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A Praia

«I try to be as progressive as I can possibly be, as long as I don't have to try too hard.» (Lou Reed)

teguivel@gmail.com

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sábado, outubro 30, 2004

Uma melancolia alegre

Sábado

Uma tarde lenta, melancólica e alegre, cortesia da saab, desta excelente coletânea do Cohen e do grande Marías.
 

sexta-feira, outubro 29, 2004

Aperfeiçoar a neurose
Um dia terás bloqueios para escrever no messenger.
 
Muito, muito entusiasmado com o filme
Saí do documentário da Catarina Mourão, esta tarde na Culturgest, em estado de semi-euforia. Há filmes assim, que nos agarram estética, emocionalmente, nos primeiros cinco minutos – e dez minutos depois eu começo a perguntar a mim mesmo se estou encantado com tudo porque o início me seduziu ou porque é mesmo tudo muito bom.
A ideia de partida do documentário é já de si interessante. Catarina Mourão foi convidada por um canal de televisão estrangeiro (aparentemente, o ARTE) a fazer um documentário sobre jovens de Lisboa, no quadro de um conjunto de filmes de diversos realizadores europeus sobre os jovens das respectivas capitais. A experiência da encomenda resultou para ela em sérias frustrações, tendo feito um filme em que dificilmente se revê. Ora, Malmequer, bem-me-quer ou o diário de uma encomenda é, não o filme frustrado, mas o documentário que ela acabou por fazer sobre essa frustração. Um filme sobre o processo de realização do outro filme.
Por ser capaz de pensar sobre si mesma e sobre os seus limites, a realizadora parece ser capaz de perceber, ou ajudar-nos a perceber, alguma coisa sobre as cinco pessoas que escolheu retratar. Não há nenhuma ideia «global» sobre a juventude portuguesa. Pelo contrário: há um projecto fragmentário, em dois sentidos. Primeiro, porque se o filme tivesse uma tese clara sobre o que a juventude portuguesa «é» arriscava-se a redundar no conjunto de clichés ilustrados que, no fim das contas, o canal que fez a encomenda pretendia (fado, bairros populares e revolução «dos cravos»). Segundo, porque a Catarina Mourão fez um retrato fragmentário de cada um dos seus cinco jovens, porque pessoas reais, inteiras, não se expõem completas, só existem e se deixam ver em fragmentos.
Em resultado, sem recorrer propriamente a uma amostragem sociológica, o filme acaba por dar-nos uma diversidade suficiente em termos de contextos sociais para que constitua também um comentário importante sobre os enquadramentos em que vivemos as nossas vidas. Entre o rapaz que trabalha 14 horas por dia (a tripular um cacilheiro e a ajudar a mãe no mercado) e o outro que está numa espécie de limbo, à espera de entrar para a faculdade, há abismos, em termos de formas de pensar como de estilos de vida. Mas, se as personagens são socialmente marcadas, nunca se reduzem aos seus «tipos» sociais. O filme pinta os retratos destes protagonistas lado-a-lado, permite-nos compará-los, pensar sobre eles, eventualmente até escolher a personagem de que gostamos mais; mas não cede à tentação de «moralizar», de nos sugerir ele mesmo uma preferência sobre que personagem é «melhor» que as outras. Talvez porque, em certa medida, a realizadora é uma personagem entre as outras.
Trata-se de um filme com sentido de humor, profundamente irónico e auto-reflexivo. Trata-se de um filme inteligente e bonito. Não conhecia – não conheço – nenhum dos trabalhos anteriores da Catarina Mourão. Fiquei muito, muito entusiasmado com este.
 

quinta-feira, outubro 28, 2004

O miúdo é um bocado pictórico
[Carta escrita na prisão do Aljube por João Varela Gomes à sua mulher, Maria Eugénia, em 28 de Outubro de 1962]

