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A Praia

«I try to be as progressive as I can possibly be, as long as I don't have to try too hard.» (Lou Reed)

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segunda-feira, fevereiro 28, 2005

Coisas destas eu não digo muitas vezes
Vi a Ópera do Malandro em São Paulo, em Agosto, e vou revê-la hoje ao CCB. Entusiasmei-me bastante, sobretudo por ter percebido a história de onde só conhecia, de há muitos anos, as músicas; fiz muitas recomendações a amigos. Mas hoje saí para comprar o Público especialmente interessado na crítica da peça, e reconheço que o texto, de Eurico Monchique, sendo globalmente favorável, é mais perspicaz do que eu tinha sido. Além de se queixar do ambiente socialite e direitista que é realmente muitas vezes chato no CCB.
 

domingo, fevereiro 27, 2005

Finalmente chove
I can gather all the news I need on the weather report.

[Paul Simon, «The only living boy in New York»]
 

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

Just in case
Por estes dias é que um indivíduo se lembra que não devia ter cortado a assinatura do telefone fixo. Como não há lista de telemóveis, fica aqui o meu número: 960000006. Deixo-o ligado de noite. Estejam à vontade.
 

sexta-feira, fevereiro 18, 2005

Voto Bloco
Não há nada mais chique do que votar em branco. O boletim em branco é a imagem mesma da consciência limpa: a consciência sai da assembleia de voto tão imaculada como o papelinho que se deixou na urna. O votante em branco despreza por igual todos os candidatos. Mas despreza também a vasta maioria dos seus concidadãos que se abstêm ficando em casa. Não há atitude mais self-righteous, mais cheia de razão: é de uma superioridade esmagadora.
E de uma simplicidade esmagadora: depois da experiência dos últimos três anos, o votante em branco continua incapaz de discriminar entre o mau e o péssimo. O votante em branco imagina que castiga toda a gente; mas como, politicamente, a expressão do seu voto é nula, ele não castiga ninguém. O votante em branco imagina-se o cúmulo do civismo, porque sai de casa só para demonstrar a sua devoção ao sistema político democrático. Mas na realidade o votante em branco também não está muito preocupado com a política, e na prática imagina o voto como um assunto lá entre si e a sua consciência. A consciência limpa é a única coisa que lhe importa. As consequências sociais do voto – afinal, as únicas consequências reais do voto – nem sequer lhe ocorrem.
Há condições sociais muito específicas em que o voto em branco pode fazer sentido: se for politicamente interpretável como uma rejeição de um sistema político em particular (o caso do Irão, de que falava há dias o Pedro Magalhães), ou em último caso – por exemplo, se se acreditar piamente (como Pacheco Pereira) que só do PSD pode vir a redenção nacional, e que o actual PSD de Santana é um anti-PSD. Mas como forma moralmente correcta de neutralidade, sem qualquer alternativa política esboçada ou concebível, o voto em branco é um moralismo pateta. O domingueiro que se abstém para passar o dia no shopping parece-me mais respeitável do que o cidadão que vai dobrar o boletim em quatro para apaziguar a sua consciência. A política é uma questão de escolhas.

Toda a gente diz que «o voto é secreto». O sigilo do voto é uma regra, indispensável em democracia, e destina-se a preservar a liberdade de quem vota face a formas possíveis de coerção – no emprego, na família, etc. Mas, uma vez que a liberdade de um indivíduo esteja garantida – como, parece-me, ela em geral está –, o voto não é secreto, mas público. O voto significa uma escolha sobre um assunto que não é particular, não é íntimo, mas tem consequências para a vida de todos. Um voto não é uma afeição íntima, uma escolha particular, como a religião, o amor, ou o sexo. Em condições ideais devemos tratar o nosso voto como público. Mesmo que essa publicitação implique expormos também publicamente as nossas hesitações, as nossas dúvidas, as nossas angústias.

