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A Praia

«I try to be as progressive as I can possibly be, as long as I don't have to try too hard.» (Lou Reed)

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sexta-feira, abril 28, 2006

Manual de civilidade para rupturas: A doutrina divide-se: água mole ou pedra dura? O silêncio ou o desabar histriónico?

A ler: os diários da Vanessa, de Ana Sá Lopes.
 
A ler
Integralmente o ótimo texto do Pedro Magalhães na última segunda feira:
talvez seja importante recordar que não há qualquer estudo de opinião que sugira que a imagem que os portugueses têm do seu parlamento seja minimamente afectada, para o mal ou para o bem, quer pelos supostos "escândalos" quer pelas supostas "reformas" que lhes têm respondido ao longo dos últimos anos. Não tem havido, em termos da imagem do parlamento, um "antes" ou um "depois" dos diversos "pacotes" de reforma parlamentar. O que a investigação sugere é, pelo contrário, que o anti-partidarismo dos portugueses é forte, arreigado e não tem sofrido mudanças especialmente notáveis nos últimos anos. E que as avaliações que fazem do parlamento são muito mais sensíveis a factores como o desemprego, a inflação e o crescimento económico (...). De facto, nem é sequer seguro que os cidadãos tenham uma "imagem" propriamente dita do "parlamento", de tão dependente que ela parece ser daquela que é feita do sistema político em geral e do seu desempenho.
Deste modo, a preocupação com o impacto destes rocambolescos eventos na imagem do parlamento e dos políticos está provavelmente a confundir causas e efeitos. Se os parlamentares vão aprovando para si próprios normas de conduta de aplicabilidade incerta e, nalguns casos, indesejada à partida, é precisamente porque querem dar ao público aquilo que pensam - provavelmente com razão - que o público quer, ou seja, regras que tratem os políticos na base de um princípio generalizado de suspeição. E se de seguida os mesmos parlamentares subvertem o espírito das normas que por eles próprios aprovadas, é porque também julgam - mais uma vez com acerto - que, quando chegar a hora da verdade, nada disto vai ter qualquer efeito no que realmente conta: a sua colocação em lugares elegíveis nas listas e a opção de voto dos eleitores neste ou naquele partido.
 

quinta-feira, abril 27, 2006

Consolida, filho, consolida...
[FMI foi um texto com música que José Mário Branco gravou num espectáculo ao vivo em 1982 e que foi publicado na altura em maxi-single. Foi republicado em 1996 em cd, juntamente com o duplo álbum Ser Solid/tário. Já havia transcrições online, mas com muitos erros. Penso que a que fiz, baseada nas que já havia e ouvindo a gravação, deve ser a mais fiável até à data. A pontuação é, obviamente, discutível. Juntei uns links para ilustração das novas gerações.]


Vou... vou vos mostrar mais um pedaço da minha vida, um pedaço um pouco especial: trata-se de um texto que foi escrito assim, de um só jorro, numa noite de Fevereiro de 79, e que talvez tenha um ou outro pormenor que já não seja muito actual. Vou vos dar o texto tal e qual como eu o escrevi nessa altura, sem ter modificado nada, por isso vos peço que não se deixem distrair por esses pormenores que possam já não ser muito actuais e que isso não contribua para desviar a vossa atenção do que me parece ser o essencial neste texto.
Chama-se FMI.
Quer dizer Fundo Monetário Internacional.
Não sei por que é que se riem, é uma organização democrática dos países todos, que se reunem, com umas pessoas, em torno de uma mesa, para discutir os seus assuntos, e no fim tomar as decisões que interessam a todos... É o internacionalismo monetário!

FMI
Cachucho não é coisa que me traga a mim
Mais novidade do que lagostim
Nariz que reconhece o cheiro do pilim
Distingue bem o Mortimore do Meirim
A produtividade, ora aí está, quer dizer:
Há tanto nesta terra que ainda está por fazer
Entrar por aí dentro, analisar, e então
Do meu 'attaché-case' sai a solução

FMI Não há graça que não faça o FMI
FMI O bombástico de plástico pra si
FMI Não há força que retorça o FMI

Discreto e ordenado mas nem por isso fraco
Eis a imagem 'on the rocks' do cancro do tabaco
Enfio uma gravata em cada fato-macaco
E meto o pessoal todo no mesmo saco
A produtividade, ora aí está, quer dizer:
Não ando aqui a brincar! Não há tempo a perder!
Batendo o pé na casa, espanador na mão
É só desinfectar em superprodução

FMI Não há truque que não lucre ao FMI
FMI O heróico paranóico hara-kiri
FMI Panegírico, pró lírico daqui

Palavras, palavras, palavras e não só
Palavras para si, palavras para dó
A contas com o nada há que swingar o sol-e-dó
Depois a criadagem lava o pé e limpa o pó
A produtividade, ora nem mais:
celulazinhas cinzentas
Sempre atentas
E levas pela tromba se não te pões a pau
Um encontrão imediato do 3º grau

FMI Não há lenha que detenha o FMI
FMI Não há ronha que envergonhe o FMI
FMI ...