...Há dez anos, mais ou menos por esta hora – uma hora da tarde, não foi? – estava o nosso Bugas a nascer. Andava eu a passear dum lado para o outro nos corredores da Liga dos Amigos dos Hospitais, como é da tradição. Agora já está um homenzito: mas ainda me emociona pensar nele. Foi aquele que custou mais a nascer; é o que lhe tem custado mais a viver. Sei que neste momento também te estás a lembrar de todos os 3650 dias do Paulinho, desde o primeiro que foi uma berraça enorme (ninguém se lembrava de lhe dar água), até ao de hoje em que ele aí vai visitar sua Mãe à cadeia. Há-de ser gente, Gena; não ficará um rato medroso e estúpido, disso podemos já ter a certeza. E essa é uma grande consolação. (…)
Cá estiveram ontem e correu bem a visita. Palestraram bem dispostos. O Paulo desta vez queria já ter 17 anos. O que ele não quer é ter a idade que tem; isto é, quer que este período desapareça da memória. O Chapi idem. São tão diferentes estes dois filhos; mas não divergem na amizade para connosco e mútua. Os pontos de vista de cada um deles em relação às aulas caracterizam-los bem. Diz o Paulo: «Eu, quando estou no lugar, tudo quanto perguntam aos outros me parece fácil; mas quando chego ao quadro torna-se difícil.» O Chapi: «Eu, é ao contrário. Quando estou no lugar nunca sei; mas vou ao quadro e respondo tudo.» É claro que isto não é exactamente o que sucede; mas é, sem sombra de dúvida, o que eles pensam que sucede. Ou seja, a posição mental de cada um em relação à acção, à vida, duma maneira geral. Revelador, não achas? (...) Os esforços do Paulo para se tornar confiante e arrojado; os do Chapinho para se tornar atinado. São muito bons filhos, Mãe Gena.
Já trazia o teu presente (o livro sobre o Kon-tiki); e aqui recebeu o meu: «A Minha Primeira Enciclopédia», com texto em francês, mas com muitas gravuras. Minha irmã tinha-me mostrado ontem, através das grades, este «meu presente» para o Paulinho. Pareceu-me boa a ideia. Ele gostou. O miúdo é um bocado pictórico, visual, não sei se já reparaste. Geralmente aprecia as coisas pela sua possibilidade de serem desenhadas ou pintadas. «Isto é bonito, porque se pode pintar»; ou «é bom, porque se pode desenhar».

[publicado em João Varela Gomes, Tempo de Resistência, Lisboa: Ler, 1980, pp.156-157]
 

quarta-feira, outubro 27, 2004

Harmonias da natureza
Não maldigam a chuva, que faz muita falta: é ela que nos lava os carros.
 
Ainda a noite é uma criança


Já para não falar em que os espanhois jantam mais tarde.
 
Fragmentos de misoginia
Que elas mesmas não sejam felizes é, para muitas mulheres, perfeitamente tolerável. Que nós possamos não ser felizes ao pé delas, isso é que já excede todos os limites.
 
Waiting for the miracle
Ah baby, let's get married,
we've been alone too long.
Let's be alone together.
Let's see if we're that strong.
Yeah let's do something crazy,
something absolutely wrong
while we're waiting
for the miracle, for the miracle to come.

[excerto de «waiting for the miracle», de Leonard Cohen. Esta nem precisa de música.]
 

terça-feira, outubro 26, 2004

A inveja é uma coisa muito bonita
E quem sabe eu, tendo tempo e cabeça, chegarei até a explicar porquê.
 
Todos à culturgest
Nos dois primeiros dias do doclisboa 2004, vi dois documentários excelentes. O primeiro, The Revolution will not be Televised, uma peça chavista mas onde se aprende um bocado sobre o que se está a passar na Venezuela neste momento. Ontem, A Casa de Saud, um filme mais fraco do ponto de vista cinematográfico, mas exemplar em termos de investigação - rigorosa, imparcial e inteligente. No final, a discussão com a realizadora, uma senhora brilhante, foi o contrário do que os debates costumam ser em Portugal: animado, participado e informativo. Se isto continua assim, temos uma semana verdadeiramente em cheio.
 
