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A Praia

«I try to be as progressive as I can possibly be, as long as I don't have to try too hard.» (Lou Reed)

teguivel@gmail.com

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sábado, julho 30, 2005

O céu sobre Estocolmo
O sol nunca se põe. Também nunca se levanta. Isto é a capital mundial do lusco-fusco.
 

sexta-feira, julho 29, 2005

Shortest personality test in the world
What kind of personality are you?
Soares ou Cavaco?
 
Isto anda tudo trocado
(Não é piada.)

As louras daqui pintam o cabelo. De tons escuros.
 

quinta-feira, julho 28, 2005

Louras (2)
[para NCS]

Aniceto deu-se mal na Suécia: só estava acostumado com louras pintadas.
 

quarta-feira, julho 27, 2005

Pedido de auxílio
Não devia ter saído de Lisboa sem ler o Expresso. Já sinto falta das aventuras de João Carlos Espada entre a aristocracia inglesa. Quem pode enviar-me as crónicas para o email que está ali em cima?
Obrigado.
 
O português
Resolvi atribuir mentalmente uma nacionalidade a cada um dos meus amigos. Menos ao Lomba. O Lomba é inapelavelmente português.
 
Sueco
Não vi nenhum sueco tão sueco como o Pedro Mexia.
 
Downgrading
Acho os suecos muito austríacos.
 
A social-democracia real (2)
Vou ficar surdo. Há 48 horas que não ouço uma buzina.
 
Querido leitor
Na primeira noite, o homem dos bilhetes do metro pergunta-me donde sou. "Nunca tinha conhecido um português", assinala. Na segunda noite, chama-me: "Hey, brasiliano!"
"- Andas-m' a ler o blog?!"
 
Sociologia do desenvolvimento
Garrincha morreu em 1983, do álcool. Num país a sério, teria morrido de sida.
 
Louras
Mas, como dizia a minha avó sobre narizes: cabelo não é feição.
 
Matemática pura
Em 1958, o Brasil ganhou aqui a sua primeira copa. Em 1959, Garrincha teve um filho sueco.
 
A social-democracia real
Paguei quatro contos por uma sopa. Ao almoço, ao balcão.
 
A crise da social-democracia
Os suecos fartam-se de cuspir para o chão.
 
Jornais
Razão para ler habitualmente jornais portugueses é que os estrangeiros não falam de Portugal. Se falassem, não mereceriam ser lidos.
 
UE: post euro-brasileiro
Ué, isso quer dizer o quê?
 
Suécia (2)
Sou pouco adepto da inculcação na escola da ideologia momentânea do Estado. Mas aqui dou-me conta do absurdo de não aprendermos sequer o mínimo sobre a história dos países da União Europeia. Com esta língua tenho uma experiência nova (descontados outros alfabetos): frases inteiras em que não adivinho uma palavra.
 

terça-feira, julho 26, 2005

Tenho fé
No dia em que um jornalista leia um livro que não seja recente, o mundo será um lugar melhor.

[com uma saudação ao PVG]
 
[Um email]
Bom... chegar ao seu blog foi realmente uma coisa surpreendente.
Eu estava muito pra baixo com uma situação e, na falta de alguma coisa pra fazer, escrevi num site de procura a frase: "porque não o deixo" ou "resposta pra pergunta difícil", e comecei a ler o que apareceu. Seu blog estava interessante e falava coisas sobre o Rio que me deixaram pra cima. Pra falar a verdade, tentei achar seu blog depois mas não consegui, me mande o endereço por favor.
 