Entretém-te, filho, entretém-te, não desfolhes em vão este malmequer que bem-te-quer, mal-te-quer, vem-te-quer, ovomalte-quer-messe gigantesca, vem-te-bem, bem te vim, Vim-me na cozinha, vim-me na casa-de-banho, Vim-me no Politeama, vim-me no Águia D'ouro, Vim-me em toda a parte... Vem-te filho, vem-te comer ao olho, vem-te comer à mão, olha os pombinhos pneumáticos como te arrulham por esses cartazes fora, olha a música no coração da Indira Gandi, olha o Moshe Dayan que te traz debaixo de olho... O respeitinho é muito lindo, e nós somos um povo de respeito, né filho? Nós somos um povo de respeitinho muito lindo: saímos à rua de cravo na mão, sem dar conta de que saímos à rua de cravo na mão a horas certas, né filho? Consolida, filho, consolida: enfia-te a horas certas no casarão da Gabriela, que o malmequer vai-te tratando do Serviço Nacional de Saúde. Consolida, filho, consolida, que o trabalhinho é muito lindo, o teu trabalhinho é muito lindo, é o mais lindo de todos, como o Astro, não é filho? O cabrão do Astro entra-te pela porta das traseiras, tu tens um gozo do caraças, vais dormir entretido, não é? Pois claro: ganhar forças, ganhar forças para consolidar, para ver se a gente consegue num grande esforço nacional estabilizar esta desestabilização filha-da-puta, não é filho? Pois claro!
Estás aí a olhar para mim? Estás aí a ver-me dar 33 voltinhas por minuto, pagaste o teu bilhete, pagaste o teu imposto de transacção e estás a pensar lá com os teus zodíacos: «este tipo está-me a gozar! Este gajo quem é que julga que é?» Né filho? Pois não é verdade que tu és um herói desde que nasceste? A ti não é qualquer totobola que te enfia o barrete, meu grande safadote, hã? Meu Fernão Mendes Pinto de merda! Onde está o teu Extremo Oriente, filho? A-ni-ki-bé-bé, a-ni-ki-bó-bó, tu és Sepúlveda, tu és Adamastor. Pois claro: tu, sozinho, consegues enrabar as Nações Unidas com passaporte de coelho, não é filho? Mal eles sabem! Pois é: tu sabes o que é gozar a vida! Entretém-te, filho, entretém-te! Deixa-te de políticas, que a tua política é o trabalho! Trabalhinho, porreirinho da Silva! E salve-se quem puder, que a vida é curta e os santos não ajudam quem anda para aqui a encher pneus com este paleio de Sanzala em ritmo de pop-chula, não é filho?
A-one, a-two, a-one-two-three

FMI dida didadi dadi dadi da didi
FMI...

Camóniú, sanóvabiche!Camóne beibi, a ver se me comes! Camóne Luis Vaz, amanda-lhe com os decassílabos que eles já vão saber o que é meterem-se com uma nação de poetas! E zás: enfio-te o Manuel Alegre no Mário Soares! Zás: enfio-te o Ary dos Santos no Álvaro Cunhal! Zás: enfio-te a Natália Correia no Sá Carneiro! Zás: enfio-te o Zé Fanha no Acácio Barreiros! Zás: enfio-te o Pedro Homem de Melo no Parque Mayer, e acabamos todos numa sardinhada à Integralismo Lusitano, a estender o braço, meio Rolão Preto meio Steve McQueen, ok boss, tudo ok... Estamos numa porreira, meu, um trip fenomenal, proibido voltar atrás, viva a liberdade... né filho? Pois, irreversível, pois claro, irreversivelzinho, pluralismo a dar com um pau, nada será como dantes: agora todos se chateiam de outra maneira, né filho? Ora que porra! Deixa lá correr o marfil, homem, andas numa alta, pá, é assim mesmo, cada um a curtir a sua, podia ser tão porreiro, não é? Preocupações, crises políticas, pá! «A culpa é dos partidos, pá! Esta merda dos partidos é que divide a malta, pá!» «Pois, pá, é só paleio, pá, o pessoal não quer é trabalhar, pá! Razão tem o Jaime Neves, pá!» «Olha: deixaste cair as chaves do carro!» «Pois, pá!» «O que é essa orelha de preto que tens aí no porta-chaves?» «Epá, deixa-te disso, não desestabilizes, pá!» «Eh, faz favor: mais uma bica e um pastel de nata.» «Uma porra, pá, um autêntico desastre o 25 de Abril! Esta confusão, pá... a malta estava sossegadinha, a bica a 15 tostões, a gasosa a sete e coroa... Tá bem, essa merda da pide, pá, Tarrafais e o carago... mas no fim de contas quem é que não colaborava, hã? Quantos bufos é que não havia nesta merda deste país, hã? Quem é que não se calava? Quem é que arriscava coiro e cabelo, assim mesmo, o que se chama arriscar, hã? Meia dúzia de líricos, pá! Meia dúzia de líricos que acabavam todos a fugir para o estrangeiro!... Isto é tudo a mesma carneirada!» Oh sr. guarda venha cá – ah. Venha ver o que isto é – eh. O barulho que vai aqui – ih. O neto a bater na avó – oh. Deu-lhe um pontapé no cu, né filho?
Tu vais conversando, conversando, que ao menos agora pode-se falar - ou já não se pode? Ou já começaste a fazer a tua revisãozinha constitucional tamanho familiar, hã? Estás desiludido com as promessas de Abril, né? As conquistas de Abril! Eram só paleio a partir do momento que tas começaram a tirar e tu ficaste quietinho, né filho? E tu fizeste como o avestruz, enfiaste a cabeça na areia: «não é nada comigo, não é nada comigo», né? E os da frente que se lixem... E é por isso que a tua solução é não ver, é não ouvir, é não querer ver, é não querer entender nada: precisas de paz de consciência. Não andas aqui a brincar, né filho? Precisas de ter razão, precisas de atirar as culpas para cima de alguém, e atiras as culpas para os da frente, para os do 25 de Abril, para os do 28 de Setembro, para os do 11 de Março, para os do 25 de Novembro, para os do... que dia é hoje, hã?