Novidades dos campeões da luta antiterrorista
[Do editorial do NYT de hoje]

(...) A particularly horrific case of irony involves weapons of mass destruction. It's been obvious for months that American forces were not going to find the chemical or biological armaments that Mr. Bush said were stockpiled in Iraq. What we didn't know is that while they were looking for weapons that did not exist, they lost weapons that did.
James Glanz, William J. Broad and David E. Sanger reported in The Times yesterday that some 380 tons of the kinds of powerful explosives used to destroy airplanes, demolish buildings, make missile warheads and trigger nuclear weapons have disappeared from one of the many places in Iraq that the United States failed to secure. The United Nations inspectors disdained by the Bush administration had managed to monitor the explosives for years. But they vanished soon after the United States took over the job. Defense Secretary Donald Rumsfeld was so bent on proving his theory of lightning warfare that he ignored the generals who said an understaffed and underarmed invasion force could rush to Baghdad, but couldn't hold the rest of the country, much less guard things like the ammunition dump.
Iraqi and American officials cannot explain how some 760,000 pounds of explosives were spirited away from a well-known site just 30 miles from Baghdad. But they were warned. Within weeks of the invasion, international weapons inspectors told Washington that the explosives depot was in danger and that terrorists could help themselves «to the greatest explosives bonanza in history.» (...)
 

quinta-feira, outubro 21, 2004

Mágoa
«Há uma coisa com que eu embirro: as pessoas teimam em chamar-me Manuel João. Não compreendo e magoa-me muito.»
[M. J. Vieira]
 

segunda-feira, outubro 18, 2004


[imagem roubada daqui]
 

sexta-feira, outubro 15, 2004

Eventualmente
Um dia hás-de conseguir escrever sem advérbios de modo.
 

quinta-feira, outubro 14, 2004

O óbvio
Parece-me às vezes que não há nada mais libertador. A outros, que nada há de mais opressivo.
 
Somos uma única raça mestiça


Diários de Motocicleta é um título mais feliz para o filme sobre a viagem de juventude de Guevara pela América Latina do que Diários de Che Guevara, a tradução adoptada em Portugal: quer porque, em 1952, Guevara ainda não era «Che», e isso tem muita importância; quer porque «motocicleta», na sua conotação arcaica, quase caída em desuso, remete bem para o carácter precário do veículo em que Guevara e o seu amigo Granado viajavam.
O filme não é extraordinário: é de três «estrelinhas». García Bernal está nas suas sete quintas neste tipo de papéis (jovem, romântico, aventureiro), mais do que como travesti num filme de Almodóvar. Rodrigo de la Serna faz muito bem o papel do parceiro bonacheirão, e Mía Maestro, a namorada do jovem Guevara, é irresistível, pelo menos para quem gosta de sardas. (Pena que só apareça no início do filme.) Por outro lado, o final apoteótico, com multidões num coro crescente, palmas, gritaria, câmara lenta, e a música tomando progressivamente conta de tudo, é desastrado. Salles, como cineasta, tem a mão pesada. Mas do cinema brasileiro raramente se deve esperar muito.

