se em parte vendo e inventando muito enquanto jornalista de crime, no começo da carreira, aos treze, catorze anos. O jornalismo contemporâneo tentou banir a mentira descarada, imaginativa; dedica-se só a formas mais sofisticadas de torcer a verdade, em cumplicidade com outros grandes poderes. O jornalista que inventa as suas histórias, como Glass, tornou-se refém delas. Um dos pontos fortes do filme é a forma como, no final, retrata a personagem de Glass como um perfeito mitómano, mostrando a tragédia de se ter tornado impossível distinguir quando ele mente e quando não. Aliás, mais que impossível, tornou-se inútil: o homem ou é doente ou um pulha, e as duas hipóteses afiguram-se bastante parecidas e igualmente más do ponto de vista do convívio social.
Os actores são bons. As actrizes são óptimas: são Chloe Sevigny e a belíssima Rosario Dawson (que por acaso se estrearam juntas em Kids).
 

sábado, abril 10, 2004

Sábado de aleluia
Percebo mal esta história da Páscoa: se ontem foi o dia em que o homem foi crucificado e amanhã é o dia em que ele ressuscita, isto hoje é o quê - dia de reflexão?
 

terça-feira, abril 06, 2004

Um post a favor do casamento


Algumas pessoas falam de Almodovar como se a sua obra anterior a Em Carne Viva (1997), ou mesmo a Fale com Ela (2002), se resumisse a comédias pitorescas, espanholas, coloridas e gay. Conheço mal os filmes anteriores a Ata-me (1990) – nunca vi, por exemplo, nem Matador nem A Lei do Desejo. Mas Ata-me, embora naturalmente ainda sem a perfeição estética das obras mais recentes, é um filme de uma extraordinária inteligência, sentido de humor e fortemente lírico. Aliás, em muitos aspectos Em Carne Viva é apenas um remake do filme de 1990, e nem em todos melhor.
Em Ata-me, Banderas é um maluco, ou em rigor: um rapaz que é libertado do hospício. No hospício era muito acarinhado pelas enfermeiras, graças às suas habilidades sexuais. Mas sai porque se porta bem, e porta-se bem porque tem um objectivo muito claro e definido cá fora: quer reencontrar Victoria Abril, actriz de filmes pornográficos com quem tinha ido para a cama numa anterior fuga do hospício. Abril não tem, naturalmente, a menor recordação de Banderas – mas isso não é obstáculo: ele rapta-a e mantém-na presa a um quarto para lhe dar tempo para ela se apaixonar por ele e depois se casarem. O programa é formulado assim desde o início.
Inevitavelmente, acabam por fazer amor e ela acaba por «se lembrar». Mas o momento central do filme é aquele em que, já depois de terem feito amor, Banderas tem de voltar a sair de casa e Abril lhe pede: - «ata-me». Banderas ata-a com cuidado, tentando evitar ser demasiado incómodo, para que ela, contra si mesma, não corra o risco de lhe fugir.
 
 

segunda-feira, abril 05, 2004

Bastante simples
As relações humanas nem sempre são tão complicadas como parecem; muitas vezes são insolúveis, embora raramente sejam complicadas.

[Michel Houellebecq, 2001, Plataforma, Lisboa: Bertrand, p.129]
 
O dia dos meus anos
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.

[Álvaro de Campos, «Aniversário», 15.10.1929]
 
Passagem de ano
De um dia para o outro, desligas o aquecedor, largas o polartec e abrigas-te na sombra. Nada me espanta: em rigor, o ano sempre começou a seis de abril.
 
As ilusões da primavera
 
O que resta da lucidez
Saramago tem com certeza alguma razão: há-de haver qualquer coisa de muito errado com o nosso regime político para que o farisaísmo do nobel quase não seja assinalado, e para que a indigência do seu pensamento político seja frequentemente saudada como de «grande mérito provocatório». Esta noite foi fulminado por dez minutos de inanidades sobre a democracia proferidas a propósito da obra de Saramago pela nata da nossa intelectualidade, a saber: o próprio nobel, Marcelo Rebelo de Sousa, Mário Soares, entre outros.
Para uma crítica predominantemente literária – coisa rara – e sem genuflexões ao livro de Saramago, leia-se o Pedro Mexia. Sobre as cerimónias de apresentação de Ensaio sobre a Lucidez, o artigo de Augusto Santos Silva é bastante certeiro.