FMI Dida didadi dadi dadi da didi
FMI...

Não há português nenhum que não se sinta culpado de qualquer coisa, não é filho? Todos temos culpas no cartório - foi isso que te ensinaram, não é verdade? «Esta merda não anda porque a malta, pá, a malta não quer que esta merda ande» - tenho dito. A culpa é de todos, a culpa não é de ninguém - não é isto verdade? Quer-se dizer: há culpa de todos em geral e não há culpa de ninguém em particular, hã? Somos todos muita bons no fundo, né? Somos todos uma nação de pecadores e de vendidos, né? Somos todos ou anti-comunistas ou anti-fascistas: estas coisas até já nem querem dizer nada, ismos para aqui, ismos para acolá, as palavras é só bolinhas de sabão, parole parole parole e o Zé é que se lixa, cá o pintas é sempre o mexilhão... Eu quero lá saber deste paleio, vou mas é ao futebol, pronto! Viva o Porto, viva o Benfica! Lourosa! Lourosa! Marrazes! Marrazes! Fora o árbitro! Gatuno! Qual gatuno, qual caralho! Razão tinha o Tonico de Bastos para se entreter, né filho? Entretém-te, filho, com as tuas viúvas e as tuas órfãs, que o teu delegado sindical vai tratando da saúde aos administradores; entretém-te, que o ministro do trabalho trata da saúde aos delegados sindicais; entretém-te, filho, que a oposição parlamentar trata da saúde ao ministro do trabalho; entretém-te, que o Eanes trata da saúde à oposição parlamentar; entretém-te, que o FMI trata da saúde ao Eanes. Entretém-te, filho! E vai para a cama descansado, que há milhares de gajos inteligentes a pensar em tudo neste mesmo instante, enquanto tu adormeces a não pensar em nada! Milhares e milhares de tipos inteligentes e poderosos, com computadores, redes de polícia secreta, telefones, carros de assalto, exércitos inteiros, congressos universitários, eu sei lá! Podes estar descansado que o Deng Xiao Ping está a tratar de ti com o Jimmy Carter; o Brejnev está a tratar de ti com o João Paulo II! Tudo corre bem, a ver quem se vai abotoar com os 25 tostões de riqueza que tu vais produzir amanhã nas tuas oito horas. A ver quem vai ser capaz de te convencer de que a culpa é tua e só tua se o teu salário perde valor todos os dias; vão te convencer de que a culpa é só tua se o teu poder de compra é como o rio de S. Pedro de Moel que se some nas areias em plena praia, ali a 10 metros do mar em maré cheia, e nunca consegue desaguar, de maneira que se possa dizer: «porra! Finalmente o rio desaguou!» Vão te convencer de que a culpa é só tua, e tu sem culpa nenhuma, estás tu a ver? Que tens tu a ver com isso, não é filho? Cada um que se vá safando como puder - é mesmo assim, não é? Tu fazes como os outros, fazes o que tens a fazer: votas à esquerda moderada nas sindicais; votas no centro moderado nas deputais; e votas na direita moderada nas presidenciais. Que mais querem eles? Que lhes ofereças a Europa no natal?! Era o que faltava! É assim mesmo, julgam que te levam de mercedes, toma: para safado, safado e meio, né filho? Nem para a frente nem para trás, «e eles que tratem do resto, os gatunos, que são pagos para isso», né? Claro! «Que se lixem as alternativas, para trabalho já me chega!» Entretém-te, meu anjinho, entretém-te, que eles são inteligentes, eles ajudam, eles emprestam, eles decidem por ti, decidem tudo por ti: se hás-de construir barcos para a Polónia ou cabeças de alfinete para a Suécia, se hás-de plantar tomate para o Canadá ou eucaliptos para o Japão... Descansa que eles tratam disso. Se hás-de comer bacalhau só nos anos bissextos ou hás-de beber vinho sintético de Alguidares-de-Baixo... Descansa, não penses em mais nada... que até neste país de pelintras se acha «normal haver mãos desempregadas» e se acha «inevitável haver terras por cultivar»... Descontrai, beibi, camóne, descontrai, afinfa-lhes o Bruce Lee, afinfa-lhes a macrobiótica, o biorritmo, o horoscópio, dois ou três ovniologistas, um gigante da ilha de Páscoa e uma Grace do Mónaco de vez em quando para dar as boas festas às criancinhas... Piramiza, filho, piramiza, antes que os chatos fujam todos para o Egipto, que assim é que tu te fazes um homenzinho, e até já pagas multa se não fores ao recenseamento. «Pois, pá, isto é um país de analfabetos, pá!» Dá-lhe no Travolta, dá-lhe no disco-sound, dá-lhe no pop-chula! Pop-chula pop-chula, ié, ié! Jó-ta-pi-men-ta-forever!
Quanto menos souberes a quantas andas, melhor para ti! Não te chega para o bife? Antes no talho do que na farmácia! Não te chega para a farmácia? Antes na farmácia do que no tribunal! Não te chega para o tribunal? Antes a multa do que a morte! Não te chega para o cangalheiro? Antes para a cova do que para não sei quem que há-de vir! Cabrões de vindouros, hã! Sempre a merda do futuro? E eu que me quilhe? Pois pá: sempre a merda do futuro, a merda do futuro, e eu, hã? Que é que eu ando aqui a fazer? Digam lá: e eu? José Mário Branco. 37 anos. Isto é que é uma porra! Anda aqui um gajo cheio de boas intenções, a pregar aos peixinhos, a arriscar o pêlo - e depois? É só porrada e mal viver, é? «O menino é mal-criado», «o menino é pequeno-burguês», «o menino pertence a uma classe sem futuro histórico»... Eu sou parvo ou quê? Quero ser feliz, porra! Quero ser feliz agora! Que se foda o futuro! Que se foda o progresso! Mais vale só do que mal acompanhado! Vá: mandem-me lavar as mãos antes de ir para a mesa, filhos da puta de progressistas do caralho da revolução que vos foda a todos! Deixem-me em paz, porra, deixem-me em paz e sossego! Não me emprenhem mais pelos ouvidos, caralho! Não há paciência, não há paciência! Deixem-me em paz, caralho, saiam daqui, deixem-me sozinho, só um minuto! Vão vender jornais e governos e greves e sindicatos e polícias e generais para o raio que vos parta! Deixem-me sozinho! Filhos da puta! Deixem-me só um bocadinho, deixem-me só para sempre! Tratem da vossa vida que eu trato da minha! Pronto, já chega! Sossego, porra! Silêncio, porra! Deixem-me só! Deixem-me só! Deixem-me só! Deixem-me morrer descansado! Eu quero lá saber do Artur Agostinho e do Humberto Delgado! Eu quero lá saber do Benfica e do bispo do Porto! Eu quero se lixe o 13 de Maio e o 5 de Outubro e o Melo Antunes e a rainha de Inglaterra e o Santiago Carrillo e a Vera Lagoa! Deixem-me só, porra, rua! Larguem-me! Desopila o fígado! Arreda! T’arrenego Satanás! Filhos da puta! Eu quero morrer sozinho, ouviram? Eu quero morrer! Eu quero que se foda o FMI! Eu quero lá saber do FMI! Eu quero que o FMI se foda! Eu quero lá saber que o FMI me foda a mim, eu vou mas é votar no Pinheiro de Azevedo se ele tornar a ir para o hospital, pronto! Bardamerda o FMI, o FMI é só um pretexto vosso, seus cabrões! O FMI não existe! O FMI nunca aterrou na Portela coisa nenhuma! O FMI é uma finta vossa para virem para aqui com esse paleio! Rua! Desandem daqui para fora! A culpa é vossa! A culpa é vossa! A culpa é vossa! A culpa é vossa! A culpa é vossa! A culpa é vossa...
Oh mãe! Oh mãe! Oh mãe! Oh mãe! Oh mãe... Oh mãe...