E, em qualquer caso, trata-se de um filme com bastante força. Ela reside, a meu ver, em dois elementos que apresenta de forma muito persuasiva: a paixão da viagem como tentativa de descoberta do mundo, de aprendizagem de coisas novas, e uma defesa intransigente do «igualitarismo». Na verdade, os dois elementos estão interligados: aquilo que leva Guevara e Granado a viajar pela América Latina é procurar conhecer outras pessoas. A sua viagem é física e mental, tanto os conduz a outros lugares como a pessoas que não conheciam.
Contra o filme, Paul Berman escreveu um contundente artigo na Slate que deixou a nossa direita doméstica a esfregar as mãozinhas. Berman acha que Guevara é um criminoso político sem redenção (aspecto que não pretendo discutir) e que o filme é veículo de uma ideologia do martírio que é bem mais reaccionária do que progressista. Neste ponto, discordo. Mas, como veremos, pensar sobre o filme obriga-nos a pensar sobre alguns problemas que o conjunto da biografia de Guevara coloca, e «Fuser», o jovem Guevara dos Diários, leva-nos por fim a «Che», o revolucionário.
No momento crucial do filme, Guevara vai trabalhar como médico para uma colónia de leprosos, administrada por freiras. Os regulamentos estipulados por elas contêm elementos notoriamente autoritários, como impor que só se toque nos doentes com luvas (embora não exista perigo de contágio) e proibir que se dê almoço a quem não se apresente à missa. O jovem Guevara infringe ambos, o primeiro de forma especialmente ostensiva. A questão de Guevara é muito simples: todas as pessoas partilham de uma igualdade fundamental, não apenas ao nível dos seus «direitos», mas da sua dignidade, isto é, daquilo que elas são porque são pessoas.
Para demonstrar a sua intransigência na defesa desta ideia de igualdade, Guevara pratica gestos que, do ponto de vista estritamente prático, são desnecessários e até comportam riscos, como a cena em que de noite atravessa a nado o rio para passar da margem dos «sãos» para a margem dos «leprosos». A travessia é perigosa porque Guevara é asmático. Para Berman, a ênfase na asma de Guevara sublinha um elemento de «martírio», que é, a seu ver, uma das noções mais reaccionárias do catolicismo da América espanhola. Longe de ser contra as freiras, Guevara seria como elas, partilhando o culto do sofrimento, dos santos em chagas nas igrejas católicas.
Dizer que a iconografia do Che se assemelha à de Cristo é repetir o óbvio. Na verdade, um dos elementos que fazem a força do filme, e talvez a força de Guevara como um ícone em sentido mais amplo, é a sua afirmação directa de uma noção de igualdade que é cristã antes de ser socialista, e que é socialista mais do que marxista. Esta ideia, que não é, aparentemente, muito radical, em sociedades tão estratificadas como as da América Latina torna-se muito poderosa. Trata-se de sociedades em que não apenas a miséria, mas o elemento de exploração – de abuso do mais forte, do mais rico, sobre o mais fraco – é muito visível.
O que, no filme, se junta ao igualitarismo de Guevara é uma disposição radical de lutar com o próprio pêlo. O heroísmo decorre de acreditar que o bem-estar físico e a própria vida não são mais importantes do que a defesa da dignidade essencial de todos os indivíduos. Como o Guevara do filme não é um individualista, a dignidade em causa nunca é apenas a do próprio, mas a de qualquer pessoa.
Paul Berman preferia uma coisa mais «irónica» e mais «almodovariana», com menos heroísmo. Porém, ter uma urgência para a acção não combina muito bem com o cinismo e a ironia, pelo menos não no preciso momento em que se está a arriscar o corpinho. O «martírio», o Guevara asmático que atravessa o rio a nado, pode ser meramente simbólico, mas não é gratuito.

Pode o filme ser criticado por «limpar» a imagem de um homem que, politicamente, terá sido responsável por actos criminosos? É que, com aquela carinha de García Bernal, Guevara foi o homem que mais tarde defendeu:
El odio como factor de lucha; el odio intransigente al enemigo, que impulsa más allá de las limitaciones del ser humano y lo convierte en una efectiva, violenta, selectiva y fría máquina de matar. Nuestros soldados tienen que ser así; un pueblo sin odio no puede triunfar sobre un enemigo brutal.
Hay que llevar la guerra hasta donde el enemigo la lleve: a su casa, a sus lugares de diversión; hacerla total. Hay que impedirle tener un minuto de tranquilidad, un minuto de sosiego fuera de sus cuarteles, y aún dentro de los mismos: atacarlo donde quiera que se encuentre; hacerlo sentir una fiera acosada por cada lugar que transite. Entonces su moral irá decayendo.

A disponibilidade absoluta de Guevara para se oferecer em defesa dos outros implica uma disponibilidade absoluta para combater os que os oprimem. Nesse sentido, ainda que Diários de Motocicleta não seja uma biografia de Guevara, «Che» começa a existir em «Fuser». O jovem Guevara já está, embora de forma ainda limitada, disposto a arriscar a vida; e quem está disposto a dar a sua vida por uma causa está, geralmente, disposto a tirar a vida a outros por ela.
A meu ver, isso não legitima, em quaisquer circunstâncias, coisas tais como a pena de morte, os fuzilamentos, ou atentados contra civis. Creio que qualquer grupo ou sistema político que enverede por tais caminhos tem fracas perspectivas de redenção futura. Porém, uma coisa é rejeitar os elementos criminosos da experiência política de Guevara; outra é rejeitar toda a mensagem política radical que inclua noções de intransigência e de heroísmo. A intransigência é uma coisa complicada, a ser administrada sabiamente; porém, de maneiras várias, não podemos viver sem ela, nem hoje nem há 50 anos atrás, e creio que nem mesmo aqui, quanto mais na América Latina.
 
