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A Praia

«I try to be as progressive as I can possibly be, as long as I don't have to try too hard.» (Lou Reed)

teguivel@gmail.com

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sábado, julho 31, 2004

Pelé é terno

Fui ver Pelé Eterno, uma hagiografia que, como devem imaginar, não é grande espingarda, para além de ter alguns detalhes irritantes, designadamente o quase apagamento do papel de Garrincha em 1958 e sobretudo 1962. Ainda assim, a sucessão de imagens de arquivo é inevitavelmente deslumbrante, e há uma ou outra história que merece a pena ser contada. Uma vez, em meados da década de 1960, num jogo amigável na Colômbia, Pelé foi expulso. Perante a revolta dos espectadores, que haviam pago para o ver jogar, não houve outra opção senão trocar de árbitro para manter Pelé. Assim se fez. Outra é o episódio do milésimo golo. À medida que Pelé se ia aproximando da marca, as cidades onde jogava preparavam-se para ser o palco da festa. Em João Pessoa, onde chegou com 998 golos já feitos e marcou outro, teve que ir para a baliza, por troca com o guarda-redes que simulou uma indisposição, para evitar marcar um golo que os jogadores contrários, sob pressão do poder político local, pareciam estar a tornar demasiado fácil. No jogo seguinte, na Bahia, o defesa que evitou em cima da linha um remate certeiro de Pelé foi violentamente apupado.
E há ainda as impressionantes imagens de Pelé chorando como uma madalena quando, aos dezassete anos, ganhou pela primeira vez o campeonato do mundo. Quem não entende adeptos e jogadores que choram como crianças no momento da derrota ou da vitória, não entende, obviamente, nada de bola.

 

quinta-feira, julho 22, 2004

Para pensar
Por alturas do terceiro aniversário, o gosto do filho de A. pela literatura tinha começado a alargar-se, de livros simples para bebés, com muitas ilustrações, para livros infantis mais sofisticados. A ilustração ainda era fonte de grande prazer, mas já não era crucial. A própria história tinha-se tornado suficiente para captar a sua atenção, e quando A. chegava a uma página sem desenhos comovia-se por ver o rapazinho olhando fixamente em frente, para nada, para o vazio, para a parede em branco, a imaginar o que as palavras lhe diziam. «É divertido imaginar aquilo que não se consegue ver», disse ele uma vez ao seu pai, enquanto caminhavam pela rua. De outra vez, o rapaz foi à casa-de-banho, fechou a porta e ficou lá. Do lado de fora da porta, A. perguntou: «Que estás aí a fazer?» «Estou a pensar», respondeu o rapaz. «Preciso de estar sozinho para pensar.»

[Paul Auster, 1988 (1982), The Invention of Solitude, London: Faber and Faber, p.130. A tradução é «selvagem», fi-la sem dicionário à mão.]
 

segunda-feira, julho 19, 2004

A questão pessoal
Quando eu digo que José Sócrates é uma versão "de esquerda" de Santana Lopes, isto não é - note-se - um ataque pessoal: do ponto de vista do estilo pessoal, eu prefiro Santana Lopes.
 
PS. Leia-se Eduardo Cintra Torres.

 
Dá-se bem
Depois de Duras, Maria Cavaco Silva, Guterres, Miguel Portas e Santana Lopes, o homem-radar elogia hoje... José Sócrates.
 
Tempo de se chegar à frente
Escrevo em condições muito precárias, porém (primeiro brasileirismo) há um assunto que me ocupa a cabeça há uma série de dias e hoje é colocado na primeira página dos jornais: a liderança do PS. Parece-me muito claro que a coisa trágica que aconteceu em Portugal a 9 de Julho não foi - não foi tanto - a decisão disparatada do Presidente da República mas a demissão intempestiva de Ferro Rodrigues. Do ponto de vista pessoal, faço uma pequena ideia do que tenha sido o calvário de Ferro ao longo destes dois anos e meio; do ponto de vista político, no entanto, todas as justificações apresentadas para a sua demissão me parecem insustentáveis.
Neste momento, não vale a pena escrutiná-las: na prática, o assunto é agora morto. Mas a demissão de Ferro é trágica porque nos coloca na situação extremamente paradoxal de termos ficado com um governo que não é resultado dos votos e de termos perdido um líder da oposição que não foi eliminado pelas urnas. Quer dizer, nem mesmo o mais básico pressuposto de uma concepção minimalista de democracia (à Schumpeter) está garantido: o voto popular já não serve para a remoção sazonal do pessoal político, foi não apenas ultrapassado, mas completamente subvertido.
Por outro lado, esta decisão, se é trágica, também é incompreensível, porque é notório que Ferro se demitiu sem cuidar das condições de prossecução do projecto político que encarnava. A única coisa que ele, de um momento para o outro, disse foi: "estou farto, não estou para isto, vou-me embora." "Digno" porque fundado em convicções - mas os 44% do eleitorado que um mês antes tinham votado nele, ou no partido chefiado por ele, ficaram subitamente órfãos.
Ora, o que me traz aqui a este canto de cozinha de hotel a que seria um extraordinário eufemismo chamar cibercafé, num domingo à noite de muita chuva no Rio de Janeiro, em vez de estar a jantar como devia, é que há um grupo de pessoas mais ou menos herdeiras da direcção de Ferro que, entre hoje e amanhã, discutem a possibilidade de lançar uma candidatura a secretário-geral do PS.
Em relação a isto, há dois problemas. O primeiro é o dos oportunistas: a candidatura a ser lançada dificilmente terá sucesso no interior do partido, e por isso não faltarão vozes - estou a ver-lhes tão bem a cara, ó se estou - aconselhando prudência, razoabilidade, integração e unidade para preparar as eleições de 2006 sob a chefia de Sócrates.
O segundo problema é o da tibieza, e levará as pessoas, designadamente aquelas que forem "empurradas" para uma candidatura difícil, a dizer "estamos aqui para discutir ideias, um projecto, e não nomes".
E, no entanto, isso não é nada verdade. No essencial, o projecto é o mesmo: o trabalho da direcção de Ferro pode ser melhorado, mas nem todo foi perdido. Aquilo que se pede agora é precisamente um nome. Todos os nomes são difíceis porque, ao longo de dois anos em que Ferro patentemente equacionou por várias vezes a possibilidade da sua demissão, incompreensivelmente não preparou nenhuma alternativa para essa eventualidade. Porém, o nome a que alguns militantes do PS (ou os jornais, não faço ideia) chegaram é o mesmo a que eu cheguei sentado na praia em Copacabana.
Augusto Santos Silva talvez não possa ganhar o partido nem, se assim for, o país daqui por dois anos. Mas ilude-se - ilude-se muito - quem imagina que Sócrates poderá desempenhar o papel de líder da oposição normal, dando lugar à alternância traquila que é o cerne de qualquer democracia banal. Sócrates é uma cópia "de esquerda" de Santana, seja o que for que queira dizer "de esquerda" neste contexto. Quando um é líder do partido no poder e o outro líder da oposição, estamos perante uma degradação política sem precedentes que os portugueses percebem.
A combinação Santana-Portas no governo, sem escrutínio efectivo de um Presidente da República que cometeu hara-kiri, é em si mesma um pesadelo. Mas um sistema político que como alternativa já só tenha Sócrates (ou João Soares, ou outro dos inconcebíveis nomes que ao longo da última semana foram aventados) é uma coisa mais grave. A candidatura de Vitorino sempre me pareceu implausível, e especulo até se os destacados dirigentes do PS que lhe estenderam a passadeira vermelha não estariam muito mais cientes desta implausibilidade do que eu. O que se apresentou como uma passadeira, na melhor das hipóteses, não era nada; na pior era talvez um tapete de minas.
Escrevi há dias num email a um amigo o mesmo que depois li a Pacheco Pereira: tudo o que até agora temos chamado crise foi uma brincadeira, um mal-estar, uma indisposição ligeira. A crise - económica e de regime - é o que está à nossa frente. Portanto, isto não são tempos normais. São tempos de meter a cabeça no cepo, de se chegar à frente.
 

