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A Praia

«I try to be as progressive as I can possibly be, as long as I don't have to try too hard.» (Lou Reed)

teguivel@gmail.com

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terça-feira, novembro 30, 2004

Eu hoje acordei assim


Aliás, eu acordo assim todos os dias.
 

segunda-feira, novembro 22, 2004

Portugal se fosses só três sílabas

Beatriz Batarda em Noite Escura
 
Halliday em Lisboa
Amanhã Fred Halliday fará uma conferência em Lisboa, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova (na avenida de Berna), às duas e meia da tarde. Halliday é um dos autores que mais aprecio nas Relações Internacionais contemporâneas, desde logo porque, ao contrário de muitos outros, concebe as Relações Internacionais de forma estreitamente articulada com o conjunto das ciências sociais (história, sociologia, etc.). Halliday combina uma sólida formação teórica no marxismo com afinidades explícitas com o «Realismo» de Waltz. Esta combinação – que me é, pessoalmente, a mais próxima, a mais congenial – é bastante rara.
Além disso, Halliday conhece profundamente o Médio Oriente, incluindo Iraque, Irão e Afeganistão, e é um dos críticos mais persuasivos da tese do «choque de civilizações» de Huntington. Justamente porque é bastante «marxista» e «realista» ao mesmo tempo – ou seja, «materialista» até ao tutano, como eu gosto – não se deixou cair nas armadilhas do relativismo cultural. Pelo contrário: é um sólido defensor do «universalismo». Um dos seus livros mais recentes diz claramente assim:

Greater dialogue, bridge-building, respect for the other community (...) raises the risk of denying the right or possibility of criticisms of the practices of those with whom one is having the dialogue. (…) The advocacy of a dialogue, one that presupposes given, homogeneous communities, national and religious, violates universal rights [p.129]. The alternative to the clash of civilizations need not be the mutual indulgence of communities [p.131].

Não sei se os jornalistas foram devidamente alertados para a presença de Halliday em Portugal, e se tencionam ir falar com ele, ou ouvi-lo. Deviam.
 
«A vida da noite é vida com sentimento»


Está em exibição nos cinemas um filme para ver com alguma urgência: Noite Escura, de João Canijo (em Lisboa já só no King e no Fonte Nova). O filme adapta uma tragédia clássica de Eurípides ao ambiente de um bar de alterne português nos dias de hoje. A adaptação parece-me inteiramente convincente, o argumento plenamente conseguido.
Canijo reconstitui o ambiente da «noite» através de um artifício que consiste não apenas em fazer a câmara passear de mesa em mesa, mas em ter permanentemente uma conversa «em primeiro plano» e outras em «fundo». O efeito disto é que, como na «noite», escutamos a todo o momento fragmentos de várias conversas. Canijo fez de resto um exaustivo trabalho de recolha de dezenas de frases e expressões idiomáticas, que põem as personagens a falar uma linguagem muito «autêntica».
Isto fez-me pensar que o filme será de exportação difícil, por exemplo para o Brasil: as legendas seriam indispensáveis. Mas fez-me pensar, por isso mesmo, por ser um retrato tão atento do Portugal de hoje, que a sua exportação seria muito necessária. A imagem que se tem de Portugal no estrangeiro é velha e relha - e, com a devida licença, a sobreprojecção externa de Saramago não é neste plano uma grande ajuda.
Não penso que Noite Escura seja uma «obra-prima», detecto-lhe fragilidades. Acho, em particular, que Rita Blanco, se é divertida, é por vezes demasiado divertida, um pouco caricatural. E o final é filmado de uma forma que parece mais apropriada a um filme de acção, ou a uma série televisiva, do que a dar sequência à poderosa tensão instalada (e que, enquanto história, o final até prolonga). Mas, globalmente, o resultado é muito satisfatório, os actores são muito bons, Fernando Luís, aos meus olhos, especialmente impressionante. E há uma urgência particular em ver um filme português, que fala directamente sobre este país. Nem sequer todos os anos temos um filme assim.

«Com sentimento»: tudo se vende, se deixa morrer ou se mata - filha, marido, irmã. Aparentemente nada, a não ser o dinheiro, vale nada. E, ao mesmo tempo, tudo é intensamente passional.
 
Cuddling
For me, the nicest thing about masturbation is afterward, the cuddling time.