Suécia
O sol da meia-noite deve ser muito giro, mas eu já me contentava em ver o do meio-dia.
 

segunda-feira, julho 25, 2005

Je suis venu te dire

Forte St. Angelo, La Valleta, foto de Paulo Varela Gomes - vale a pena clicar

Je suis venu te dire que je m'en vais
(Paroles&Musique: Serge Gainsbourg 1973)

Je suis venu te dire que je m'en vais
et tes larmes n'y pourront rien changer
comm' dit si bien Verlaine "au vent mauvais"
je suis venu te dir'que je m'en vais
tu t'souviens des jours anciens et tu pleures
tu suffoques, tu blémis à présent qu'a sonné l'heure
des adieux à jamais
oui
je suis au regret
d'te dir'que je m'en vais
oui je t'aimais, oui, mais
je suis venu te dir'que je m'en vais
tes sanglots longs n'y pourront rien changer
comm'dit si bien Verlaine "au vent mauvais"
je suis venu d'te dir'que je m'en vais
tu t'souviens des jours heureux et tu pleures
tu sanglotes, tu gémis à présent qu'a sonné l'heure
des adieux à jamais
oui je suis au regret
d'te dir'que je m'en vais
car tu m'en as trop fait
je suis venu te dir'que je m'en vais
et tes larmes n'y pourront rien changer
comm'dit si bien Verlaine "au vent mauvais"
tu t'souviens des jours anciens et tu pleures
tu suffoques, tu blémis à présent qu'a sonné l'heure
des adieux à jamais
oui je suis au regret
d'te dir'que je m'en vais
oui je t'aimais, oui, mais
je suis venu te dir'que je m'en vais
tes sanglots longs n'y pourront rien changer
comm'dit si bien Verlaine "au vent mauvais"
je suis venu d'te dir'que je m'en vais
tu t'souviens des jours heureux et tu pleures
tu sanglotes, tu gémis à présent qu'a sonné l'heure
des adieux à jamais
oui je suis au regret
d'te dir'que je m'en vais
car tu m'en as trop fait
 

terça-feira, julho 19, 2005

Notas de Paris (em Lisboa)
Não quero ser demasiado optimista, mas é tanta a miúda gira que se vê por aí que há certa probabilidade de que você, caro leitor, seja uma delas.
 
Eppur non si muove


O ponto alto do dia foi Husbands&Wives, no dvd, que vi pela primeira vez desde 1993, então no Quarteto. Um pouco intrigante que não tenha mudado nada na minha percepção do filme desde então. Belo filme: violentíssimo, crudelíssimo. Tem todas as marcas da separação da Mia Farrow (no mesmo ano), não há maneira de conseguirem convencer-nos do contrário. Uma profunda misoginia, um olhar cruel sobre a generalidade das pessoas. Extraordinários actores, excelentes diálogos, muito bem filmado. Não faço ideia do que passaria pela cabeça da Mia Farrow quando se prestou a este filme, mas encarnou sem limites a personagem bitchy que lhe foi destinada. Não é a obra-prima de Woody Allen (isso acho que é A Rosa Púrpura do Cairo), mas é o seu filme mais forte em muito tempo. Continua lá em cima, entre os cinco ou seis melhores. Pelas minhas contas, não perdeu nada com os anos; eu, aparentemente, não ganhei nada.
 

domingo, julho 17, 2005

Mais uma celebração da blogosfera
«No sé portugués, i m'agradaria. Si l'escolte, l'entenc amb dificultat. Si el llig, m'atrevisc a deduir-lo. Algun dia tindré temps que dedicar a l'aprenentatge de llengües, com també mitjans per a viatjar als llocs on es parlen. Recorde Lisboa... Hi vaig estar fa molts anys, un estiu de sequera immensa. Era una ciutat que puja i baixa, una ciutat bruta, però amb una llum clara, amb una amplitud enorme quan el riu es troba amb la mar. No sé quan tornaré a Lisboa, però mentrestant, aquest invent que són els blogs em permeten mirar per la finestra d'altres llengües i, així, sentir paraules estrangeres que hem d'escoltar i traduir, si és que les persones d'aquest raconet del món que parla català volem ser alguna cosa de profit en la vida. Per això, vaig deduïnt blogs com ara A praia, que no entenc massa bé, però que té alguna cosa que m'agrada.»

