«I try to be as progressive as I can possibly be, as long as I don't have to try too hard.» (Lou Reed)
quinta-feira, junho 30, 2005
O próximo blog
O Rui encontrou uma forma muito bonita de anunciar que o Barnabé fechará as portas no dia em que A Praia completar dois anos - com a caligrafia de Fernando Pessoa, um papel escrito na véspera de morrer, «I know not what tomorrow will bring». Podia lamentar o desaparecimento do Barnabé, mas não lamento: há muito tempo que estava desaparecido e em combate. De qualquer forma, isto são horas de dar as próximas boas-vindas, e tenho a impressão que já nem sou o primeiro.
Para a rapaziada - e para o maradona, por ser surdo - a música do Sérgio Godinho que entre todas me é, possivelmente, a mais simpática. Do Canto da Boca (1981).
O Rei Vai Nu Letra e música: Sérgio Godinho
Não sei de imagem que o tempo não destrua não sei de ti se atravessas a rua vem ter comigo sempre que for preciso fala com a voz fala com o choro fala com o riso diz o que é preciso
Viva quem vive com a cabeça aperrada e dispara a bala contra o medo apontada viva quem luta com a cabeça ao contrário p'ra ver também um pouco do lado do adversário do lado contrário
E viva o dia em que já não precisas de reis nem gurus nem frases-chave nem divisas o dia em que já não precisas de reis nem papás nem profetas nem profetisas
Ei, ei, que é do rei o rei foi-se, o rei vai nu ei, ei, viva eu, viva tu
Não sei de imagem que o amor não persiga não sei de ti se não fores minha amiga faz o que queres que se queres é preciso faz o melhor fá-lo com a loucura e com o juízo faz o que é preciso
Viva quem muda sem ter medo do escuro o desconhecido é irmão do futuro viva quem ama com o coração aos saltos e mesmo assim vence os seus altos e baixos e altos e seus sobressaltos
E viva o dia em que já não precisas de reis nem gurus nem frases-chave nem divisas o dia em que já não precisas de reis nem papás nem profetas nem profetisas
Ei, ei, que é do rei o rei foi-se, o rei vai nu ei, ei, viva eu, viva tu
quarta-feira, junho 29, 2005
Há horas felizes
 Brasil, 4 - Argentina, 1
Esse é o meu país Câmbio Negro, 1998
Igualdade racial, social Negro e branco tratados de igual pra igual boas escolas, analfabetismo inexistente saúde em alta, bons hospitais, atendimento eficiente mortalidade infantil há muito eliminada pobreza não se vê: foi erradicada criminalidade cai 90% todos têm moradia, ninguém ao relento policiais educados, segundo grau completo recebem salário digno, equipamento moderno não abusam do poder, não há brutalidade admirados por todos da comunidade honestidade na política: admirável mulheres no governo com certeza, invejável tratadas como se deve, com respeito devido não mais como cadelas e sim como um indivíduo vários negros no senado, trabalho reconhecido anos de faculdade, lugar ao sol merecido vendemos tecnologia para o mundo todo cientistas brasileiros sempre, sempre no topo recebem prêmios e prêmios no exterior criam o mais moderno computador
aqui é o nosso país Brasil primeiro Mundo, todo o mundo feliz esse é o meu país primeiro Mundo Brasil, todo o mundo feliz
aqui é o nosso país Brasil primeiro Mundo, todo o mundo feliz esse é o meu país primeiro Mundo Brasil, todo o mundo feliz
Segurança no trânsito, crianças sempre sorrindo prêmio Nobel dado a um físico nordestino atletas inigualáveis, apoio total do governo escolas de atletismo pelo país inteiro idosos têm os seus direitos assegurados aposentadoria nunca atrasa, bem remunerados na Universal ninguém é enganado Pastores não roubam ninguém, são uns pobres coitados Voz do Brasil, programa de boa qualidade No Brasil todo, uma unanimidade sempre atual, diversificado, eficiente anos e anos na ativa, sempre competente rap nacional bastante difundido letras inteligentes, trampo decente, bem produzido não se confunde liberdade de expressão com desacato espaço garantido, artistas de fato vários discos de ouro, reconhecimento população bem informada respeita o movimento levados a sério, objetivos alcançados povo da periferia não é mais humilhado
aqui é o nosso país Brasil primeiro Mundo, todo o mundo feliz esse é o meu país primeiro Mundo Brasil, todo o mundo feliz
rap nacional bastante difundido letras inteligentes, trampo decente, bem produzido não se confunde liberdade de expressão com desacato espaço garantido, artistas de fato vários discos de ouro, reconhecimento população bem informada respeita o movimento levados a sério, objetivos alcançados povo da periferia não é mais humilhado
aqui é o nosso país Brasil primeiro Mundo, todo o mundo feliz esse é o meu país primeiro Mundo Brasil, todo o mundo feliz
(trriiiiim Puta que pariu!)
terça-feira, junho 28, 2005
Violência balnear
 Há violência balnear nas praias do Rio de Janeiro. Eu nunca disse o contrário.
Há um Rio de Janeiro em torno de Lisboa
- Yeah, babe: you wish -
De acordo com a deputada Ana Drago, discursando na passada quinta-feira na Assembleia da República, há um «Rio de Janeiro que vai crescendo em torno de Lisboa.» Gostava de saber onde fica. Sempre se poupava nas viagens.
A Ana Drago fazia bem se evitasse reproduzir estes estereótipos sobre o Rio de Janeiro. Até porque - certamente contra as intenções dela - eles têm um fundo racista, na ideia de que o Brasil não tem remédio porque é uma sociedade de bandidos (e preguiçosos e gente atrasada). Quando se deu o (aparentemente não-verificado) arrastão de Carcavelos, ouvi numa notícia da SIC-N que o sucedido replicava fenómenos comuns das «praias do Rio de Janeiro e de São Paulo» [sic]. Não tenho a felicidade de me ter banhado nos famosos mares de São Paulo, mas as praias do Rio são mais tranquilas que a Caparica, e suponho que não há lá um arrastão há mais de dez anos. Os problemas reais do Rio são suficientes. Não é preciso arranjar imaginários.
Se eu puder, vou a Tsukiji
Eu não estou em Tóquio, nem nunca estive. Mas o blog tem destas coisas engraçadas, e depois de eu ter publicado aquela primeira foto, Tóquio tornou-se uma onda: primeiro foi esta outra foto, que me enviaram, e agora o email que transcrevo, do Pedro (sim, mas qual?), que imaginou que eu estava lá:
Tóquio? Caramba. Estive lá há dois anos. Melhores memórias: a voz feminina no Metro que diz «Ginza»; uma bica que me custou 20 euros em Omotesando; comida em geral; olhar para cima. Se puderes, vai a Tsukiji. É uma sombra do passado, mas uma sombra é melhor que nada. Há sobre ele um belo livro de um antropólogo, intitulado The Fish Market at the Center of the World.
Raul Seixas nasceu há 60 anos atrás
Acho que o Raul Seixas nunca foi muito conhecido em Portugal: as raízes dele estão no rock, e os rocks nacionais nunca «viajam» muito bem. Hippie, libertário, roqueiro, kitsch, parceiro de Paulo Coelho (letrista) em muitas músicas, Raul Seixas faria hoje, se fosse vivo, 60 anos; morreu em 1989, mas a influência dele na música brasileira não tem diminuído desde aí. Não escolheria esta música para começar - mas fica aqui em lembrança da rapaziada do Barnabé. Não foi o primeiro blog a virar livro, mas foi o primeiro a virar franchise.
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