[Woody Allen, em Hollywood Ending: à atenção de Pedro Mexia]
 
Um ano de Causa
Francamente, muitos parabéns à Causa Nossa, e em especial ao Vital Moreira, pelo primeiro aniversário do blog. Leio a Causa um pouco como leio o Economist – porque me ajuda a pensar. O Vital é um caso bastante singular no panorama português, e ainda mais na área ideológica do Partido Socialista, pela capacidade que tem para pensar politicamente sobre a actualidade, e pelo trabalho que lhe dedica. A sua reflexão é muito sólida, muito bem ancorada, permitindo-lhe evitar as armadilhas do casuísmo.
Há um ano parecer-me-ia bastante improvável que Vital Moreira viesse a dedicar à reflexão política na blogosfera uma atenção diária, mas entretanto tornou-se indispensável. Neste preciso momento, ele conduz quase sozinho a argumentação a favor da Constituição Europeia no espaço público português numa perspectiva «progressista». Vital é a meu ver um dos poucos intelectuais políticos de referência, e aprende-se a ler a Causa.
 

sábado, novembro 20, 2004

The place where he had wept was at such depths of concealment that he could not remain there for long.
 

quinta-feira, novembro 18, 2004

Marcos no caminho
Missão Cumprida na RTP
Luciano Alvarez
Público, 17 de Novembro de 2004

Primeiro veio fonte do Governo, ao abrigo do anonimato, no Expresso, dizer que José Rodrigues dos Santos estava sob avaliação e admitir mexidas na direcção da RTP. O director de informação da RTP assobiou para o lado.
Depois veio o ministro Morais Sarmento defender «limites à independência» nos operadores públicos, acentuando que não são as direcções nem as administrações que respondem perante o povo nas eleições. O director de informação da RTP voltou a assobiar para o lado.
Agora veio a administração do canal público decidir que jornalista é que devia ocupar o lugar de correspondente em Madrid. Aqui o director de informação não podia assobiar para o lado, porque, a seguir, a administração iria decidir por ele qual o jornalista que deveria cobrir o assunto x ou y, ou dizer qual a notícia que deveria abir o telejornal.
Rodrigues dos Santos não se demitiu, foi demitido, porque nenhum director de informação pode aceitar que seja a administração a decidir questões que dizem única e exclusivamente respeito à área editorial. Os administradores sabiam-no e não cederam porque queriam que Rodrigues dos Santos saísse. A avaliação de que falava o membro do Governo há muito que estava feita.
Surpresa? Nenhuma. A saída de Rodrigues dos Santos faz parte da anunciada estratégia de controlo da comunicação social por parte do Governo e que já deu vários passos.
A TVI do amigo Paes do Amaral está parcialmente tratada; o Diário de Notícias já está controlado; na RTP o assunto acabou de ficar resolvido. Segue-se o Jornal de Notícias, a TSF e a imprensa regional do grupo PT, que se não entrarem na linha por iniciativa própria as administrações tratam do assunto, como aconteceu agora na RTP e já tinha acontecido no DN.
E tudo isto tem de ficar concluído com alguma rapidez. É que Santana Lopes quer ficar mais dez anos no poder e, por isso, tem de resolver estas questões até 2006, ano em que há eleições presidenciais e legislativas.
 
Not with a healing, but with a fight
In the wee small hours of November 3 2004, a new country appeared on the map of the modern world: the DSA, the Divided States of America. Oh yes, I know, the obligatory pieties about "healing" have begun; not least from the lips of the noble Loser. This is music to the ears of the Victor of course, who wants nothing better than for us all to Come Together, a position otherwise known as unconditional surrender. Please, fellow curmudgeons and last ditchers, can someone on the losing side just for once not roll over and fall into a warm bath of patriotic platitudes at such moments, but toot the flute of battle instead; yell and holler and snarl just a wee bit? I don't want to heal the wound, I want to scratch the damned thing until it hurts and bleeds - and then maybe we'll have what it takes to get up from the mat. Do we think the far-right Republican candidate Barry Goldwater, in the ashy dawn of his annihilation in 1964, wanted to share? Don't think so. He wanted to win; sometime. And now, by God, he has.