sábado, julho 17, 2004

Oblíquo
Eu sou um cara oblíquo.
[Caetano Veloso]

 
Jovem
Continuam a chamar-te "jovem!", mas o que conta é a idade de quem chama.
 
Nova Direita
Tomara que houvesse mesmo uma "nova direita", e não apenas tu.
 

terça-feira, julho 13, 2004

A bola é profunda


(...) he began to see that the power of baseball was for him the power of memory. Memory in both senses of the word: as a catalyst for remembering his own life and as an artificial structure for ordering the historical past. (...) the first image that springs to mind when 1960 is mentioned is Bill Mazerowski's homerun that beat the Yankees in the World Series. He can still see the ball soaring over the Forbes Field fence - that high, dark barrier, so densely cluttered with white numbers - and by recalling the sensations of that moment, that abrupt and stunning instant of pleasure, he is able to re-enter his own past, to stand in a world that would otherwise be lost to him.
(...) To play the game as a child is simultaneously to imagine playing it as an adult, and the power of this fantasy is present in even the most casual pick-up game. (...) Reciprocally, for those who grow up to be professionals, there is an awareness that they are living out their childhood dreams - in effect, being paid to remain children. Nor should the depth of those dreams be minimized.

[Paul Auster, 1988 (1982), The Invention of Solitude, London: Faber and Faber, pp.116-117.]
 

segunda-feira, julho 12, 2004

A vida é redonda
Leva-se muito tempo para conseguir voltar ao início.

 

sábado, julho 10, 2004

A esperança é a primeira a morrer
Para lutar não é preciso ter «esperança». Nem «sonho». Nem «utopia».

Vocês terão que se habituar a viver sem resultados nem esperança. Trabalharão durante algum tempo, serão apanhados, confessarão e morrerão. São estes os únicos resultados visíveis. Convençam-se de que é improvável virem a ocorrer mudanças perceptíveis durante a vossa vida. Nós somos os mortos. A nossa única vida autêntica está no futuro. Viveremos essa vida como uma mão cheia de pó e estilhaços de ossos. Mas ninguém sabe quando virá esse futuro. Até pode ser daqui a mil anos.
[George Orwell, 1991 (1949), 1984, Lisboa: Antígona, p.181]

Aqui esteve presa Maria Eugénia Sequeira Varela Gomes, mulher do Capitão Varela Gomes, acusada, ao que parece, de ter colaborado na Revolução do 1º de Janeiro de 1962. O meu marido, que ficou gravemente ferido, está preso e doente na Penitenciária. Temos quatro filhos pequenos, 9, 8, 6, 5 anos; tudo sacrificámos ao nosso País. Mas temos fé de que dias melhores virão para este povo. Estou aqui isolada desde 6/1/62. Até quando? Quem vier depois de mim tenha fé porque nada se constroi de grande neste mundo sem mártires; e não há qualquer razão para que não sejamos nós algumas das vítimas; tenho a profissão de Assistente Social e sinto-me muito honrada em, tal como vós, aqui ter vindo.
[Mensagem de Maria Eugénia Varela Gomes, escrita na tábua de um armário da prisão.]

P: Num balanço final, pensa que foi merecida (ou apenas compreendida) tanta luta?
R: Não. Eu agora já nem isso questiono porque agora não tem importância.
P: Agora não tem importância?!
R: Não tem importância. Quer dizer, o mundo é assim, a vida foi assim, passaram muitas gerações... Muita gente, não fui só eu, muita gente se sacrificou ao longo de anos, de séculos. Faz parte... (...) Eu escolhi o sentido da minha vida e cumpri e não saí. (...) De qualquer maneira, eu acho que valeu a pena viver. Não renego de maneira nenhuma a minha vida. Acatei-a, aceitei-a, só que acho que estou cansada. (...) Há uma coisa do Ricardo Reis, que é:

Acima de nós-mesmos construamos
Um fado voluntário
Que quando nos oprima nós sejamos
Esse que nos oprime,
E quando entremos pela noite dentro
Por nosso pé entremos.