[Este post, no blog catalão Pans de Pesic]
 
Do lado da cachaça


[Hino do Botafogo, cantado por Zeca Pagodinho]

Com licença do Vinícius – hoje eu vou pôr aqui o Zeca Pagodinho, que deu esta noite o seu primeiro espectáculo em Portugal, para uma plateia em que nove em cada dez pessoas eram brasileiras.
Eu ainda sou do tempo em que eu não gostava de samba. Na verdade, acho que não é fácil gostar: à primeira impressão trata-se de uma música muitíssimo barulhenta, com aquela acumulação de tambores, pandeiros e cavaquinho. À primeira impressão (mas só nessa), é quase excessivamente alegre, sobretudo para quem seja incapaz de dançar.
Um olhar atento revela o contrário. O magnífico poema do Vinícius é muito acertado, há no samba uma tristeza misturada. O samba é uma música de pobres, que não levam demasiado a sério as hierarquias sociais nem (o que de certa maneira é mais importante) as exigências da vida. O samba tem uma componente de malandragem, de «ginga», de finta. Zeca Pagodinho, mesmo em palco, bebe e fuma um bocado; o sambista ri, trabalha o menos possível. O samba é uma festa, uma celebração, sobretudo da vida enquanto encontro humano e prazer físico. Mas há qualquer coisa de fadista na maneira de cantar de Zeca Pagodinho, uma celebração que incorpora as marcas da tristeza e da dificuldade, embora no fim as subverta, não se concentre nelas.
A aproximação habitual à música brasileira, na minha geração e nas anteriores, fez-se por via da MPB – um formato muito clássico, muito próximo da «escrita de canções», do poema e também do protesto. Aprofundando um pouco o Caetano ou o Chico, porém, rapidamente se entende que a sua singularidade está no facto de terem as raízes mergulhadas nos mesmos ritmos que o samba. Talvez isto seja particularmente óbvio no caso do Caetano, mas ainda assim foi o Chico quem compôs essa obra de arte, o meu samba preferido de sempre, «Vai passar». E há, depois, a bossa nova, no seu registo muito sofisticado, melancólico, aparentemente primeiro-mundista, mas que é na verdade uma (des)construção sobre os ritmos do samba. Basta ouvir João Gilberto, possivelmente o cantor menos dançável do mundo, para compreender isto, que a bossa nova é um samba que deixou de ser samba. (Por exemplo: «É Luxo Só».)
Enfim: divago. O público de hoje no Coliseu não era apenas brasileiro: era brasileiro não-branco, sangue misturado, origens pobres. Para os meus padrões (ao contrário do estereótipo), as brasileiras não são bonitas; não consta que a pobreza alguma vez tenha feito muito pela pele, pelo cabelo ou pelos hábitos alimentares de alguém. Mas a festa de hoje foi uma coisa muito intensa, muito física, um tanto patriótica. A gente apanha este patriotismo brasileiro por simpatia.
O Garrincha é talvez o maior símbolo da ginga, na forma de jogar e de estar na vida. E também da tragédia: morreu alcoólatra, em plena miséria. Foi o maior jogador de sempre do Botafogo, o time de Zeca Pagodinho, o «time da malandragem». A imagem acima é um presente que me deu o Rui Tavares, a fantasia que ele imaginou de uma revista luso-brasileira que se chamasse «Garrincha».
Nunca se fará essa Garrincha? Revistas destas não passam, segundo o Mexia, de sonhos adolescentes alimentados a álcool depois das duas da manhã.

O Mexia? O problema do Mexia é que ele bebe pouco gim e nenhuma cachaça.
 

sexta-feira, julho 15, 2005

Mulata, pele escura, dente branco

[do disco em casa de Amália]

Monólogo de Orfeu
Vinícius de Moraes, 1956, para a peça Orfeu da Conceição, a sua primeira colaboração com Jobim