7-1


Em futebol não há resultado mais bonito.
 

terça-feira, outubro 12, 2004

No fim
- No fim, acaba tudo bem.
- Pena, nessa altura é o fim.
 
Arte de acabar

Richard Avedon, com foto de Marilyn

Para meu gosto, não há no Economist secção tão bem escrita como o obituário.
 
Voltar a casa
Sempre gosto de passar pelo cemitério de São João Batista, no Rio de Janeiro, e ler a frase inscrita no portão: revertere ad locum tuum. Digo isto sem qualquer ironia.
 
Le carnet du ballon
est commencé.
 
Mocinha
Depois de muito procurar, achei a camisa da seleção Brasileira de que gosto, a de 1982: um amarelo mais escuro, colarinho apertado, de algodão. É linda. Nas costas, o número dez e, no lugar do nome, «Brasil». Se pudesse, só lhe mudava o nome. «Juliana Paes», e ficava perfeito.
 
One day there is life

«Os quatro mineiros do apocalipse»: Helio, PMC, Sabino e Otto Lara

Soube hoje, pela secção «Hoje fazem anos», do Público, que Fernando Sabino, escritor, cronista que formava com Otto Lara Resende, Helio Pellegrino e Paulo Mendes Campos um famoso quarteto de mineiros no Rio dos anos 1960, amigo de Vinicius de Moraes, ainda é vivo: faz 81 anos. Soube hoje, pelo Globo, que Fernando Sabino morreu ontem. Deve ser record mundial: descobrir surpreendido que fulano existe para, duas horas mais tarde, descobrir que acabou de deixar de existir.

One day there is life. (...) And then, suddenly, it happens there is death.
[Assim começa The Invention of Solitude, do Paul Auster]
 

segunda-feira, outubro 11, 2004

A biblioteca da bola
Acabar um blog assim é como arder uma biblioteca. Aliás, não há biblioteca que nos valha: o que eles escreviam ali não está nos livros.
 