Isto tem que ver comigo, tem que ver com a minha vida, com o presente e o futuro... Mas, «personalidade» eu nunca quis ser. Nunca.
[Maria Eugénia Varela Gomes, em entrevista dada a Maria Manuela Cruzeiro, 2003, Maria Eugénia Varela Gomes - Contra ventos e marés, Porto, Campo das Letras, pp.355-358]

A esperança é a primeira a morrer. A raiva é que é a última. Estou a citar um amigo.
 
Sampaio chorou
Sampaio chorou por ter chorado
Tudo aconteceu na manhã de ontem, numa altura em que o Presidente da República tomava o seu duche. Quando o sabonete escorregou das suas mãos e embateu numa das paredes da banheira, Jorge Sampaio ficou triste e começou a verter algumas lágrimas. Comovido com o facto de estar a chorar, iniciou um berreiro tal que Maria José Ritta teve de ir buscar uma chucha para o acalmar. (...)

[Nuno Costa Santos, Inimigo Público, 9.7.2004]
 
No fundo eu sou um sentimental
Mas na política o choro e a lamúria valem o mesmo que zero.
 
Definição de Jorge Sampaio
Quando teve o poder nas mãos, não o usou. Agora que o perdeu definitivamente, ameaça usá-lo.

[João Pinto e Castro, num post que subscrevo integralmente: em relação a Sampaio, nem ilusões nem desilusões.]
 
As «garantias»
(...) ao que parece, o Presidente vem procurando obter «garantias» de «continuidade de políticas» sem «mudanças radicais de pessoas». Contudo, este bem intencionado esforço padece de dois problemas insuperáveis. Primeiro, ele co-responsabilizará o Presidente pela governação futura, papel que não lhe cabe e perturbará ainda mais a responsabilização política em 2006. Segundo, uma futura violação dessas «garantias» não poderá ser sancionada por um Presidente que perde poderes de dissolução da Assembleia em Julho de 2005 e só pode demitir governos para «assegurar o regular funcionamento das instituições democráticas». Logo, essas «garantias» têm um poder vinculativo nulo. (...)

[Pedro Magalhães, em texto de 2 de Julho de 2004]
 
Por que é que não se pode desistir?
Porque na política o escapismo não é solução. Porque, infelizmente, só em parte o problema é do país: noutros países de que poderíamos gostar há momentos iguais ou piores, e não faz sentido desistir do mundo inteiro. Sobretudo, porque não se pode desistir da política. Ou melhor - pode, mas com danos irreversíveis para a nossa própria dignidade.
 

sexta-feira, julho 09, 2004

Hard Times


É tempo de tudo, menos de desistir.
 

quinta-feira, julho 08, 2004

Festa imodesta
[Viva aquele que se presta a esta ocupação]

TONTAMENTE: Rosa Montero (El Pais) escreve ontem que ao ler biografias, um género favorito, fica sempre inquieta com a frase: "essa foi a época mais feliz da sua vida". A época mais feliz, e o biografado não sabia. Quizá vivió aquel tiempo glorioso tontamente, diz ela. O Verão de 2003 foi o Verão dos blogs no ar. Sim, tinha havido a guerra e as janelas não se encheram de bandeiras como em Espanha e na Itália. Sim, metade do país ardia. Mas apesar de tudo, tontamente, sabíamos, alguns de nós sabiam, que essa era uma das épocas mais felizes das nossas vida. Estão quase todos a fazer anos, já fizeram, nós não nos esquecemos.
[Luís, nA Natureza do Mal]

Obrigado à Memória Virtual, ao Adufe, ao My Moleskine, ao Barnabé, à Rua da Judiaria, à Desassossegada, ao Blogue de Esquerda, ao um bigo meu, à Causa Nossa, ao Lorenzetti, ao Forum Comunitário, ao Hardblog, ao Cruzes Canhoto, ao Touch of Evil, à Formiga de Langton, ao Ideias Soltas, ao Cibertúlia, ao There's only 1 alice, ao Conversa na Travessa e ao Aviz, por se terem lembrado e pela companhia. Obrigado à Janela Indiscreta que me deu as boas-vindas no ano passado e eu até hoje ainda não tinha respondido. Muito obrigado aos que me mandaram emails, e mesmo, sinceramente, aos que não disseram nada apesar de se terem lembrado - é o género que também eu costumo praticar. Por fim, obrigado, já agora, aos que sempre aproveitam o espaço de comentários do Barnabé para as suas canalhices anónimas: sem meia-dúzia de bardamerdas isto também não tinha graça nenhuma.
 

quarta-feira, julho 07, 2004

Wee small hours of the morning blog
 
Aquele livro estará ali por acaso?

Jim Carrey e Kate Winslet, Eternal Sunshine of the Spotless Mind

[Se for demasiado longo para ler no ecrã, experimentem imprimir.]