(...) It wasn't that the Kerry campaign didn't notice the confessional effect. It was just that they didn't know what to do about it. Making the candidate over as some sort of altar boy (notwithstanding directives from Rome instructing the faithful on the abhorrence of his position on abortion) would have been about as persuasive as kitting him out with gun, camouflage and dead Canada geese; a laboriously transparent exercise in damning insincerity.

(...) Because, the president had "acted", meaning he had killed at least some Middle Eastern bad dudes in response to 9/11. That they might be the wrong ones, in the wrong place - as Kerry said over and over - was simply too complicated a truth to master. Forget the quiz in political geography, the electorate was saying (for the popular commitment to altruistic democratic reconstruction on the Tigris is, whatever the White House orthodoxy, less than Wolfowitzian), it's all sand and towelheads anyway, right? Just smash "them" (as one ardent Bush supporter put it on talk radio the other morning) "like a ripe cantaloupe". Who them? Who gives a shit? Just make the testosterone tingle all the way to the polls. Thus it was that the war veteran found himself demonised as vacillating compromiser, the Osama Candidate, while a pair of draft-dodgers who had sacrificed more than eleven hundred young men and women to a quixotic levantine makeover, and one which I prophesy will be ignominiously wound up by next summer (the isolationists in the administration having routed the neocons), got off scot free, lionised as the Fathers of Our Troops.

(...) if a fresh beginning must be made - and it must - let it not begin with a healing, but with a fight.

[do artigo de Simon Schama, de 5 de Novembro]
 

sexta-feira, novembro 12, 2004

Literatura e cultura
Literatura brasileira é no Gávea. Cultura brasileira, no Aviz. E pronto: em termos de observações machistas e etnocêntricas, prometo tentar não passar daqui.
 

quinta-feira, novembro 11, 2004

O pior é o som
Eu não quero armar-me em pacifista, nem sequer apresentar-me como imparcial, fingir que todos têm razão, que ninguém tem razão, e que no fundo temos de ser todos amigos. Mas, a propósito do banzé que para vai, neste momento só me apetece lembrar o Nelson Rodrigues: o pior da bofetada é o som.
 

quarta-feira, novembro 10, 2004

Garota de fim-de-semana

Mélanie Doutey

[para FN]
 

terça-feira, novembro 09, 2004

My old age
Because of a few songs
wherein I spoke of their mystery,
women have been
exceptionally kind
to my old age.

They make a secret place
in their busy lives
and they take me there.
They become naked
in their different ways
and they say, «Look at me, Leonard
Look at me one last time.»

Then they bend over the bed
and cover me up
like a baby that is shivering.

[Leonard Cohen, «Because of», em Dear Heather]
 
Estou de volta
E ao regressar tinha este cartaz à porta de casa.
 

quarta-feira, novembro 03, 2004

Mentem


Eles mentem, eles ganham. Mesmo os apoiantes de Bush devem dar-se conta de que há nisto alguma coisa de muito inquietante: uma mentira eficaz não é uma boa piada.
 
No meio do nevoeiro das notícias, é difícil perceber o que se está a passar. Felizmente há o Economist, analítico e clarinho como água.
 

terça-feira, novembro 02, 2004

Tudo em defesa do «nosso modo de vida»
Há duas maneiras muito diferentes de encarar as eleições americanas de hoje. Uma consiste em pensar que o presidente cessante deve prestar contas pelo seu mandato. Outra sustenta que qualquer desautorização dos líderes políticos ocidentais no poder transmite, objectivamente, um sinal de cedência aos terroristas.
Esta segunda linha de raciocínio - que já fora invocada a propósito das últimas eleições espanholas - tem implicações curiosas. A ser levada a sério, o melhor seria suspender quaisquer eleições gerais até estar resolvida a guerra contra o terrorismo. Tarefa que, de resto, se antevê concluida em «uma ou duas gerações».
 
Muito claro: o argumento «apocalíptico na sua essência»
Para quem tivesse dúvidas - não é o meu caso - Pacheco Pereira esclarece hoje que «se fosse americano votaria Bush», porque, se Kerry ganhar, «no dia seguinte, os assassinos da Al Qaida e do Baas começarão a tirar as lições e a jogar tudo por tudo no terror.»
 
Moral


A propósito do Pacheco: toda a gente sabe qual é a minha «cidade moral».
 