Mãe, eu quero ficar sozinho. Mãe, eu não quero pensar mais. Mãe: eu quero morrer, mãe. Eu quero desnascer: ir-me embora, sem sequer ter que me ir embora... Mãe, por favor... Tudo menos a casa em vez de mim; outro maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar e me encontrar fugindo... De quê, mãe? Diz: são coisas que se me perguntem? Não pode haver razão para tanto sofrimento.

E se inventássemos o mar de volta? E se inventássemos partir, para regressar? Partir e aí, nessa viagem, ressuscitar da morte às arrecuas que me deste. Partida para ganhar, partida de acordar... Abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar: terra, mar, mãe... Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto. Lembrar, nota a nota, o canto das sereias. Lembrar o «depois do adeus» e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal. Lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição... Partir aqui, com a ciência toda do passado... Partir, aqui, para ficar.
Assim mesmo, como entrevi um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o azul dos operários da Lisnave a desfilar, gritando ódio apenas ao vazio, exército de amor e capacetes; assim mesmo na Praça de Londres o soldado lhes falou: «Olá, camaradas, somos trabalhadores, eles não conseguiram fazer-nos esquecer: aqui está a minha arma para vos servir.» Assim mesmo, por detrás das colinas onde o verde está à espera, se levantam antiquíssimos rumores, as festas e os suores, os bombos de Lavacolhos. Assim mesmo senti um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o bater inexorável dos corações produtores, os tambores.
«De quem é o carvalhal?» «É nosso!» - assim te quero cantar, mar antigo a que regresso.
Neste cais está arrimado o barco-sonho em que voltei. Neste cais eu encontrei a margem do outro lado, «Grândola Vila Morena».
Diz lá: valeu a pena a travessia? Valeu, pois.

Pela vaga de fundo se sumiu o futuro histórico da minha classe. No fundo deste mar encontrareis tesouros recuperados, de mim que estou a chegar do lado de lá para ir convosco: tesouros infindáveis que vos trago de longe e que são vossos, o meu canto e a palavra. O meu sonho é a luz que vem do fim do mundo, dos vossos antepassados que ainda não nasceram. A minha arte é estar aqui, convosco, e ser-vos alimento e companhia, na viagem para estar aqui de vez.
Sou português, pequeno-burguês de origem. Filho de professores primários. Artista de variedades. Compositor popular. Aprendiz de feiticeiro. Faltam-me dentes. Sou o Zé Mário Branco, 37 anos, do Porto: muito mais vivo que morto. Contai com isto de mim para cantar, e para o resto.