Not long after we were married, my wife and I stood toe to toe in the kitchen, exchanging verbal punches that were as devastating and as painful as any thrown in a championship heavyweight match. Each accusation, each emotional blow found its mark, and we both reeled from the awesome destructive power of the truths we hurled. Then suddenly, because there were no adequate words left to express her hurt, frustration and anger, my wife did what now seems to be the only sensible and rational thing she could have done. She picked up a frozen veal chop recently left out on the table to defrost, and hurled it at me, striking me just above the right eye. I was so stunned I could barely react; stunned not by the blow nor the intent, but by the absurdity that I, a grown man, had just been hit in the head with a frozen veal chop. I could not contain myself and a faint flicker of a smile crossed my face. Suddenly the anger and hostility drained from me and I found myself outside the situation looking in, no longer involved as a man in conflict, but as an observer, an audience so to speak, watching two people on a stage, both of whom cared for each other, but were unable or unwilling to yield or to submit without having first gained some small vicious victory. (…)

[Neil Simon, «Introduction: Portrait of the writer as a schizophrenic», in The Collected Plays of Neil Simon, vol.1, New York, Plume, 1986 (1971)]
 

terça-feira, julho 06, 2004

O ano já vai na segunda metade


Perder, ganhar, viver
Carlos Drummond de Andrade

Vi gente chorando na rua, quando o juiz apitou o final do jogo perdido; vi homens e mulheres pisando com ódio os plásticos verde-amarelos que até minutos antes eram sagrados; vi bêbados inconsoláveis que já não sabiam por que não achavam consolo na bebida; vi rapazes e moças festejando a derrota para não deixarem de festejar qualquer coisa, pois seus corações estavam programados para a alegria; vi o técnico incansável e teimoso da Seleção xingado de bandido e queimado vivo sob a aparência de um boneco, enquanto o jogador que errara muitas vezes ao chutar em gol era declarado o último dos traidores da Pátria; vi a notícia do suicida do Ceará e dos mortos do coração por motivo do fracasso esportivo; vi a dor dissolvida em uísque escocês da classe média alta e o surdo clamor de desespero dos pequeninos, pela mesma causa; vi o garotão mudar o gênero das palavras, acusando a mina de pé-fria; vi a decepção controlada do Presidente, que se preparava, como torcedor número um do país, para viver o seu grande momento de euforia pessoal e nacional, depois de curtir tantas desilusões de governo; vi os candidatos do partido da situação aturdidos por um malogro que lhes roubava um trunfo poderoso para a campanha eleitoral; vi as oposições divididas, unificadas na mesma perplexidade diante da catástrofe que levará talvez o povo a se desencantar de tudo, inclusive das eleições; vi a aflição dos produtores e vendedores de bandeirinhas, flâmulas e símbolos diversos do esperado e exigido título de campeões do mundo pela quarta vez, e já agora destinados à ironia do lixo; vi a tristeza dos varredores da limpeza pública e dos faxineiros de edifícios, removendo os destroços da esperança; vi tanta coisa, senti tanta coisa nas almas...
Chego à conclusão de que a derrota, para a qual nunca estamos preparados, de tanto não a desejarmos nem a admitirmos previamente, é afinal instrumento de renovação da vida. Tanto quanto a vitória, estabelece o jogo dialético que constitui o próprio modo de estar no mundo. Se uma sucessão de derrotas é arrasadora, também a sucessão constante de vitórias traz consigo o germe de apodrecimento das vontades, a languidez dos estados pós-voluptuosos, que inutiliza o indivíduo e a comunidade atuantes. Perder implica remoção de detritos: começar de novo.
Certamente, fizemos tudo para ganhar esta caprichosa Copa do Mundo. Mas será suficiente fazer tudo, e exigir da sorte um resultado infalível? Não é mais sensato atribuir ao acaso, ao imponderável, até mesmo ao absurdo, um poder de transformação das coisas, capaz de anular os cálculos mais científicos? Se a Seleção fosse à Espanha, terra de castelos míticos, apenas para pegar o caneco e trazê-lo na mala, como propriedade exclusiva e inalienável do Brasil, que mérito haveria nisso? Na realidade, nós fomos lá pelo gosto do incerto, do difícil, da fantasia e do risco, e não para recolher um objeto roubado. A verdade é que não voltamos de mãos vazias porque não trouxemos a taça. Trouxemos alguma coisa boa e palpável, conquista do espírito de competição. Suplantamos quatro seleções igualmente ambiciosas e perdemos para a quinta. A Itália não tinha obrigação de perder para o nosso gênio futebolístico. Em peleja de igual para igual, a sorte não nos contemplou. Paciência, não vamos transformar em desastre nacional o que foi apenas uma experiência, como tantas outras, da volubilidade das coisas.
Perdendo, após o emocionalismo das lágrimas, readquirimos (ou adquirimos, na maioria das cabeças) o senso da moderação, do real contraditório, mas rico de possibilidades, a verdadeira dimensão da vida. Não somos invencíveis. Também não somos uns pobres diabos que jamais atingirão a grandeza, este valor tão relativo, com tendência a evaporar-se.
Eu gostaria de passar a mão na cabeça de Telê Santana e de seus jogadores, reservas e reservas de reservas, como Roberto Dinamite, o viajante não utilizado, e dizer-lhes, com esse gesto, o que em palavras seria enfático e meio bobo. Mas o gesto vale por tudo, e bem o compreendemos em sua doçura solidária. Ora, o Telê! Ora, os atletas! Ora, a sorte! A Copa do Mundo de 82 acabou para nós, mas o mundo não acabou. Nem o Brasil, com suas dores e bens. E há um lindo sol lá fora, o sol de nós todos.
E agora, amigos torcedores, que tal a gente começar a trabalhar, que o ano já está na segunda metade?

[Crónica publicada no Jornal do Brasil na sequência da derrota futebolística mais dolorosa da vida de milhões de pessoas, incluindo a minha. Esse fatídico Brasil-Itália de 5 de Julho de 1982, em Barcelona, pode ser hoje integralmente visto aqui. Publico este texto por sugestão do Pedro Lomba, que mo mostrou.]
 
Ironia tão fina
A propósito do Europeu de futebol, pergunta Bruno Prata no Público: «Que outro espectáculo conseguiria emocionar quase até às lágrimas um Presidente da República?» Ironia finíssima, crudelíssima.
 

Jim Carrey, Eternal Sunshine of the Spotless Mind
 
Dá que pensar, o teu caso
Não vamos obrigar as pessoas a aturar outra campanha: os pais a levarem os filhos à escola e darem de caras com a minha cara e com a do dr. Ferro Rodrigues.