No domingo vou votar no Bloco. Considero muito interessantes algumas das críticas que se fizeram ao Bloco, em geral, e a Francisco Louçã, em particular, no decorrer desta campanha. Tenho até a impressão que o célebre episódio com Paulo Portas pode ter marcado em definitivo a imagem pública de Francisco Louçã. Louçã errou, ficou exposto nas suas vulnerabilidades, e hoje é mais criticável; para o Bloco e para o país, penso que a prazo isso é bom.
Lembro as críticas que o Pedro Oliveira fez ao Bloco no Barnabé e parece-me que, no essencial, acertou no diagnóstico. O Bloco não tem tido dissensão interna, e Louçã tem desfrutado de uma liderança de carácter «carismático». A facilidade com que Louçã empresta a todas as suas causas um tom de cruzada moral é preocupante e deve ser contrariada. Mas, aos que criticam o Bloco por ser «uma seita de fiéis», sempre se pode dizer que há muitas pessoas que votam no Bloco apesar de não integrarem qualquer seita nem serem fiéis de ninguém. Francisco Louçã é um excelente dirigente político, um excelente parlamentar, possivelmente o líder político que se apresentou mais bem preparado para estas eleições, para a campanha, para o debate. Tem uma capacidade de trabalho incomum e uma inteligência um pouco fora do vulgar. Mas pode-se votar Bloco sem acreditar no dogma da infalibilidade de Louçã e do próprio Bloco.
O voto é normalmente uma escolha entre males, e a verdade é que aos defeitos do BE podem ser contrapostos uma série de aspectos positivos difíceis de minimizar. O Bloco trava em Portugal alguns dos combates mais fundamentais de um programa liberal em matéria de costumes: a igualdade de direitos dos homossexuais, dos imigrantes, a despenalização do aborto, a despenalização das drogas leves, o tratamento pragmático, sensato, humanamente razoável dos toxicodependentes (as «salas de chuto»). A esquerda portuguesa – e o país em geral – seria sem dúvida muito mais retrógrada sem a agenda «moral» do Bloco. Acresce que há outras causas, que o PS devia abraçar e não abraça, e que o Bloco expõe de forma persuasiva. Não há nenhum compromisso do Partido Socialista relativamente à reforma fiscal, que em certo momento ele próprio chegou a propôr na anterior legislatura, e que é hoje defendida pelo Bloco de Esquerda. O PS, mesmo o de Ferro Rodrigues, foi a princípio hesitante na crítica à Guerra do Iraque. Não há nenhum traço distintivo de esquerda no programa do PS – e por isso não é de espantar que muitos eleitores hesitantes acabem por votar no Bloco.

A única proposta clara que transparece do programa político do PS é o «choque tecnológico», um conjunto de boas-intenções que não tem verdadeiramente a oposição de ninguém. O PS é dúbio sobre a reforma da administração pública e é dúbio sobre o aumento da idade da reforma; mas ninguém tem dúvidas de que, caso tenha força política para isso, fará políticas «de direita» nessas matérias. Discutiu-se muito, nesta campanha, a declaração de voto de Freitas do Amaral do ponto de vista das suas idiossincrasias pessoais; mas mais interessante teria sido discuti-la como sintoma. Só há hoje uma fractura programática séria entre o PS e o CDS: a questão da despenalização do aborto. Mas nem esta é grave, porque o assunto será resolvido em referendo e, embora o CDS se oponha a ele, toda a gente sabe que é uma questão de tempo. As divisões internas do PSD durante esta legislatura já deram para perceber que a lei do aborto não poderá permanecer indefinidamente como está. De modo que, a não ser que se acredite na agenda moral ultra-reaccionária de Paulo Portas – o «choque dos valores», a defesa da «vida», o namoro à Igreja - não se encontra uma razão plausível para premiar um partido que esteve no governo com Santana e o PSD, e não deseja outra coisa que não seja voltar ao poder com Santana e o PSD. Portas é um líder «carismático» na mais genuína tradição da direita autoritária; mas, para a direita moderada e liberal, não vejo que faça sentido nenhum votar nele.
O argumento da estabilidade aproxima a direita moderada do voto PS. Se o PS não conseguir obter grandes sucessos junto do eleitorado de centro-direita, isso não se deve a divergências políticas significativas, mas à fraca campanha de Sócrates e à sua péssima prestação no debate da última terça-feira. Realmente acredito que, perante a «ausência» do PSD, o PS, apresentando-se como o único partido capaz de governar por quatro anos, com um programa muito moderado e com maioria absoluta, está realmente em muitos casos a disputar votos directamente ao CDS.
A verdade – lamentável, incontornável – é que o PS não apresenta, nem no plano das propostas nem das pessoas, nenhuma vantagem sobre o guterrismo. Não apresenta sequer uma explicação convincente sobre por que é que o guterrismo fracassou. A sua mensagem implícita é: «somos tão maus como antes eramos, mas agora queremos a maioria absoluta para podermos estar até ao fim». Como estratégia de sedução, não é apelativo. Nós queríamos saber por que é que o país agradável de 1999 fracassou; eles não explicam. E se Guterres tinha ainda algumas qualidades pessoais - era um indivíduo articulado e inteligente –, Sócrates, quanto mais se revela pessoalmente, mais demonstra o seu vazio. Vejamos, por exemplo, a entrevista de hoje a Miguel Esteves Cardoso na Sábado: «Foram os ingleses que inventaram o desporto.» «Há muita gente que pensa que o mundo enfraqueceu um bocadinho depois de o império britânico ter sido substituido pelo império americano.» «É fundamental que todas as questões internacionais sejam decididas com base na lei e no Direito Internacional.» «Nunca achei que o mundo fosse perfeito. Penso é que devemos ser fiéis ao Direito Internacional.» Isto é Sócrates. Esperemos que no governo ele seja uma marioneta de Vitorino; nesse caso teríamos por fim um governo competente de centro-direita.