Quando um Nobel menoriza a literatura
Augusto Santos Silva
Público, 03 de Abril de 2004

(...) Pode e deve, naturalmente, discutir-se o manifesto político de Saramago sobre o «uivo» contra a exaustão da democracia, através do voto em branco. Mas não é menos interessante acrescentar-se-lhe a análise da encenação majestática do autor e da sua obra, que tem sido isso o processo de lançamento público e comercial do livro.
(...) quem o apresenta ou debate não são professores ou críticos da literatura, ou sequer vultos proeminentes do campo intelectual, mas sim personalidades políticas cuidadosamente escolhidas, ao modo de um bloco central civilizado e alargado à família comunista (...). Lá estiveram e estarão um PSD culto, um PS de esquerda, um comunista institucional ou uma respeitada independente. (...) [Os] próprios senadores do regime contestado!
José Barata Moura, no papel de comunista institucional, reitor que é da Universidade, ainda é o que menos se deixa prender neste padrão. Mas os outros, os verdadeiros patriarcas? (...) Soares esteve lá como paladino oficial da democracia, o que cumpriu com brilho. E Marcelo Rebelo de Sousa, para que foi convocado, se não para garantir a dupla bênção da mão direita do Estado e da televisão das massas?
É suposto que se apresenta um livro para convidar a lê-lo. Mas como se convida alguém a ler um romance, se o próprio autor e a editora se encarregam de descarná-lo de toda a sua matéria literária, para reduzi-lo a um panfleto? Como se atribui a Marcelo, o comentador oficial do reino mediático, o encargo de convidar a ler, se o que ele faz, usando instrumentalmente os livros como as armas da sua consagração maciça, é insinuar todos os domingos a milhões de espectadores que, aos livros, basta folheá-los, não é preciso lê-los nem apreciá-los? Marcelo faz jorrar catadupas de livros, que recebe, mostra e depois remete para a biblioteca da terra, assim conseguindo, de uma penada, mostrar-se conhecedor, culto e benemérito, maneira como outra de montar uma carreira pessoal e política. Mas o que de cada livro ele comunica ao espectador só muito excepcionalmente ultrapassa o que qualquer pessoa leria na badana respectiva.
Só há uma interpretação possível para a escolha de Marcelo, o não-leitor que fala dos livros, por Saramago e pela Caminho. É que, justamente, o seu protagonismo no lançamento encenado do Ensaio é a forma mais eficaz de esvaziar o romance da matéria literária, reduzindo-a à superfície da «provocação».
Acontece que, despido da matéria literária, o texto de Saramago só tem a oferecer-nos o mais chão e previsível primarismo. (...) Lido como manifesto, o Ensaio é a ladaínha de um não-democrata pós-revolucionário. Mas isso não merece nenhuma polémica dos diabos, situa Saramago no lugar político e no tempo histórico que ele próprio escolheu.
Para quê, então, menorizar de tal maneira a literatura? Para que é que o nosso Nobel se coloca na posição simétrica dos que buscam no livro a caução de uma envergadura política que procuram desesperadamente transmitir, como faz Santana Lopes com os seus livros-álbuns de autoglorificação, aceitando que se retire qualquer dimensão literária ao seu romance? É verdade que a literatura leve e digestiva fez o seu caminho de afirmação institucional, com o silêncio cúmplice do campo literário, e já merecemos ter, como vamos ter, por convite do Instituto Português do Livro e das Bibliotecas, a representar a literatura portuguesa na Bienal de São Paulo, essa proficiente escritora chamada Margarida Rebelo Pinto. Mas dói-me que doravante se possa dizer que até o Nobel Saramago condescende, por vaidade ou comércio, na desvalorização do que ele faz de melhor, e é literatura, em troca do que faz de pior, e é teimar em ser mestre-escola dos seus concidadãos. Dói-me que nem nisso fosse inteiramente coerente, que, para abençoar a sua negação do regime, se fosse acolher às asas protectoras de senadores e patriarcas desse mesmo regime. (...)
 

domingo, abril 04, 2004

Hoje fazem anos
Aki Kaurismaki, realizador de cinema, 47; Carlos Tavares, ministro da economia, 51; Daniel Cohn-Bendit, líder do Maio de 68, 59; Eric Rohmer, realizador de cinema, 84; Lili Caneças, actividade indeterminada, idade indeterminada; Pedro Lomba, apreciador da rubrica «Hoje fazem anos», 27; Robert Downey Jr., actor, 39.
 
Duas mulheres
O que é que Humbert vê em Lolita? Aos olhos dele, Lolita é uma criatura instintiva e omnipotente, de uma graça natural, não programada e por isso irresistível. O que talvez tenda a passar despercebido é que o fascínio de Humbert por Lolita é simétrico da repulsa, do nojo, que ele sente por Charlotte, a mãe dela. A questão crucial não é o facto de Charlotte ser um obstáculo no caminho para «conquistar» Lolita; é que tudo em Charlotte é de uma graça falsa, forçada e impotente. Uma é o negativo da outra; a paixão por uma é o ódio pela outra.
 

sábado, abril 03, 2004

E a seguir a Lua, sff
Queremos escrever posts pessoais. Mas não nos basta: queremos também escrever posts felizes.
 