[Pedro Santana Lopes]
 

segunda-feira, julho 05, 2004

Há malas que vêm por trem
Isto será difícil de entender, sobretudo para os portugueses que não estiverem cá; mas nunca a derrota me soube tão bem.
Em 2002 Portugal foi ignominiosamente eliminado do Campeonato do Mundo de Futebol, com fracas prestações desportivas, péssimos comportamentos disciplinares e, como veio a descobrir-se, um excesso inacreditável de práticas macumbeiras. O seleccionador António Oliveira foi asperamente criticado por espalhar alho nos balneários, com o propósito de afastar o mau-olhado. O problema da macumba de Oliveira foi, no entanto, ter sido mal-sucedida; dois anos depois, o igualmente macumbeiro Scolari é incensado por estimular a fé na intervenção da Virgem nos resultados desportivos. Deus tudo pode. Provando a máxima, um cientista político teorizou a macumba, atribuindo-lhe virtudes no campo da «integração social». Se o defesa Jorge Andrade realmente disse, sobre a promessa do guarda-redes Ricardo de ir a Fátima caso ganhássemos o Europeu, «ele que vá sozinho que eu tenho mais que fazer», é Jorge Andrade o meu herói do torneio.
Gosto muito de bola, como é sabido – mas, ao contrário do que pensava quando era miúdo, não desejo voltar a ter um campeonato organizado em casa. Hoje mesmo vi o Presidente da República não contendo a lágrima ridícula enquanto agraciava os nossos campeões. Mais maduro, do alto dos seus dezoito anos, Cristiano Ronaldo chorou ontem, no fim do jogo, e hoje estava bem-disposto. Em plena crise política, o noticiário ocupa-se quase exclusivamente da derrota de ontem, relativamente à qual não há sequer novidades.
Ao contrário do que se diz, nada há de singularmente intenso na paixão dos portugueses pelo futebol; em Inglaterra, os estádios têm muito mais adeptos, e cidadãos de todas as idades envergam as camisolas dos respectivos clubes em qualquer dia da semana, em qualquer lugar, em qualquer época do ano. O que não entra na cabeça de ninguém é que o futebol seja notícia de abertura, de intervalo e de fecho das notícias televisivas. No meu tempo, havia um alinhamento mais ou menos fixo: política nacional, depois «sociedade», depois internacional, depois cultura, por fim desporto e o tempo. Como toda a gente sabe, um bom jogo de futebol pode entreter-nos durante quase três horas, mas todas as notícias sobre desporto são supérfluas ao fim de cinco minutos.
Agradeço portanto a Charisteas a cabeçada que, mesmo contra a minha vontade, me aliviou o sufoco. Não me livra do treinador-macumbeiro, do cacique da Federação de Futebol nem do Choramingas da República. Não resolve a crise económica, nem a política. Mas deixa o ar um pouco mais respirável.
A bola é redonda, são onze para cada lado, tudo pode acontecer. No estado a que isto chegou, são estas subitamente as três frases mais inteligentes que se podem dizer sobre o jogo de ontem. É bola. E parem lá com a merda das buzinas.
 
A situação política
Eis por que Durão Barroso não precisou de ouvir ninguém antes de aceitar o lugar na Comissão:



 
Escolha a realidade
Nas ruas de Lisboa, buzina-se, festeja-se: questão de fair-play. Ou de denegação.
 

domingo, julho 04, 2004

Fado Tropical
Torço pela equipa portuguesa, naturalmente - mas patriota não. Patriota só com a verde-amarela.
 
A pátria em campo
Havia de se arranjar outro nome para este país. «Por-tu-gal!», gritado pelos adeptos, soa áspero, soa agressivo. Há formas boas de entoar «Spor-ting!», «Por-to!», palavras de duas sílabas, mesmo «Ben-fica!», três sílabas transformadas em duas, ou «Be-le-nenses!», comprido e um pouco lânguido. Mas «Por-tu-gal!», «por-tu» muito fechados, o «gal» aberto no fim, é primeiro triste e zangado, por fim furioso e guerreiro. E é difícil estar feliz com gritos ásperos.
(Dir-me-ão que um país não se resume ao futebol. Isso, sim, seria uma ideia nova.)

PS. Não tão lânguido: os adeptos do Belenenses gritam «Be-lém!» e não «Be-le-nenses!», assinala-me um leitor.
 
A rima pobre
Há uns anos, discursando na cerimónia oficial do 10 de Junho, Alçada Baptista lembrou-se de propor a alteração da letra do hino nacional. A ideia pareceu absurda, sem dúvida porque o hino não interessava a ninguém. Agora, porém, interessa - e não se devia obrigar os adeptos a declamar uns versos em que «a voz» rima com «avós».
 
Late night blog
 
Buba, jornal d'aventuras


Novidades de Texas Jack: aqui.
 
Razões para a auto-estima
Os dois países mais pobres da União Europeia encontram-se na final do Campeonato da Europa de Futebol. Devemos estar optimistas: de há uns anos para cá, ultrapassar os gregos é o que temos feito melhor.
 

sábado, julho 03, 2004

Amorties e passes em souplesse
[A 3 de Julho de 2003, a Caderneta da Bola publicava isto. Até hoje continuo sem saber quem são os génios por trás destes textos, escritos «para quem acreditava que Gil tinha 20 anos no Mundial de 91».]