Voto no Bloco – como tenho votado a maioria das vezes – apesar dos pesares. Não desincentivo ninguém de votar PS; nem mesmo desincentivo ninguém de votar na CDU. Compreendo a angústia de um eleitor que queira votar Bloco mas que tema que o BE possa vir a impedir o PS de cumprir integralmente a próxima legislatura, entregando de novo o poder ao PSD e a Paulo Portas. Compreendo essa angústia – porque também é a minha. Miguel Portas dizia há dias – para uma plateia de comício do Bloco que reagiu com frieza – que votar no PS «já é dar um sinal de mudança». Mas não há razão para não reconhecer o óbvio: não haverá mudança nenhuma sem que o PS ganhe as eleições, forme governo e se mantenha lá. Voto Bloco de coração nas mãos, pensando que deve haver um governo para quatro anos e esperando que, se o problema se puser, o Bloco seja capaz de assumir as suas responsabilidades.
É possível um eleitor votar Bloco e sentir-se defraudado; é praticamente certo que um eleitor do PS se sentirá defraudado; mas é virtualmente impossível um eleitor CDU sair defraudado. Quem vota CDU, para o bem e para o mal, sabe com o que conta. Não vai muito longe, mas também não se engana. Compreendo que em certo sentido a CDU é a opção mais segura. Been there, done that.
 
You betcha
Podendo estar ali a ouvir o Summer Wind, eu não perdia muito tempo aqui.
 
Para quem ainda está a hesitar
This is a column about why people should vote, however disaffected or pessimistic they may find themselves. (…) What is dangerous about the sanctimonious withdrawal from the political process (and it can be extraordinarily priggish – think of the lofty vanity with which people declare that they can find no one «worthy» of their vote) is not that it marks the death of idealism but the birth of a fantasy about what democratic politics might mean. And that fantasy (…) may be more easily satisfied by seductive dreams than by the dull pragmatism of political compromise.
The argument for voting, then, is not that it is somehow magical or noble or even that it is a personally satisfying thing to do. It is not that we have some ritual duty to keep the flame of democracy burning or that by not voting we sully the memory of the war dead. It is precisely the opposite – that it is such a modest and, in some respects, unsatisfying act of discrimination. (…) However unhappy we are with the choices we have to make, however futile the action feels to us, it remains a deed as opposed to an idle hope. You cross a ballot paper not your fingers.
(…) I will be voting Labour today – not because I believe they will usher in a New Jerusalem (a new tow project that has been cancelled along with Clause Four), nor because I found anything congenial in the craven tactical retreats of Mr Blair’s campaign (though he has offered me the unusual experience of voting for a politician in the profound hope that he has been lying to the country), nor even because I would particularly want to be identified in anyone’s mind as a «Labour supporter», with the whole set of assumptions that follow from the label. I’m voting for Labour because I think they are preferable to the xenophobic, exhausted and morally bankrupt government we have endured for too long.
Only children think of the world as perfect or «all-spoiled»; adults have to come to terms with greyer shades of meaning. And while I don’t really believe the distinction between Labour potential and Tory actuality is a narrow one, even if it was virtually indistinguishable it would still be worth making a mark in support of the bad rather than the worse. In a rather literal sense it is the least we can do.

[Thomas Sutcliffe, no Guardian, a 1 de Maio de 1997, no dia em que o Labour ganhou pela primeira vez as eleições em vinte anos.]
 

terça-feira, fevereiro 15, 2005

A ironia
Convenhamos que é um pouco cómico: durante um ano e meio, o Daniel Oliveira trabalha todos os dias para construir um blog de agitação política com uma audiência poderosa. No momento do voto, sai para fazer campanha, e o Celso e o Pedro Oliveira, que antes escreviam de páscoas a natais, fazem um post por dia a zurzir no Bloco e a apelar à maioria absoluta do PS. Chama-se a isto lealdade orgânica.
 
Um político que fala como eu sinto


Tenho defeitos como todos os seres humanos, mas conhece algum político em Portugal que eles tratem tão mal como a mim?
Também o tratam mal a si. Já somos vários.

[Da carta de Santana Lopes aos eleitores, integralmente transcrita aqui.]
 

terça-feira, fevereiro 08, 2005

Não há rapazes maus
Sempre que comento que Fulano é um canalha, ou Beltrano um pulha, os meus amigos respondem-me que Fulano e Beltrano são gajos porreiros. Tenho a certeza de que o Goering também era um gajo porreiro, e há meses que lhes digo isto. Pois bem, agora é oficial: um dos guardas responsáveis por tomar conta de Goering em Nuremberga em 1945 declarou ao Los Angeles Times: «Goering was a very pleasant guy. He spoke pretty good english. He'd talk about sports, ballgames. He was a flyer and we talked about Lindbergh.» Fundador da Gestapo, herdeiro designado de Hitler, o homem que em 1941 ordenou a «solução final» para a questão judaica era um gajo porreiro. Eu sabia que isto estava escrito em qualquer sítio.

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