Ser solidário assim para além da vida
Por dentro da distância percorrida
Fazer de cada perda uma raiz
E, improvavelmente, ser feliz

De como aqui chegar não é mister contar
O que já sabe quem souber
O estrume em que germina a ilusão
Fecundará por certo esta canção

Ser solidário, sim, por sobre a morte
Que depois dela só o tempo é forte
E a morte nunca o tempo a redime
Mas sim o amor dos homens que se exprime

De como aqui chegar não vale a pena
Já que a moral da história é tão pequena
Que nunca por vingança eu vos daria
No ventre das canções sabedoria
 
Um génio da escola crítica
[ainda há habermasianos na Brandoa]

Não me canso de chamar a atenção para os textos de João Carlos Espada no Expresso e para a sua fina ironia, que me recuso a aceitar que possa ser apenas acidental. Acredito que estamos perante um génio da escola crítica, um autor que pontua os textos com inanidades para melhor desmontar os absurdos da sociedade em que vivemos. São exercícios de understatement, na mesma linha da pichagem que existe perto da minha casa e demole o actual presidente da Comissão Europeia com a simples frase: «Durão é uma boa pessoa».
O artigo da última semana, a pretexto dos oitenta anos da Rainha de Inglaterra, é especialmente brilhante. Espada não deixa pedra sobre pedra da pomposidade das instituições britânicas, e de caminho ataca ícones sagrados do conservadorismo como Winston Churchill. O antigo primeiro-ministro britânico é citado como tendo dito que, ao conhecer a Rainha, então de apenas dois anos, teria visto instantaneamente nela «um ar de seriedade e de autoridade muito raro numa criança». Desapiedado, Espada prossegue; e em seguida é Vaclav Havel, símbolo das revoluções liberais pós-soviéticas, que não resiste ao seu retrato mordaz: o antigo presidente checo teria ficado «particularmente impressionado com o facto de o seu cão ter imediatamente simpatizado com a Rainha.»
Nem tão pouco Espada poupa a sociedade portuguesa, como na seguinte inversão: as celebrações do aniversário da Rainha, por todo o mundo e também em Portugal, foram «mais uma manifestação do que os nossos ideólogos de serviço costumam chamar ‘conservadorismo ultrapassado’». Claro que ele está a chamar atenção para o facto de já ninguém em Portugal (senão ele mesmo) expor ao ridículo devido estas frivolidades, e para a circunstância de ninguém ter sido entre nós, ao longo dos últimos vinte anos, alguma vez criticado por «conservadorismo ultrapassado». À excepção do PCP.
 
Educação política


Temos a memória cheia de coisas de que não nos lembramos, que nem se passaram connosco, que por vezes aconteceram anos antes de termos sequer nascido. Eu, que não me comovo com nada, comovo-me com este filme.
 
Sensatez
Achei que evidentemente A History of Violence era um filme sobre o pós-11 de Setembro. A minha irmã achou que era sobre O Casamento. A minha irmã é muito mais sensata.
 
Name of the game
O sexo não é muito importante para a maioria dos casais que eu conheço. O desporto realmente importante é esticar a corda.
 

quarta-feira, abril 26, 2006

Chernobil, 20 anos
[Imagens e legendas do Spiegel Online. É a primeira vez que me aventuro a traduzir poesia.]


Pripiat, uma cidade vizinha de cerca de 50.000 habitantes, foi completamente evacuada logo após o desastre. Hoje está totalmente vazia, se descontarmos javalis, lobos e alces.


A zona de exclusão de Chernobil, que originariamente perfazia 30 km à volta do reactor acidentado e depois foi alargada, inclui centenas de povoações vazias. No inverno, as árvores permanecem carregadas de fruta por apanhar, e arbustos e brotos de vinte anos de idade tomam rapidamente conta de tudo.


As pessoas foram obrigadas a evacuar totalmente a zona. Muitos, no entanto - sobretudo velhos que tinham vivido a vida inteira na sua povoação -, decidiram regressar. Actualmente há cerca de 400 pessoas que vivem dentro da zona de exclusão. Recebem comida que lhes é enviada a partir do exterior e são sujeitas a check-ups médicos regulares.


A radiação acumula-se lentamente no corpo humano, possibilitando estadias curtas na zona de exclusão sem grandes riscos. Mas as frutas e os vegetais que crescem do solo afectado funcionam como veículos muito eficazes de elementos radioactivos perigosos.


A cidade de Chernobil está praticamente vazia. Mas há alguns milhares de pessoas que vivem lá, sobretudo funcionários florestais, para prevenir qualquer incêndio na floresta irradiada. Um mapa detalhado das radiações mostra as zonas da cidade onde se pode ir em segurança e as que devem ser evitadas. Os trabalhadores são frequentemente revezados para evitar a sobreexposição.
 
Dias da Liberdade
28 graus de tarde: é a isto que eu chamo A Liberdade.
 

quarta-feira, abril 19, 2006

Não subscrevi aquele movimento social mAMA (maradona ao mundial da Alemanha), mas realmente já custa a perceber por que é que o Público ou o DN não abrem os olhinhos e não contratam o maradona para escrever crónicas de futebol, como a de hoje sobre a meia-final de ontem da Liga dos Campeões: em cada linha, dois achados.
 