Notas superficiais sobre a política brasileira
As notícias que o Francisco José Viegas envia das eleições municipais no Brasil parecem-me, genericamente, boas notícias. Digo «parecem» porque as minhas opiniões sobre a política brasileira são superficiais.
A tendência geral do escrutínio de dia 3 foi para o aparecimento, embora ainda embrionário, de uma espécie de bipolarização à escala nacional entre dois partidos que têm alguma substância ideológica, o PT e o PSDB. Quando falo em «substância ideológica» quero dizer que representam plataformas políticas que à escala nacional defendem, cada um, um conjunto básico de valores e preocupações reconhecíveis – o PT de centro-esquerda, o PSDB de centro-direita. Ora, se o sistema político brasileiro vier a adquirir uma capacidade mais ou menos efectiva de representar grandes interesses sociais e grandes preferências ideológicas à escala nacional, isto tendencialmente reduzirá o poder dos caciques locais, da corrupção, da compra de votos.
Muito atrasado em relação a isto está – infelizmente, e inevitavelmente – o Rio. O prefeito do Rio, reeleito à 1ª volta, é César Maia do PFL. No passado, Maia foi prefeito pelo PMDB, e antes militante do PDT (de Brizola) e, na juventude, do PCB. Esta variada militância é significativa porque a generalidade dos partidos brasileiros, PFL e PMDB sobretudo, não têm qualquer consistência ideológica nacional e articulam-se à volta de caciques locais que trocam de chapa sempre que convém. Os dois mais famosos, mais poderosos e mais sinistros personagens da política brasileira são, precisamente, os velhos «coronéis» Antônio Carlos Magalhães (do PFL) e José Sarney (do PMDB).
Mas o pior nem é Maia ser Maia e ter ganho no primeiro turno: o pior é que o seu challenger foi o Padre Crivella da Igreja Universal do Reino de Deus. E quando digo da IURD, não me estou a referir à circunstância, noutros casos porventura acidental, de o fulano ser padre; refiro-me ao facto de que Crivella é literalmente o candidato da igreja, cujos templos foram transformados em sedes de campanha e cujo activismo passou a ser dirigido à conquista de votos. Depois de Crivella, no escrutínio, surgiu Mário Conde, do PMDB, e só por fim, na casa dos 5 ou 6% de votos cada, a candidata do PC do B, Jandira Feghali, e o do PT, Maurício Bittar.
Se a situação no Rio é péssima, e denota grande atraso face às outras grandes capitais do Brasil, não se presuma, no entanto, que em São Paulo vai tudo muito bem (como MMLM parecia imaginar há dias). Em São Paulo, todos os principais candidatos – incluindo Marta Suplicy, do PT, actual prefeita, sem mais vergonha que os outros – tiveram como actividade prioritária de campanha eleitoral deslocar-se a igrejas evangélicas, onde procuravam, por vezes com sucesso, obter delas um patrocínio explícito.
É claro que o problema principal do Brasil é a miséria, a pobreza extrema em que vivem milhões de pessoas. A mera existência de dois partidos moderados, um de centro-esquerda, outro de centro-direita, não parece, por si só, abrir muitas perspectivas à vida dessas pessoas. No entanto, se PSDB e PT conseguirem, a prazo, tornar-se nos dois grandes partidos concorrentes na política brasileira, os interesses locais, das igrejas, do dinheiro, serão necessariamente mais filtrados, ajudando a constituir uma democracia imperfeita. O que pode ser ainda bastante deprimente, mas sempre é um passo no caminho certo.
 

sexta-feira, outubro 08, 2004

Merda que não é autoregenerativa
Às vezes parece-me que está bastante difundida a convicção de que o sofrimento - de natureza psicológica - serve sempre para alguma coisa; de que o tempo nunca é perdido, porque o sofrimento é sempre autoregenerador. Ora, pode tratar-se de uma ideia muito literária – mas suponho que falsa.
Há um livro que li há três meses e de que – como já terão notado – gostei muito: The Invention of Solitude, do Paul Auster. O livro é autobiográfico e composto de trechos, de excertos sem uma ligação sempre evidente entre si (quase como um blog). E é a narrativa – num sentido não-linear – de um período bastante deprimido do autor.
Às tantas lembro-me que Auster (que nessa fase do livro se refere a si mesmo como «A.») passa dias deitado num sofá, olhando para o vazio, fumando cigarros e comendo batatas de pacote. Nós lemos o livro e pensamos - «ah!, que grande sofrimento produtivo. Prostrado no sofá o dia inteiro a comer batatas fritas: daqui só pode sair uma grande obra.»
Às vezes sai, realmente, às vezes sai: eu acho o livro do Auster um grande livro. Mas olhem que na maioria dos casos, arriscaria a dizer em pelo menos 95% dos casos, não sai nada: nem livro, nem autoregeneração, nem nada; somente uma grande merda passada num sofá a batatas fritas.
(Que, por outro lado, sempre é melhor do que sair dali e ir canalizar a neurose para fins socialmente danosos como, digamos, ser Ministro da Defesa.)
 
Foi bonita a festa, pá
Mas o verão, pá, acabou hoje – que merda.
 
zinhos
Para os brasileiros que nos conhecem, «pá» é a expressão mais curiosa e mais distintiva do português falado em Portugal (espanto: «mas há outro?»). Foi precisamente no «pá» que Chico Buarque pegou naquela lindíssima canção que dirigiu à revolução portuguesa: «foi bonita a festa, pá».
E há outras razões para gostar do «pá»; eu, pelo menos, tenho uma. No posfácio ao livro que escreveu directamente em português, Requiem, Antonio Tabucchi conta que explicou ao pai dele que o «pá», com que os portugueses se tratam informalmente, é uma contracção de «rapaz». Ao mesmo tempo, «pá», em italiano, é usado como diminutivo de «pai» (e também em português: há casos na minha família em que é usado). Assim, Tabucchi chamava «pá» (pai) ao pai, que por sua vez lhe respondia com «pá» (rapaz).
 

quinta-feira, outubro 07, 2004

Secção Rui Tavares
Em breve criarei nesta página uma secção de destaques, para chamar a atenção para os posts do Rui Tavares.
 