Mulher mais adorada!
Agora que não estás, deixa que rompa
O meu peito em soluços! Te enrustiste
Em minha vida; e cada hora que passa
É mais por que te amar. A hora derrama
O seu óleo de amor, em mim, amada...
E sabes de uma coisa? Cada vez
Que o sofrimento vem, essa saudade
De estar perto, se longe, ou estar mais perto
Se perto – que é que eu sei? Essa agonia
De viver fraco, o peito extravasado
O mel correndo; essa incapacidade
De me sentir mais eu, Orfeu; tudo isso
Que é bem capaz de confundir o espírito
De um homem – nada disso tem importância
Quando tu chegas com essa charla antiga
Esse contentamento, essa harmonia
Esse corpo! E me dizes essas coisas
Que me dão essa força, essa coragem
Esse orgulho de rei. Ah, minha Eurídice
Meu verso, meu silêncio, minha música!
Nunca fujas de mim! Sem ti sou nada
Sou coisa sem razão, jogada, sou
Pedra rolada. Orfeu menos Eurídice...
Coisa incompreensível! A existência
Sem ti é como olhar para um relógio
Só com o ponteiro dos minutos. Tu
És a hora, és o que dá sentido
E direção ao tempo, minha amiga
Mais querida! Qual mãe, qual pai, qual nada!
A beleza da vida és tu, amada
Milhões amada! Ah, criatura! Quem
Poderia pensar que Orfeu: Orfeu
Cujo violão é a vida da cidade
E cuja fala, como o vento à flor,
Despetala as mulheres - que ele, Orfeu,
Ficasse assim rendido aos teus encantos!
Mulata, pele escura, dente branco
Vai teu caminho que eu vou te seguindo
No pensamento e aqui me deixo rente
Quando voltares, pela lua cheia
Para os braços sem fim do teu amigo!
Vai tua vida, pássaro contente
Vai tua vida que estarei contigo!
 

quinta-feira, julho 14, 2005

As duas frases
[um email do André Belo]

Esqueci-me de dizer-te as duas frases bonitas do concerto de ontem na Bastilha. Uma foi quando apareceu o Gilberto Gil no palco. Uma senhora que estava atrás de nós interpretou o sentido geral: «nous voulons un ministre comme ça!»
Quem pode dizer que ela não tem razão? Um ministro que ajudou a construir um dos grandes movimentos culturais do Brasil, um homem de cabelo à rastafari que defende que a mestiçagem é o futuro do mundo.
E a outra foi do Lula. Que, com todo o seu nacionalismo (e algum populismo), disse: «O Brasil não tem de ser grande por causa da sua dimensão geográfica. O Brasil tem de ser grande pela qualidade humana do seu povo.»
Eu lembro-me da qualidade humana, foi o que mais amei no Brasil, mais que as praias, mais que a fruta, mais que o verde, mais que tudo.
 
Metonímia completa


Funções da metonímia: Atenuação ou agravamento. Muitos eufemismos e disfemismos são metonímias.
 
Essa tua voz horrível
(«Nature Boy» por Vinícius)

É essa tua voz horrível mesmo que eu quero ouvir cantar.

[Aloísio de Oliveira persuadindo Vinícius de Moraes a gravar, pela primeira vez, com a sua voz, em 1960.]
 

quarta-feira, julho 13, 2005

Disclosure


Pela primeira vez, uma foto de Pedro Rufino, o indivíduo que desenhou esta página.
 
Um poema sobre prostitutas
[Este post não leva texto, porque o texto já estava aqui.]

Balada Do Mangue
Vinícius de Moraes
(publicado originalmente em Poemas, Sonetos e Baladas, 1946)