Já algumas vezes referimos aqui este clube. Os motivos são vários. Jokanovic e o episódio Latapy, ou a legião vinda de terras de Vera Cruz que encontrou o amor na pérola atlântica e, consequentemente, a nacionalidade viriata. Falamos do União da Madeira, naturalmente. Um clube de que todo o português devia gostar pois no fundo, todo o português é um pouco sócio dele (pelo menos até ao fim da dinastia feudal). Trazemos de novo à baila, como prometido, o Chelsea português, devido a toda uma panóplia de factos do mais sumarento que se encontram nos últimos anos do futebol lusitano. O grande problema, uma vez mais, é o ângulo de abordagem. A questão dos 3 portugueses identificáveis no plantel da época 94-95 é um bom começo. Ao eixo Brasil-Balcãs voltaremos mais tarde. Comecemos por Nelinho, por sinal o único madeirense desta equipa. Fontes fidedignas asseguram-nos que foi formado nas escolas do União, o que introduz o interessante facto de, aparentemente, o União da Madeira ter uma escola de futebol na Madeira. A teoria de que *todos* os jogadores que alguma vez passaram pelo União foram comprados por um catálogo semelhante ao La Redoute ou ganhos em sorteios variados por esse Brasil fora é assim ferida de morte. Voltemos a Nelinho. Este defesa lateral direito com 1,65m pouco jogou. A concorrência era fortíssima: Milton Mendes, porventura o sorriso mais radioso que alguma vez iluminou os relvados insulares. Não. Mentimos. Não podemos ocultar a nossa admiração pelo sorriso do seu compatriota Marco Aurélio, o pastor dos Atletas de Cristo. Isto aliás levanta outra questão bastante interessante (ao contrário de Nelinho, que é bastante aborrecido): a teoria de que *todos* os jogadores brasileiros do União da Madeira e, segundo alguns autores malditos, *todos* os jogadores brasileiros a actuar em Portugal, são cristãos e fiéis da seita do Pastor Aurélio. Aqui na Caderneta pagamos a quem nos trouxer um médio ala sambista que seja ateu ou no mínimo agnóstico. Arrumado que está Nelinho, passemos ao segundo português: Germano. O lisboeta Germano chegou à madeira proveniente do Vitória de Guimarães para cumprir a sua 11ª época na 1ª divisão. Não é difícil recordar Germano, um autêntico arrastão do centro da defesa, quase 1,90m de cimento armado. Um central de marcação impiedoso e um espantoso controlador do tráfego aéreo da grande área unionista. Depois da doçura de Marco Aurélio, o amargo fel da violência futebolística. Adiante. O terceiro português do plantel é um senhor. Sérgio Lavos, o tornado da Marinha Grande. A Sérgio Lavos assenta que nem uma luva o epíteto do futebolês "médio volante": um médio que, qual volante, rodopia linha abaixo e linha acima arrastando consigo multidões de laterais esquerdos completamente aturdidos. Proveniente do União de Leiria, possuía também uma capacidade singular para a filigrana futebolística, chamada também no futebolês (tão cedo não nos calamos com o dialecto) de "drible curto". E por aqui nos quedamos, imundos e grossos, qual Adamastor afastando as naus do esquecimento. Próxima paragem: Jovo, Lepi e Simic - o tridente infernal do ataque madeirense (ah! e Beto, um porteiro de discoteca carioca confundido um dia com um ponta-de-lança!). Não perdem pela demora. Saudações cubanas.

PS. contamos também desenvolver as duas teses (Origem dos Jogadores Unionistas e Atletas de Cristo) nos próximos posts e aceitamos sugestões de robustecimento teórico.
 
O porco
[A 3 de Julho de 2003, Pedro Lomba no Flor de Obsessão]

LIVROS: Almeida Santos tem um toque pessoano. É um desencaminhador, um subversivo, um baluarte da consciência. O seu último livro, pouco mencionado, chama-se «Picar de novo o porco que dorme». Se bem percebo, Almeida Santos deseja picar-nos, picar-nos de novo, picar-nos a nós que dormimos impenitentemente. Certo. Só não percebo a necessidade de nos chamar porcos.
 
À homem
[Zé Diogo Quintela, a 2 de Julho de 2003 no Gato Fedorento]

FRUTA: Quando eu digo que como fruta, atenção: é o pêssego. O pêssego é a única fruta à homem, porque tem pêlo.
 
Pleasant afternoon blog
 
Fellini
[Pedro Mexia, no Dicionário do Diabo, a 3 de Julho de 2003]

PELOS CAMINHOS DE PORTUGAL (2): (...) O ultrajado Presidente da Junta de Freguesia de Esmoriz protestou contra a não-elevação da sua terra a concelho do seguinte modo: «Isto parece um filme de Fellini!». É bom ver um cinéfilo em Esmoriz. Mas pergunto: porquê «um filme de Fellini»? Será que a AR tem putas gordas? Palhaços melancólicos? Vigaristas de bairro? O Mastroianni? Pensando bem, tem tudo menos o Mastroianni, mas adiante. De que filme de Fellini estamos a falar? Do descontrutivismo de Otto e Mezzo? Do desespero galante de E la Nave Va? Do neo-realismo com Nossa Senhora de Le Notte de Cabiria? Do caldeirão poético da memória de Amarcord? Senhor presidente da Junta, exigimos mais rigor. Faça, para nosso esclarecimento, um relatório. Ou, ao menos, uma folha da Cinemateca.
 
Prozac
[Lembro-me perfeitamente da surpresa e do divertimento com que li este texto e o seguinte, escritos por uma pessoa que eu praticamente não fazia ideia quem era: Pedro Mexia - no Dicionário do Diabo, a 3 de Julho de 2003.]

PARA VARIAR: Sabia que era péssimo, mas mesmo assim fui ver Prozac Nation, que entre nós se chama apenas Prozac. É que estou farto de ver filmes em que conheço o realizador, em que conheço os actores, em que conheço o argumento; hoje apetecia-me ver um filme em que conhecesse o tema.
 
Santana - A Life
[A 3 de Julho de 2003, no País Relativo, Filipe Nunes terminava uma saga em cinco capítulos. À distância de um ano, foi o mais presciente.]