Present-as-past
His life no longer seemed to dwell in the present. Whenever he turned his radio and listened to the news of the world, he would find himself imagining the words to be describing things that had happened long ago. Even as he stood in the present, he felt himself to be looking at it from the future, and this present-as-past was so antiquated that even the horrors of the day, which ordinarily would have filled him with outrage, seemed remote to him, as if the voice in the radio were reading from a chronicle of some lost civilization.

[Paul Auster, 1988 (1982), The Invention of Solitude, London: Faber and Faber, p.76.]

(Grande vantagem de citar em inglês: os leitores apressados não julgam que fui eu que o escrevi.)
 
 

sábado, outubro 02, 2004

Para filhos e pais


E do disco da Calcanhotto, alguém tem falado? Parece-me muito feliz. Na verdade, acho que os cd’s anteriores envelheceram mal: é-me difícil ouvi-los, ela parece-me muito presa a um tipo formatado de canção, e até de forma de cantar. A Calcanhotto estava a tornar-se insistentemente «romântica» e de telenovela, quando me parece que o seu lado mais interessante é o mais lúdico. Ora, a pretexto de um disco para crianças, a Calcanhotto não só aprofunda este lado lúdico, mas torna-o assumidamente naif. Posso ter dúvidas sobre uma ou outra canção – especialmente Formiga Bossa Nova, acompanhada por António Chainho – mas no geral o disco flui muito bem, numa mood muito boa. Nenhuma das canções é composição da própria Calcanhotto, e a escolha do repertório é excelente, incluindo os «Oito Anos» da Paula Toller, o «Saiba» do Arnaldo Antunes ou a «Bailarina» do Chico Buarque e do Edu Lobo. Embora, para esta última, o melhor ainda seja ir ouvir a versão original cantada por coro infantil em O Grande Circo Místico – um disco talvez pouco conhecido e que, a ser esse o caso, merecia muito mais atenção.
 
Times no Brasil
[Não é Times, são «times».]


Do «time da malandragem», Zeca Pagodinho. Tem ginga.