Pobres flores gonocócicas
Que à noite despetalais
As vossas pétalas tóxicas!
Pobre de vós, pensas, murchas
Orquídeas do despudor
Não sois Lœlia tenebrosa
Nem sois Vanda tricolor:
Sois frágeis, desmilingüidas
Dálias cortadas ao pé
Corolas descoloridas
Enclausuradas sem fé,
Ah, jovens putas das tardes
O que vos aconteceu
Para assim envenenardes
O pólen que Deus vos deu?
No entanto crispais sorrisos
Em vossas jaulas acesas
Mostrando o rubro das presas
Falando coisas do amor
E às vezes cantais uivando
Como cadelas à lua
Que em vossa rua sem nome
Rola perdida no céu...
Mas que brilho mau de estrela
Em vossos olhos lilases
Percebo quando, falazes,
Fazeis rapazes entrar!
Sinto então nos vossos sexos
Formarem-se imediatos
Os venenos putrefatos
Com que os envenenar
Ó misericordiosas!
Glabras, glúteas caftinas
Embebidas em jasmim
Jogando cantos felizes
Em perspectivas sem fim
Cantais, maternais hienas
Canções de caftinizar
Gordas, polacas, serenas
Sempre prestes a chorar.
Como sofreis, que silêncio
Não deve gritar em vós
Esse imenso, atroz silêncio
Dos santos e dos heróis!
E o contraponto de vozes
Com que ampliais o mistério
Como é semelhante às luzes
Votivas de um cemitério
Esculpido de memórias!
Pobres, trágicas mulheres
Multidimensionais
Ponto morto de choferes
Passadiço de navais!
Louras, mulatas, francesas
Vestidas de carnaval:
Viveis a festa das flores
Pelo convés dessas ruas
Ancoradas no canal?
Para onde irão vossos cantos
Para onde irá vossa nau?
Por que vos deixais imóveis
Alérgicas sensitivas
Nos jardins desse hospital
Etílico e heliotrópico?
Por que não vos trucidais
Ó inimigas? ou bem
Não ateais fogo às vestes
E vos lançais como tochas
Contra esses homens de nada
Nessa terra de ninguém!
 

segunda-feira, julho 11, 2005

Ainda vale muito a pena ler blogs
Por exemplo, aqui e aqui.
Adenda: e aqui.
 
Metonímia

Sarah Polley, em A Minha Vida sem Mim

Metonímia: a substituição de um nome por outro em virtude de haver entre eles algum relacionamento.
 
Samba da benção
A seleção que eu fiz do Vinícius é muito discutível, mas o aspecto porventura mais problemático nela é que praticamente ignora o Vinícius como músico. O Vinícius tem uma colaboração importantíssima com Chico Buarque («Valsinha», «Gente Humilde», «Samba de Orly», três das minhas músicas favoritas na obra do Chico) e, evidentemente, com Jobim (pense-se por exemplo em «O que tinha de ser» e as outras músicas cantadas por Elis no álbum com Tom Jobim). Mas o Carlos Azevedo chamou-me a atenção, em particular, para o absurdo que é não mencionar as composições em parceria com Baden Powell, e em especial os afro-sambas. (Um dos momentos mais fascinantes da gravação de casa de Amália é aquele em que Vinícius conta o nascimento de «Pra quê chorar?», com Baden, na Clínica de São Vicente, onde todos os anos se internava «para botar o fígado em ordem».) De todas as formas, a minha é uma escolha pessoal em que, como é visível, enfatizei a importância das palavras – as que Vinícius escreveu e as que disse.
Os afro-sambas tiveram uma génese lendária, em casa de Vinícius, três meses de retiro em que foram consumidas 240 garrafas de whisky, na orgulhosa média de 2,666 garrafas/dia. Uma das parcerias com Baden é o «Samba da Benção», que a Bebel Gilberto gravou (em versão reduzida, porque o texto integral se estende em «bençãos») em 2000, num disco que fez bastante pela minha fortuna pessoal. O poema é dos melhores, exprimindo aquilo que Carlos Lyra viria a chamar «a melancolia otimista» de Vinícius. Eu também tinha pensado num oxímoro parecido, no ano passado, enquanto passeava de carro por Lisboa.

Samba da Benção
Baden Powell/ Vinícius de Moraes, 1962

É melhor ser alegre que ser triste
A alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração
Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Se não, não se faz um samba não.

Fazer samba não é contar piada
E quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração
Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não.

Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem num samba, não
Porque o samba nasceu lá na Baía
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração.
 

domingo, julho 10, 2005

Tom

Vinícius e Tom Jobim

Diz-se que foi Vinícius quem ensinou Jobim a beber. «Uísque é cachorro engarrafado, o melhor amigo do homem», dizia o poeta. «Cerveja é perda de tempo.»
 
O sonoro
O André queixa-se de que, com as músicas que ponho aqui, a página fica sobrecarregada e o programa que ele usa frequentemente crasha. A Mariana, que a maior parte das vezes não consegue ouvir o que eu ponho.
Lamento muito. Não percebo nada de informática. Agora devo cumprir o meu programa de dez dias dedicado ao Vinícius, mas depois talvez deva refrear a utilização de sons no blog. Mas é uma pena.
 