A ler
Com algum atraso: transforma-se a chupista na cousa chupada.
 

terça-feira, abril 18, 2006

A minha mãe
No «Vox Populi» do suplemento Local, de longe a minha secção preferida no jornal Público, responde hoje Irina Odintsona, estudante, 16 anos, que a foto comprova ser uma beleza eslava:

Os pólenes da Primavera estão a causar-lhe alergia?

Paixão, mas não alergia. A minha mãe é que tem alergia ao pólen.
 
Brasileirada


A primeira música que eu coloquei no blog foi esta. Só que na altura era apenas a letra.
... comme ça tu ressembles à ta mère
qu'a rien pour inspirer l'amour...
 
«O Meireles não é mais forte que eu»
Só agora vi alguns dos sketches da outra série.
 

segunda-feira, abril 17, 2006

Memorial


O blog - este blog, entre outros - também é uma forma de memorial, um sítio onde se despejam evocações de livros, filmes, pessoas, datas, lugares (que no caso deste blog é sempre só um lugar). Também se fazem, como outro dia fiz, evocações de acontecimentos futuros. A relação com a memória não é nada linear, por isso é muito natural que este carácter memorialístico seja mais acentuado em certas épocas e noutras menos. Por outro lado, há por vezes coisas a evocar (hoje: um aniversário muito significativo) sem que eu encontre os meios adequados à evocação.
Claro que também há blogs maniacamente concentrados na actualidade, seja na actualidade política como se não houvesse ontem nem amanhã, seja nas relações que actualmente podem estabelecer-se, e neste caso estão blogs conviviais, aqueles para os quais a blogosfera é muito mais importante que o blog.
Uma das memórias que pode ser evocada é a memória de coisas relativas ao próprio blog, coisas que se passaram aqui, uma vez que os blogs já têm tempo e já têm história suficiente para que possamos construir a narrativa dos nossos próprios posts por uma ordem que não é aquela que a página em si nos dá. Isto é: para que possamos fazer uma interpretação e contar uma história. (Por exemplo).
Esta é a evocação de um livro, um livro que eu perdi, como perdi outros livros e discos e talvez filmes; não é que eu seja muito de perder coisas, mas ao longo dos anos sempre se empresta um ou outro livro, ou disco, ou filme, especialmente aqueles que são mais importantes e a pessoas a quem damos especial atenção; e alguns desaparecem. Este livro marcou um bocado a minha maneira de pensar as relações internacionais numa altura muito formativa da minha educação. Agora desapareceu e está caro na amazon (35 libras por um paperback de duzentas páginas? Eu não sou rico e, o que é mais, sou forreta); outro livro do mesmo autor, mais recente, com o belo título Chi dice umanità, encontra-se também por um preço absurdo. A minha edição antiga de Cosmopolis há-de estar toda sublinhada e anotada por mim, sejam quais forem as mãos que se tenham apoderado dela. Se, de qualquer forma, uma boa alma por acaso se deparar com este livro a um preço barato (encontram-se muitas coisas a um dólar, nas livrarias dos campus universitários nos EUA, especialmente em Ann Arbour), faça a gentileza de se lembrar de mim. Só peço que se lembre, não peço que mo compre; quando muito, que me mande um email a dizer onde se pode arranjar.
A querida alma que ficou com o meu cd do moreno + 2 (download) poderia também ter a gentileza de se identificar.
 
À atenção do maradona,
sempre preocupado com as pessoas que se encontram na rua: acabo de me cruzar com o Paul Auster.
« - Hi, Mr. Auster, glad to see you!»

Não disse nada. Nunca sei dizer nada. Lembrei-me desta linha depois.
 

domingo, abril 16, 2006

Enganar-se a si mesmo
People realize that humans deceive themselves, of course, but they don't seem to realize that they too are human.
A Princeton University research team asked people to estimate how susceptible they and "the average person" were to a long list of judgmental biases; the majority of people claimed to be less biased than the majority of people.
 


«As férias grandes. Outra mitologia. Como se o Verão fosse um continente, uma grande massa de terra no meio da água ou um grande mar interior no meio da terra.»

[Da crónica «Proust em Agosto», uma das muito boas no livro do Pedro Mexia.]
 

terça-feira, abril 11, 2006

Do abrupto:
Coimbra por trás. Sempre achei que devia haver algo de muito errado numa cidade em que os estudantes gostam de andar vestidos à padre. Passam alguns, negros e poeirentos. Uma cidade cujas livrarias na baixa são inimagináveis de provincianas, escuras, mal abastecidas, quase sem livros estrangeiros. Apenas o Direito é rei e senhor, tudo o resto leva à pergunta: como pode uma cidade universitária ter livrarias assim? Tudo triste, baço, esquecido da "modernidade" como agora se diz.

Se me dá prazer ler estas linhas? I plead guilty.
 

segunda-feira, abril 10, 2006



Tratem de ir ver A History of Violence, que já não deve estar muitos dias em cartaz. Não vai haver nenhum filme melhor este ano.
 

domingo, abril 09, 2006

Um pequeno exagero
Gosto muito dos meus sobrinhos (seis anos, quatro, dois) porque, filhos de benfiquista, são do Sporting.
 

sábado, abril 08, 2006

Verdura
De repente eu me lembro do verde
A cor verde a mais verde que existe
A cor mais alegre, a cor mais triste
O verde que vestes, o verde que vestiste
No dia em que te vi, no dia em que me viste.
[Paulo Leminski]

O ZDQ põe às vezes as coisas com excessivo fatalismo. Não penso que a nossa vocação seja perder. Simplesmente já perdemos muitas vezes, e numa idade em que era muito mais difícil racionalizar. As equipas pequenas é que nunca ganham. Para nós, perder é provável, e em certa medida não depende de nós (por isso se trata de um jogo); a histeria na derrota, a alegria maioritária - essas marcas de identidade do benfiquismo - dependem, e isso é que não pode existir.
 