No Brasil, o país do futebol, é difícil escolher uma equipa, isto é, um time. Desde logo, o conceito de uma equipa «do Brasil» é complexo, porque é difícil escolher um time do Rio se se mora em São Paulo, e vice-versa, uma vez que os jornais são locais e dão enfoque quase exclusivo aos times locais.
O futebol brasileiro está em muito mau estado - fraca afluência de público, êxodo dos craques para a Europa, salários dos jogadores em atraso - mas os históricos times do Rio (Flamengo, Vasco, Botafogo, Fluminense) reflectem estes problemas de forma mais marcada porque reflectem também o declínio do Rio de Janeiro. De há uns anos para cá, todos estão muito atrás das equipas de São Paulo. Custa dizer a frase «o declínio do Rio de Janeiro», mas infelizmente trata-se do óbvio ululante.
No ano passado, quando lá estive, escolhi o Fluminense, fosse pelo Nelson Rodrigues, fosse pela fama «pó-de-arroz» (mais aproximada ao Sporting), fosse pela listra verde na camisa, fosse por ser o anti-Flamengo, nitidamente o equivalente local do Benfica. Mas a escolha do ano passado tornou-se muito difícil de sustentar este ano, quando o time tinha concentrados em si três dos mais notórios imbecis - Romário, Edmundo o Animal e Roger. Em Julho, o Fluminense era treinado por Ricardo Gomes, antigo defesa central do Benfica, que com delicadeza oxfordiana pedia, pela imprensa, a Romário o favor de, uma vez por outra, comparecer a um treino; e a Roger que não usasse a comunicação social para insultar o guarda-redes da equipa. Em Agosto, Ricardo Gomes não era mais treinador do Fluminense (estava agora no Flamengo).
O aspecto porventura mais repugnante do futebol carioca - e, calculo, do futebol brasileiro em geral - é a desfaçatez com que os presidentes dos clubes mantêm um time inteiro com salários em atraso enquanto abrem excepção para um único craque: Romário no Fluminense, Dimba no Flamengo, Petkovic no Vasco. Esta política é assumida abertamente pelos dirigentes dos clubes, que se permitem contratar uma estrela com regalias especiais no mesmo momento em que dizem não ter dinheiro para pagar aos jogadores que já estão no clube. Ninguém respeita ninguém e toda a gente se insulta nas páginas dos jornais: jogadores aos treinadores, à diretoria, aos companheiros de equipa; aliás, deve ser por isso que não se chamam «equipas».
Outra coisa assinalável é a forma como os políticos do Rio - também eles, maus como os do resto do país, mas talvez piores, reflectindo a decadência do Rio de Janeiro - assumem o envolvimento na vida dos clubes locais. Em Dezembro, o prefeito César Maia - que será reeleito, provavelmente no primeiro turno, este fim-de-semana - envolveu-se directamente na tentativa (gorada) de contratar Rivaldo para o Botafogo. Como os outros times protestassem por esta utilização discriminatória dos dinheiros públicos, Maia tratou de anunciar que o município pagaria um craque para cada uma das equipas do Rio.
Ouvido o cd da Placar com os hinos dos vários clubes, a que o Francisco José Viegas já se referiu, o meu anti-flamenguismo impede-me de simpatizar excessivamente com a versão de Herbert Vianna (Paralamas do Sucesso) e Gabriel o Pensador, embora de fato, dentro do género, não seja má. Já o meu coração carioca e sambista gosta francamente do hino do Botafogo, o «time da malandragem», na versão de Zeca Pagodinho. No Botafogo joga actualmente Valdo, a antiga estrela do Benfica, com a provecta idade de 38 anos. O hino do Vasco da Gama, que inclui um trecho de «A Portuguesa», é cantado por um sambista sério como Paulinho da Viola (com Los Hermanos) e resulta bastante bem. Noutro género, oiço com prazer cómico o hino do Goiás, por Zezé di Camargo, que eleva a novos cumes o próprio conceito de brega.
 
Hora de ir dormir

Emmanuelle Béart e Fanny Ardant em Nathalie.

(O filme é fraco, a Béart, waaal - não.)
 

sexta-feira, outubro 01, 2004

Tarde de estudo
(...) Ao meu lado, na mesa do canto, chega uma rapariga de óculos escuros, tatuagem no tornozelo, sandálias presas entre os dedos dos pés. Vem carregada com dois livros pesadíssimos, desses que não cabem nas estantes e têm formato de manuais enciclopédicos: lido o calhamaço, está tudo lido. Um deles, segundo me apercebi, era em inglês e tinha a ver com química. Pousou os livros sobre a mesa claudicante, e pediu uma coca-cola. Trazia também um caderno, que abriu, certamente para tirar apontamentos. Abriu também o tratado de química e encostou-o ao outro (seria para servir de encosto que o tinha trazido?). E no momento em que, com uma esferográfica, se preparava para escrever a primeira palavra, o telemóvel tocou. Atendeu, esteve dez minutos em conversa ternurenta. Desligou. Lembrou-se então de falar à mãe a combinar um almoço. Entretanto recebeu uma mensagem. Respondeu à mensagem. Voltou a falar ao telemóvel, desta vez com uma amiga. Tentou ler o livro, mas à terceira linha foi interrompida por mais uma mensagem. Respondeu de novo. Achou que era o momento de apagar mensagens, talvez tivesse a memória cheia (não a dela, a da máquina). Fechou os olhos por um minuto, pagou, pegou nos livros e foi-se embora à procura do carro. Uma tarde de estudo. Um quiosque virtual. Uma praia no final do Verão.

[Eduardo Prado Coelho, no Público de hoje]

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