Síndrome de fadiga crónica
Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto –
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente: eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.

[Álvaro de Campos]
 
 

sexta-feira, abril 02, 2004

Like girls and boys
Yesterday, she made me look like a fool. Hoje, mando-lhe flores e bombons. Stop me if you think that you’ve heard this one before.
 
Por outro lado
Acho curiosa a violenta reacção que o texto de Paulo Varela Gomes sobre a morte do xeque suscitou, porque me parece que tem alguma razão. Se toda a substância do texto de PVG fosse a mera «iconoclastia», seria engraçado. Mas o estilo, como de costume, «apaga» (suaviza) a mensagem ao mesmo tempo que a exprime. E a mensagem é esta: estamos no mundo «da Paixão de Cristo de Mel Gibson» e neste mundo a lógica que em última análise prevalece é a da vingança. Judeus e árabes podem fingir fazer a paz, mas só até se desligarem as câmaras de televisão. Depois, voltarão sempre ao início.
O que PVG está no fundo a dizer é que não há questão política nenhuma a tratar, nenhuma paz a negociar, porque o assunto entre judeus e árabes está inscrito na sua matriz religiosa, é inalterável. De um ponto de vista «humanista», PVG lamenta as consequências do assassinato do xeque, porque agravará a guerra. Mas não é esse o seu ponto de vista propriamente político sobre a questão: politicamente, para ele, a realidade é mesmo assim, não há muito a fazer. Nós, patetas humanistas do ar condicionado, criaturas dos séculos XIX e XX, ainda não o entendemos. Fazemos a triste figura do idealista; não temos programa para a realidade; logo, não temos política.
PVG não tem uma mensagem política apesar do brinde ou ao contrário do brinde: toda a sua mensagem política está contida no brinde, através do qual ele saúda e se integra nos tempos que anuncia.
É divertido, mas politicamente é repugnante. A versão que PVG nos dá sobre a realidade é meramente ideológica, não é «a realidade». As pessoas viverão no século XXI como puderem viver, e não como está escrito no Antigo Testamento, em Paulo Varela Gomes ou nas profecias de Nostradamus.
 
 
Encomendar chuva para os funerais
Nenhuma alegria tão radiosa, tão nova, como os primeiros dias de Primavera – este ano, cá, chegaram no início de Fevereiro. Nenhum clima mais insuportável quando se está triste: as arestas iluminadas das coisas parece que ferem nos primeiros dias claros de sol.
 
Non sapere aude
Quando escrevemos, nunca sabemos tudo: nem de por que o dizemos, nem sequer do que estamos a dizer. Grande vantagem da escrita: suponho que é para isso mesmo que se escreve.
 
Melancolia sem factos
Inventei toda uma teoria para explicar um facto. Má sorte: o facto era falso. Que fazer?
Outra teoria: para ser melancólico, qualquer facto serve.
 

quinta-feira, abril 01, 2004

Outra nota melancólica
Ainda bem que não acreditei na história das armas de destruição. Não gosto nada de fazer figura de urso.
 
Nota melancólica
E pronto, agora foi a Bomba que fechou as portas. O arquivo fica, tanto quanto percebi, aberto, e isso já é bastante. Mas também há perda, porque se eu sei onde hei-de ir ler o Pedro Lomba quando ele deixa de blogar, ou sei onde hei-de ir ler o Pedro Mexia quando ele pára o Dicionário, já não tenho a menor ideia sobre onde hei-de ir ler a Charlotte. No que diz respeito à minha vida, a Charlotte veio do desconhecido, passou por cá nove meses (conto desde Julho) e regressa ao desconhecido.
Não é altura para elogios (para além de um blog de que eu gostava muito, a Charlotte era uma espécie de anfitriã da blogosfera e deu um impulso muito importante ao pipi). A blogosfera era mais pessoal e individualista do que é agora. Ou melhor, se quisermos ser rigorosos: a blogosfera que eu conheço e em que me formei era mais pessoal e individualista do que é agora. Tenho conseguido manter ao longo deste tempo um número minimamente decente de blogs entre os meus preferidos - o número total não decresce, porque uns saem, outros entram. Mas não posso deixar de notar que geralmente os mais pessoais saem e os mais políticos entram. Suponho que é a evolução típica, natural e inevitável do meio. Mas é verdade que a mim os pessoais me fazem muito mais falta do que os políticos.
Sempre achei os pessoais muito mais arriscados. E o grande problema, do meu ponto de vista, é que mesmo os pessoais às vezes se enchem de medo disparatar.
 

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