0-1
Não gostar do Benfica (para além dos aspectos éticos), é questão de vizinhança; não gostar do Porto é xenofobia, trata-se de um clube estrangeiro. Não tenho nem nunca tive nenhum amigo próximo portista; nenhum colega da escola. Deve haver malta muito contente esta noite, mas para todos os efeitos práticos não os conheço.

Está por inventar uma equipa que ganhe um jogo sem oportunidades de golo. O que é notável, esta época, é conseguirmos ficar entalados entre o Porto e o Benfica, que têm ambos melhores jogadores do que nós. Isso e termos dado a impressão, até quatro jogos do fim, de que poderíamos ganhar o campeonato. A equipa é simpática, tem Moutinho e Liedson, mas não chega.
 

sexta-feira, abril 07, 2006

Trinta e três
Ser a «idade de Cristo» ainda é o que menos me apoquenta. Mas o que são 33 anos para um indivíduo que não sabe dizer os erres? Um erre atropela o outro, uma cacofonia de erres onde nada se disfarça. Reflicto um pouco e chego a duas conclusões: ainda não tinha tido nenhuma idade tão difícil (apenas os 13, os 14, os 23 e os 24 - não se comparam em grau de dificuldade); e agora vão ser quase duas décadas sempre a penar, até aos 50. O que vale é que passa depressa.
Ontem fiz 22 anos.
 

quinta-feira, abril 06, 2006

Moral da história
Perdido por 30, perdido por 33.
 

quarta-feira, abril 05, 2006

Serviço meteorológico

Woody Allen a cantar chetebeiquerianamente em Everyone Says I Love You, um dos meus filmes preferidos da última década. Hoje está de chuva.

I’m thru with love
(Matty Malneck, Gus Kahn e Jerry Livingston, 1931)

I’m thru with love
I’ll never fall again
Said adieu to love
Don’t ever call again
For I must have you or no one
And so I’m thru with love.
I’ve locked my heart
I’ll keep my feelings there.
I have stocked my heart with icy frigidaire.
And I mean to fall for no one,
Because I’m thru with love.

Why did you leave me to think you could care?
You didn’t need me, 'cos you had your share
Of friends around you to hound you and swear
With deep emotion devotion to you.
Goodbye to spring, and all it meant to me
It could never bring the thing that used to be
For I must have you or no one
And so I’m thru with love.
 
O lobby de Israel
John Mearsheimer e Stephen Walt, a mais importante dupla de autores «realistas» das Relações Internacionais contemporâneas, publicaram há algumas semanas um texto altamente controverso sobre o lobby de Israel na política dos Estados Unidos. Ainda não tive tempo de o digerir como devia, mas deixo o link.

(...) Beginning in the 1990s, and even more after 9/11, US support [to Israel] has been justified by the claim that both states are threatened by terrorist groups originating in the Arab and Muslim world, and by «rogue states» that back these groups and seek weapons of mass destruction. This is taken to mean not only that Washington should give Israel a free hand in dealing with the Palestinians and not press it to make concessions until all Palestinian terrorists are imprisoned or dead, but that the US should go after countries like Iran and Syria. Israel is thus seen as a crucial ally in the war on terror, because its enemies are America’s enemies. In fact, Israel is a liability in the war on terror and the broader effort to deal with rogue states.
«Terrorism» is not a single adversary, but a tactic employed by a wide array of political groups. The terrorist organisations that threaten Israel do not threaten the United States, except when it intervenes against them (as in Lebanon in 1982). Moreover, Palestinian terrorism is not random violence directed against Israel or «the West»; it is largely a response to Israel’s prolonged campaign to colonise the West Bank and Gaza Strip.
(...) Israel’s strategic value isn’t the only issue. Its backers also argue that it deserves unqualified support because it is weak and surrounded by enemies; it is a democracy; the Jewish people have suffered from past crimes and therefore deserve special treatment; and Israel’s conduct has been morally superior to that of its adversaries. On close inspection, none of these arguments is persuasive. There is a strong moral case for supporting Israel’s existence, but that is not in jeopardy. Viewed objectively, its past and present conduct offers no moral basis for privileging it over the Palestinians.
Israel is often portrayed as David confronted by Goliath, but the converse is closer to the truth. Contrary to popular belief, the Zionists had larger, better equipped and better led forces during the 1947-49 War of Independence, and the Israel Defence Forces won quick and easy victories against Egypt in 1956 and against Egypt, Jordan and Syria in 1967 – all of this before large-scale US aid began flowing. Today, Israel is the strongest military power in the Middle East. Its conventional forces are far superior to those of its neighbours and it is the only state in the region with nuclear weapons. Egypt and Jordan have signed peace treaties with it, and Saudi Arabia has offered to do so. Syria has lost its Soviet patron, Iraq has been devastated by three disastrous wars and Iran is hundreds of miles away. The Palestinians barely have an effective police force, let alone an army that could pose a threat to Israel. According to a 2005 assessment by Tel Aviv University’s Jaffee Centre for Strategic Studies, «the strategic balance decidedly favours Israel, which has continued to widen the qualitative gap between its own military capability and deterrence powers and those of its neighbours.» If backing the underdog were a compelling motive, the United States would be supporting Israel’s opponents. (...)
 