Deeply flawed
Não me surpreende que, esta semana, o próprio Economist tenha declarado o seu apoio a John Kerry. Não me surpreende, mas - a não ser na medida em que isso possa ter alguma influência prática sobre o resultado das eleições - também não me anima. Tendo em conta o absoluto desastre que a política externa da administração Bush se revelou no último ano, há meses que me parecia óbvio que, desde que Kerry chegasse às eleições com alguma razoável possibilidade de as ganhar, o Economist optaria por apoiá-lo contra Bush.
No entanto, convém notar que quando, em Janeiro de 2002, Bush inventou o «eixo do mal» - expressão de que hoje já ninguém fala a não ser para se referir a um programa de televisão – o Economist saudou-lhe a «clareza moral». Que entre o Verão de 2002 e Março de 2003, enquanto a administração americana fazia reiteradas apresentações de «provas» sobre armas de destruição em massa – e ao mesmo tempo torpedeava o trabalho dos inspectores da ONU –, o Economist nunca hesitou em dar a Bush e Rumsfeld o direito de fazer a guerra no momento e nas circunstâncias que decidissem. E que quando, para tentar apaziguar a opinião pública internacional após ter invadido o Iraque, Bush fez umas vagas declarações de boas-intenções sobre a paz para Israel e a Palestina, sem a menor pressão efectiva ou sequer simbólica sobre o governo de Sharon, o Economist acolheu-as como se estivessemos realmente às portas de uma nova era de paz, prosperidade e democracia no Médio Oriente.
Embora tenha a tempo estabelecido as suas diferenças em relação a Guantanamo ou ao escândalo de Abu Ghraib, o Economist não pode sequer alegar que tais casos eram totalmente inesperados no quadro de uma administração que nem no plano externo nem interno reserva particular carinho às liberdades fundamentais, e do «idealismo democrático» só retém o programa expansionista. O Economist não pode seriamente descobrir a uma semana das eleições a «incompetência» de Bush que aos olhos da maioria sempre foi ostensiva. Nem parece muito honesto assinalar agora que a política americana para o Iraque é uma mistura de «sheer incompetence and hubristic thinking», quando o próprio Economist andou a aplaudi-la até há dois dias.
O editorial do Economist representa apenas uma coisa: o reconhecimento conformado, realista, de que o projecto político corporizado por Bush tem hoje mais probabilidades de fracasso do que de sucesso no plano internacional. Mas a revista nunca se afastou nem afasta dos três elementos cruciais do mandato de Bush (o «eixo do mal», as ADM no Iraque e a paz no Médio Oriente), que se revelaram, na melhor das hipóteses, fracassados, na pior desonestos. No conjunto, a impressão com que se fica deste editorial notoriamente escrito a contra-gosto é que, sem se retractar das opções que patrocinou ao longo destes quatro anos, a revista escolheu para Kerry as amargas palavras que deveria ter reservado para si mesma.
 

segunda-feira, novembro 01, 2004

O pessoal da limpeza
A tarefa de quem escreve é muito simples, ainda que cumpri-la bem possa ser complicado: limpar, limpar, limpar; simplificar, simplificar, simplificar. Quer dizer: o objectivo é dizer alguma coisa, e não produzir nuvens.
Não sei se por causa dos vastos níveis de iliteracia do país, se por influência da retórica da televisão ou outra coisa qualquer, nos últimos tempos – nos blogs, nos jornais, nos trabalhos académicos, nos romances (mas aqui é fácil porque deito-os rapidamente borda fora) – encontro a prosa cada vez mais enfeitada. E o pior é que a prosa enfeitada não é só um defeito, que eu por vezes também manifesto: a prosa enfeitada é meio caminho para o sucesso, é uma estratégia que enche colunas, noticiário, jornais inteiros.
Talvez por isso fiquei muito satisfeito com este editorial do NYT de hoje, que sublinha as razões pelas quais o relatório da Comissão Independente sobre o 11/9 foi nomeado para um importante prémio literário.