Pedro Santana Lopes: A Life
Depois de Althusser, Eanes, Duras, Pintasilgo, Maria Cavaco Silva e Guterres, Eduardo Prado Coelho revelou-se ontem apaixonado por Pedro Santana Lopes. Tudo por causa de uma entrevista ao DNA. A coisa prometia. Pedro Rolo Duarte, no editorial, dizia que estávamos perante um «extraordinário momento de jornalismo» - impensável na blogosfera. A entrevistadora, Anabela Mota Ribeiro, é imbatível neste registo intimista, e as fotografias de Augusto Brázio são tão boas que, quem não conheça Santana, fica logo com vontade de votar nele. «Ele não fala do túnel das Amoreiras. Nem das promessas. Nem do mandato.» Até porque tem pouco a dizer. Ele nem sequer fala das presidenciais. Fala-nos da família, do Dr. Sá Carneiro, do Zé Manel, das santanetes e da vida social.

A Família – O pai, «Por amor, não chegou a acabar o curso». É bonito. Já sabíamos que havia pessoas que não acabavam cursos por falta de dinheiro, por mera burrice, mas «por amor»... Já a mãe «viveu sempre em Alcácer até vir estudar para o IPO. Na altura era um género de TAP: as meninas bonitas iam para enfermeiras do IPO». Hoje em dia, para se conseguir um engate, basta viajar na TAP, mas na altura era tudo mais complicado. Muitos chegavam a simular tumores só para poderem conviver com as enfermeiras do IPO. O grande problema é que Pedro não chegou a ministro. A mãe «sofria muito, coitadinha». Às vezes, chegava à praça e lá estavam a Dona Gertrudes Marques Mendes e a Dona Adozinda Durão Barroso a fazerem pouco dela. Então o Pedrito ainda está secretário de Estado? Olha filha, os nossos com a mesma idade já chegaram a ministros. Uma maldade do Prof. Cavaco.

O Dr. Sá Carneiro - «Foi o único ídolo que tive na vida». Nem Eusébio, nem Maradona. Apenas Sá Carneiro – que, segundo Santana, tinha um estilo de escrita «leninista». Santana andava pelas Alemanhas a «preparar» um doutoramento. Mas, como disse um dia Sousa Franco, a propósito dos estudos do Zé Manel, um doutoramento ou se faz ou não se faz. O ambiente monástico do lar da Opus Dei também não ajudava. « Não se podia ver mulheres». Sendo assim voltou à pátria, e quando Sá Carneiro o convidou para trabalhar na revisão constitucional «ia caindo para o lado». Ele e todos os constitucionalistas portugueses, liderados pelo Prof. Marcelo. Mesmo assim, «fechado numa aldeia da Floresta Negra», aprendeu línguas. O pai sempre lhe disse que «Saber línguas é fundamental.» Um português que saiba línguas pode chegar a primeiro-ministro, a Presidente da República ou até mesmo a treinador do Real Madrid.

O Zé Manel – Conheceram-se na mítica FDL. Na altura o Zé Manel andava pelo MRPP e «dizia coisas completamente sem sentido». Mesmo assim, ou se calhar por causa disso, Santana «tinha admiração por ele». A amizade consolidou-se e acabaram por fazer o quinto ano da faculdade na mesma casa. Era assim uma espécie de união de facto. «Entre aspas, não?» Divertiam-se à grande e à francesa. Também entre aspas. Pedro ainda hoje se lembra que «lá em casa havia muitos pudins» - daqueles do Avô Royal. Nessa fase, já o Zé Manel tinha acalmado. Quem continuava no MRPP era o irmão do Zé Manel: «a acção revolucionária dava-lhe fome e limpava 3 pudins assim de seguida!». Nasce aqui a primeira tese do politólogo Santana. Como variável dependente tínhamos a acção revolucionária e como variável independente o pudim. Quanto mais pudins se come mais revolucionário se é.
Quem percebia bem a história destes dois era a «Guida» - a mulher do Zé Manel, a quem ela chama, carinhosamente, «o cherne». «O problema é que vocês, politicamente, ou se entendem ou vai ser muito complicado», disse-lhes um dia. E foi mesmo. «Estava escrito nas estrelas que um dia nos havíamos de defrontar. E cumpriu-se. Juro que não fiz de propósito», diz hoje Santana.

As Santanetes – «Prefiro evitar os divórcios, mas não consigo.» É mais forte do que ele. Hoje evita gerar situações que choquem as pessoas. No entanto, houve um tempo em que «vinha todos os dias na Harley Davidson do irmão para o governo». Se o contra-informação soubesse disto «passava a aparecer de Harley com as santanetes à volta, na 24 de Julho.» Ele «gosta muito de trabalhar, mas é à maneira dele». Santana só não compreende a polémica sobre a história do lenço, que deu origem a uma célebre capa da revista Caras: «Pus aquele lenço para aí um minuto para entrar numa festa». Era provavelmente uma festa do lenço, e sem lenço o porteiro não deixava Santana entrar. Aliás, Pedro «detesta o social» e «não vai a festas». O que não o impediu de «viver sete anos com uma pessoa que gosta dessa vida» e que tem familiares nas revistas da especialidade. Portanto, se hoje Santana tem «a imagem do social» a responsabilidade não é dele, mas das manas Jardim. Apesar disto tudo, apesar do Big Show SIC, da Cadeira do Poder, Santana não desiste. Santana ganha. «É preciso muito», diz ele. Pois, é de facto muito jogo.