Preciso de fato voltar para o Rio


Preciso de fato voltar para o Rio. Não é um problema material, de dinheiro ou de status profissional. Tudo isso é recuperável. É um problema de amor, pois o tempo do amor é que é irrecuperável.

[excerto de carta do vice-cônsul do Brasil no Uruguai, Vinícius de Moraes, por volta de 1959, pedindo formalmente ao Ministério das Relações Exteriores para ser tranferido de Montevideu para a capital do Brasil.]

(Obrigado ao Marujo).
 

sábado, julho 09, 2005

25 anos

Vinícius: 19 Outubro 1913-9 Julho 1980

Esta é única gravação integral que eu conheço do poema, incluindo a parte III, porventura a de que mais gosto. A gravação é um tanto precária, foi feita em casa da Amália em 19 de Dezembro de 1968, e quem faz o coro (aliás um pouco «gritado» demais) são a Amália, a Natália Correia, o David Mourão-Ferreira e o Ary dos Santos, possivelmente entre outros.

O Dia da Criação
Vinícius de Moraes
(publicado originalmente em Poemas, Sonetos e Baladas, 1946)

Macho e fêmea os criou.
(Genesis, 1:27)

I

Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
A manhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.

Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.

II

Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado
Há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado
Há um homem rico que se mata
Porque hoje é sábado
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado
Há um grande espírito-de-porco
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado
Há criancinhas que não comem
Porque hoje é sábado
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado
Há uma tensão inusitada
Porque hoje é sábado
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado
Há a comemoração fantástica
Porque hoje é sábado
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado

III

Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois da separação das águas, e depois da fecundação da terra
E depois da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal, dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia.
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.
 

sexta-feira, julho 08, 2005

Escreveu um post onde lhe pedia muito para voltar. Ela desconhecia blogs. Nunca lia posts. Mas voltou.
 
A Rosa de Hiroxima
[A Rosa de Hiroxima, poema de Vinícius de Moraes, 1946/ música de Gerson Conrad, interpretação de Ney Matogrosso, no álbum dos Secos & Molhados de 1973. O poema já estava aqui].

(...) Such a pointless display of brutality should (...) bring forth two thoughts. One is that the surprise should be that this has not occurred sooner. The other is that such attacks should not, and will not, make any difference to the way Londoners live and work.
(...) George Bush has sometimes claimed that a silver lining to the cloud his forces are struggling through in Iraq is that at least the West's enemies are being fought there rather than at home. The attacks in London are a reminder that that view is as wrong as it is glib.
What the attacks also show, however, is that well co-ordinated though the four explosions were, they were not terribly effective. Chance plays a big role in such attacks. The bombs in Madrid last year which killed 191 people might have killed many more had the station roof collapsed. The September 11th hijackings might have killed fewer than the eventual 2,752 had the twin towers of the World Trade Centre not melted down and collapsed. As The Economist went to press, the toll in the four London bombs was not clear, but the estimate (...) was thankfully far smaller than in Madrid. By the terrible calculus of terrorism, the attacks should thus be counted as a failure—a sign of weakness, not strength.
The tighter security that has been in place in London since September 11th may have contributed to that. No city, however, can stop terrorists altogether. What can be said, though, is that terrorists are unable to stop cities, either. Perhaps an army, launching wave after wave of attacks, might succeed in doing so, especially if it were to deploy biological, chemical or nuclear weapons. Short of that, cities will always bounce back quickly, after the initial shock. They are resilient organisms, with powerful social and economic reasons to shrug off terrorism. New York and Madrid both show that, triumphantly. (...)