terça-feira, abril 04, 2006

Defesa do maio francês


Uma das coisas mais interessantes na hostilidade da direita às actuais manifestações e greves em França é a maneira como falam do maio de 68, entre o desprezo e o ódio: a comparação com o maio francês tanto serve para depreciar os movimentos actuais (estes como uma espécie de paródia dos acontecimentos míticos) como para os tratar como uma espécie de continuação dessa loucura, dessa irremediável patetice, de há quase quarenta anos. Eu acho isto interessante porque o maio de 1968 representa entre outras coisas – e possivelmente isto mais do que as outras coisas – a afirmação de uma cultura individualista, hedonista e pop que continua entre nós. Na verdade, quando se trata de falar da América, esses mesmos elementos individualistas, hedonistas e pop são glorificados, e quase toda a gente da minha geração já começou, uma vez ou outra, um texto sobre a América proclamando a sua identificação passional e formativa com estes aspectos da sua cultura, independentemente de detalhes de política externa. Mas o que aparece como glorioso nos EUA é apresentado como kitsch na versão francesa.
Não há nenhum mistério em perceber por que é que o movimento actual se apropria dos lugares, das imagens e dos símbolos de há quase quarenta anos: a situação política e económica objectiva é muito diferente, mas esses lugares, essas imagens e esses símbolos continuam a actuar em nós de maneira fortíssima. (O próprio título deste blog é reminescente* de um dos mais famosos slogans do maio de 1968, sem que essa identificação tenha sido propriamente procurada.) E a coisa curiosa é que os movimentos franceses actuais continuam a revelar uma capacidade extraordinária para inventar palavras de ordem, uma grande criatividade na utilização da língua, no caminho trilhado por 1968. Esses slogans são – quer sejamos de esquerda ou de direita, pelo menos neste sentido mais superficial – os nossos slogans, falam das nossas aspirações, da nossa maneira de pensar e do nosso tempo. Esse maio de 1968 não está perto do fim, e as campanhas publicitárias, ano após ano, também confirmam isso à exaustão.

* Dormi sobre o assunto e cheguei à conclusão de que a palavra «reminescente» não existe. É tradução directa da palavra inglesa «reminiscent», misturada, aparentemente, a julgar pela grafia, com a palavra portuguesa «remanescente», que não tem nada que ver.
 
O fim do Acidental
Reconheço que é motivo para festejar, mas - ainda assim - passo.
[com uma saudação ao Francisco Mendes da Silva.]


Christina Ricci, na festa do Acidental
 
A idade
A idade ensina-nos muito. A gente não aprende quase nada.
 

segunda-feira, abril 03, 2006

Materialismo
Acredito em determinismos de idade, sexo, classe social. E a classe parece-me a menos material dessas categorias.
 
É sempre assim e eu não diria melhor
«criei esta merda em casa dela, há anos, à sua frente, e desde aí nunca mais para aqui olhou, no que tem a minha eterna admiração. Adiante.» - maradona
 
Tigresa
Para assinalar a chegada da primavera, que já se nota, até na temperatura do ar.

Tigresa
Caetano Veloso
do álbum Bicho, 1977

Uma tigresa de unhas negras e íris cor de mel
Uma mulher, uma beleza que me aconteceu
Esfregando a pele de ouro marrom do seu corpo contra o meu
Me falou que o mal é bom e o bem cruel

Enquanto os pêlos dessa deusa tremem ao vento ateu
Ela me conta, sem certeza, tudo que viveu
Que gostava de política em mil novecentos e sessenta e seis
E hoje dança no Frenetic Dancing Days

Ela me conta que era atriz e trabalhou no "Hair"
Com alguns homens foi feliz, com outros foi mulher
Que tem muito ódio no coração que tem dado muito amor
Espalhado muito prazer e muita dor

Mas ela ao mesmo tempo diz que tudo vai mudar
Porque ela vai ser o que quis, inventando um lugar
Onde a gente e a natureza feliz vivam sempre em comunhão
E a tigresa possa mais do que o leão

As garras da felina me marcaram o coração
Mas as besteiras de menina que ela disse não
E eu corri para o violão num lamento, e a manhã nasceu azul
Como é bom poder tocar um instrumento
 
That's entertainment!
Na última sexta-feira houve um pouco mais de «choque» do que habitualmente no meu debate semanal com a Helena Matos (RTP-N, 22h). A reacção não se fez esperar: tive muito mais gente a falar-me do programa do que é costume, que é a indiferença total. De pouco me adianta passar muito tempo a ler coisas sobre a ETA, o Irão, o CPE ou os «partidos-cartel». As pessoas não vêem televisão para ser ensinadas, e muito menos ensinadas por mim. As pessoas vêem televisão para tomar posição, e a única linguagem que funciona é o drama.
 
O mundial está a começar: a diferença entre Ronaldinho e Ronaldo. (sigam os links.)
 

sábado, abril 01, 2006

Os Nunes da Rússia
O Bloco de Esquerda tem uma jovem dirigente chamada Natasha Nunes, o que é uma clara manobra para me desacreditar. O Mexia, sempre literato, sugere que nos juntemos e encenemos Tchekov.

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