A festa dos 47 anos - Apesar de o contador estar a zero, recebi muitos comments. Assim, a pedido de várias famílias vou terminar esta história de vida - a história de Pedro Santana Lopes até aos 47 anos e quatro dias. Se calhar acham isto obsessivo. São capazes de ter razão. O PAS, por exemplo, especializou-se em Berlusconi, o RB e o PM em Pacheco Pereira, eu ando a estudar Santana. Estou até a pensar em lançar uma pós-graduação sobre o tema. Pode ser na Moderna. Aceitam-se inscrições.
Mas vamos lá, então, terminar a história. Segundo o 24 horas (para quando a página na net?), Pedro Santana Lopes fez 47 anos no último sábado. A festa realizou-se no restaurante A Fragata, uma espécie de Love Boat na doca da Rocha do Conde de Óbidos, ali como quem vem do futuro túnel das Amoreiras e vai para o futuro Casino do Jardim do Tabaco, passando pelo futuro Parque Mayer. Desta vez, Santana não veio na Harley do irmão nem trouxe o lenço na cabeça. Diz quem viu que «o aniversariante apresentou-se de casaco azul, calças beges, camisola cor-de-rosa e sapatos castanhos». Todo a condizer. Note-se ainda que «chegou acompanhado apenas de uma secretária». O 24 horas esperava pelo menos uma dúzia de santanetes. Em vão. Isto é outro homem.
Por 10 contos, os convivas tinham direito a vinho, sardinhas e, para quem não gostasse, dourada, linguado, garoupa e robalo. Apesar da reconciliação, cherne é que nem vê-lo. «Com música ambiente e iluminação a preceito (sic), o barco estava decorado para receber um autêntico arraial popular». De facto, o povo já não é o que era.
Daqui a 3 anos, Santana fará 50 anos. Estaremos então em 2006 - ano de presidenciais. Parece que já estou a ver a cena. Uma noite amena. O Prof. Marcelo internado no Júlio de Matos. Os jardins do Palácio de Belém com música ambiente e iluminação a preceito. Os convidados todos «com aquele toque sinistro dos Algarves». Ao centro, um grande bolo de onde sai Marisa Cruz a cantar «Happy birthday Mr. President, happy birthday to youuuuu...» Enfim, uma autêntico arraial popular.

PS: Em breve, Lisboa terá... um Presidente de Câmara.
 
Santana - em breve
[Ricardo Araújo Pereira, no Gato Fedorento, a 2 de Julho de 2003]

EM BREVE ESCREVEREI AQUI UM POST: Depois da soberba obra que fez na Figueira da Foz (plantação de duas palmeiras na Avenida Marginal Oceânica), Santana Lopes está a fazer história em Lisboa. Que eu saiba, é o único político do mundo que continua em campanha eleitoral já depois de ter ganho as eleições. Em toda a cidade há cartazes com promessas deste tipo: «Em breve existirá aqui um jardim», «Em breve o problema deste cruzamento será resolvido», «Em breve cortarei o cabelo da nuca e terei finalmente um penteado aceitável e digno» (está bem, esta última é mentira. Mas um homem pode sonhar, ou não?). O fenómeno é de tal ordem que os próprios cartazes passaram a ser um acontecimento. Integraram-se na paisagem da cidade, fazem companhia e já não passamos sem eles. Não me surpreenderia se começassem a aparecer cartazes com a promessa: “Em breve será aqui colocado um cartaz a dizer coisas”.
Na zona das Amoreiras, onde passo com alguma frequência, está um cartaz que diz: «Em breve será aqui construído um túnel». Gostava de poder acompanhar, através dos cartazes, a evolução da obra. Num dia, um cartaz a dizer: «Olha, olha: começam a chegar os primeiros operários». Umas semanas depois, outro: «Ui, que buraco tão grande!» E por aí fora. Finalmente, estou a torcer para que Santana seja eleito Presidente da República. Anseio por ver o país semeado de cartazes que digam: «Para a semana irei visitar o chefe de Estado da Hungria» e «Amanhã à tarde sou capaz de vetar um projecto de lei». O Diário da República em formato 10x15 metros. Aqui está um desígnio nacional.
 
Três de Julho de 2003
[Pedro Lomba, a 3 de Julho de 2003, no seu Flor de Obsessão]

O SENTIDO: Estamos em Julho, princípio da época de férias, época de marasmo, época de coisa nenhuma. Os dias passam, as pessoas expõem o bojo, as pessoas comem a sua farta sandes, as pessoas arrumam malas, fazem planos, as pessoas têm os seus livros, os seus ensaios, o seu Proust, as pessoas andam pelas ruas à procura não sei do quê, as pessoas vivem. A vida corre, monótona, sensaborona. Estamos sempre à espera de tempo para nos esquecermos de nós próprios. É possível que tudo isto tenha um sentido mas eu ainda não sei. Talvez não exista um sentido e seja melhor assim.
 

sexta-feira, julho 02, 2004

Brasis
Gosto de ouvir o português do Brasil
Onde as palavras recuperam sua substância total
Concretas como frutos nítidas como pássaros
Gosto de ouvir a palavra com suas sílabas todas
Sem perder sequer um quinto de vogal

Quando Helena Lanari dizia o «coqueiro»
O coqueiro ficava muito mais vegetal

[Sophia, «Poema de Helena Lamari», Geografia, 1961]
 
As praias


Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar

[Sophia, «Inscrição», Livro Sexto, 1962]
 
Sociólogo


Em Aprile (1998), Nanni Moretti e a sua mulher Silvia conversam sobre o nascimento próximo do filho:

Nanni: «Deve nascer em meados de Abril?»
Silvia: «Perfaz o tempo no dia 13, sim.»
Nanni: «Emma Thompson nasceu por essa data.»
Silvia: «E Jack Nicholson, e Al Pacino... Esperemos que não saia actor.»
Nanni: «Mas que conversa é essa - esperemos que não saia actor?!»
Silvia: «Bom...»
Nanni: «Proibimo-lo de ser actor!»
 

quinta-feira, julho 01, 2004

Early morning blog
 
A frase que eu gostaria de ouvir
«Esta noite, Luís Figo calou a boca a muita gente. Por exemplo, a mim.»
E a seguir retiravam-se, e iam para casa dormir.
 
Scolari fica até 2006
Era o que se dizia do outro.
 
Festejos à iraquiana
Estamos com sorte. Ainda não chegámos à fase de disparar tiros para o ar.
 
Transferência de soberania
Durão Barroso e Santana são os verdadeiros mentores do modelo iraquiano de transição de soberania: dois dias antes da data, numa sala escondida.

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