Robert Penn Warren knew well what fascinates readers: «In this century, and moment, of mania, tell me a story.» The trick is that simple and rare, which makes it all the more remarkable that of all the bureaucratic entities in nonliterary America, the independent commission on the Sept. 11 attacks has produced a lean and stunning narrative out of its exhaustive investigation. The 9/11 report is a story first and last, an unbearably true tale some 585 pages long. And now the telling, by a hodge-podge of staff and commission members, is a finalist for the National Book Award.
This is an unusual and welcome nomination, as surprising in its way as the written report's compulsive pacing and taut narration. «We just scrubbed each sentence for clarity,» said the commission vice chairman, Lee Hamilton, trying to explain how such a group product, necessarily hurried, managed to ring with beguiling style, devoid of hyperbole and sparing of adjectives. (...)
People embrace the report as far more than a souvenir of sad times. It's required reading for anyone, now or in the future, who is bewildered by all the reductive theories and melodramatic simplifications (...). It's surprising that no one has claimed credit as the overriding author. (...)
 
Da Praia
Em arrumações, descubro um texto já antigo, inédito, de Paulo Varela Gomes, o único jamais escrito para uma revista que nunca chegou a existir, A Praia. Com um começo tão auspicioso, é evidente que já ninguém conseguiu fazer mais nada.

Os banhistas (1999)
Paulo Varela Gomes
Os lugares de férias são classicamente três: o campo, a montanha e a praia. De entre eles, a praia é singular: só aí as férias são a actividade «natural», só aí a ideia de não fazer estritamente nada exerce uma hegemonia completa sobre todas as ânsias e possibilidades de trabalho. Na praia não se plantam couves e não se põem ovelhas a pastar.
Profissionais como os pescadores, os banheiros, os vendedores de gelados e os bay-watchistas exercem actividades relacionadas com a praia. No entanto, estas actividades não são uma extensão da praia ou um seu complemento. É difícil imaginar uma loja sem lojistas, uma horta sem hortelão, uma máquina sem operário, uma casa sem alguém que limpe o pó. Apresentam-se aqui, num único plano conceptual, o ser humano, a sua actividade e o meio através do qual esta se exerce. A praia, pelo contrário, pode bem funcionar sem que nela se exerça qualquer espécie de actividade produtiva. Todas as que são possíveis aparecem como perturbações da lógica da praia.
Foi precisamente por esta razão que a ideia de praia se tornou um sinónimo da ideia de férias. A ida à praia só se tornou uma actividade de massas, ou seja, uma actividade da humanidade em geral, graças ao movimento operário. Neste sentido, o direito às férias pagas, imposto pela Frente Popular francesa em 1937, constituiu uma revolução do estatuto do ser humano na Terra. Antigamente ia-se de férias para «retemperar forças para o trabalho», hoje trabalha-se a pensar nas férias e exige-se trabalhar cada vez menos para se poder estar mais tempo em férias. Não se trata de uma pequena transformação socio-cultural. O movimento operário não conseguiu implantar a sociedade comunista, mas fez talvez melhor inventando o não-trabalho. Realizou assim o sonho de Marx: acabar com a pré-história da humanidade, ao menos 28 dias por ano.
(...) Com a agricultura, desenvolveram-se seres humanos com características físicas adaptadas a trabalhos desgastantes, mulheres e homens curvados sobre a terra, crestados e envelhecidos pela poeira, o sol e o frio. Da praia, em contrapartida, resultou a Pamela Anderson. Se isto não é progresso, não sei o que é progresso.
Da praia resultou a obsessão com o bom aspecto físico que está a reformar completamente o corpo humano, incluindo nele o silicone e alterando-o pela cirurgia estética, ou seja, fazendo melhor que a natureza. A aspiração à beleza física é também, nos melhores casos, um desejo de igualitarismo físico, possivelmente mais decisivo nos seus efeitos culturais e sociais do que o desejo de igualdade social. Dotados de um belo corpo bronzeado, pobres e ricos podem olhar-se de frente sobre a areia. Mal se vestem, a sociedade de classes volta a separá-los, embora a roupa de praia tenda também a ser igualitária graças à intervenção comunista dos falsificadores de etiquetas Ralph Lauren. Por outro lado, a aspiração a ser preto, que contagia os brancos, introduz o igualitarismo rácico. Finalmente, a praia obriga os homens a serem tão objectos sexuais como gostariam que só as mulheres fossem. Como explicou a Bíblia e Rousseau viria a confirmar, No-Princípio-Era-a-Nudez. Mas, dos Bons Selvagens do campo, passámos aos Bons Civilizados da praia. Também isto é progresso.
 
Marta Suplicy (PT) perde a prefeitura de São Paulo. Nada, parece-me, a lamentar.

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