[do Economist]
 

quinta-feira, julho 07, 2005

London London
Estou há dias para escrever um post em que agradeça as mensagens de parabéns que recebi pelo segundo aniversário da Praia. Fui tratado com muita generosidade e, até por isso, um texto sobre esse assunto será sempre muito narcisista e celebratório. Somehow, it doesn't feel right today. Sem querer parecer demasiado solene, as pessoas estão a pensar nos atentados em Londres, e não faz muito sentido encher isto agora de afagos à minha própria pessoa. Portanto, fica para depois.
Pus a tocar esta música do Caetano que foi escrita em 1970, no ano que ele passou em Londres, exilado, depois de ter sido preso. Certamente que não é nenhuma obra-prima (em todo o caso, já gostei menos dela do que gosto hoje) e o arranjo aqui é bastante piroso. Mas é uma canção triste em Londres - não uma canção triste sobre Londres, porque a tristeza não vem da cidade - num ano que o Caetano passou especialmente deprimido. Ele dominava ainda mal a língua, como de resto se nota, aqui e em todo o disco (quase todo cantado em inglês).
Também tenho uma relação pessoal com Londres. Vivi não muito longe durante um ano, visitei a cidade mais de uma dúzia de vezes e estou acostumado a andar por lá, wandering round and round, nowhere to go. Nessas alturas é muito costume lembrar-me desta música do Caetano, e sobretudo de outra, muito mais alegre.

(As coisas do Vinícius prosseguem amanhã. De qualquer maneira estava tudo muito organizadinho, mesmo a pedir para ser quebrado.)

London, London
Caetano Veloso, 1971

I’m wandering round and round, nowhere to go
I’m lonely in London, London's lovely so
I cross the streets without fear
Everybody keeps the way clear
I know, I know no one here to say hello
I know they keep the way clear
I am lonely in London without fear
I’m wandering round and round here, nowhere to go

While my eyes
Go looking for flying saucers in the sky

Oh Sunday, Monday, Autumn pass by me
And people hurry on so peacefully
A group approaches a policeman
He seems so pleased to please them
It’s good at least to live, and I agree
He seems so pleased at least
And it’s so good to live in peace and
Sunday, Monday, years and I agree

While my eyes
Go looking for flying saucers in the sky

I choose no face to look at
Choose no way
I just happen to be here
And it’s ok
Green grass, blue eyes, gray sky, God bless
Silent pain and happiness
I came around to say yes, and I say

But my eyes
Go looking for flying saucers in the sky
 

quarta-feira, julho 06, 2005

Ele errava com uma confiança incrível

Chico e Vinícius

Cumprem-se no sábado, dia 9, 25 anos sobre a morte de Vinícius de Moraes. O Vinícius merece uma homenagem, e eu desejo prestar-lhe essa homenagem aqui. Sou um grande admirador do Vinícius, ainda que não aprecie igualmente toda a sua obra: por exemplo, não me entusiasmam muitos dos seus poemas, por conta da hiperbolização permanente da paixão, e também pelo excessivo formalismo de muita dessa poesia. E grande parte do que o Vinícius fez já no contexto da Bossa Nova é lixo, desde letras que são uma patetice confrangedora (a letra de «Garota de Ipanema», não sendo das piores, é bastante embaraçosa) às colaborações finais com Toquinho (devia ser muito boa pessoa, mas um chato) e uma colecção de cantoras brasileiras sentimentalonas e pirosas (Maria Creuza, Bethânia, Marília Medalha e outras). Mas deixemos isso: não só porque às tantas isto já não parece uma homenagem, como também porque o Vinícius, tal como o entendo, está para além dos detalhes.
O Vinícius era, parece-me, um sujeito que não precisava de ter razão. Era doce e apaixonado, mas com um sentido de humor preciso - que é o que eu mais aprecio - nos seus poemas, nas suas canções, nas suas crónicas, nas suas cartas. Tinha um dark side evidente, que ele vivia também com ironia - e com álcool. Era um grande convivialista. Tinha um pedaço de malandragem carioca, e uma grande adoração (uma grande dependência até) pelas mulheres e pela sua beleza física.
A sua poesia, e a sua vida, atravessou diversas fases e muitos conflitos, mas, como se pode ver pela colecção de cartas recentemente editadas por Ruy Castro (que eu li com muito prazer), há um sentido de humor, uma malandragem doce, que atravessa a vida toda.
O meu álbum preferido com o Vinícius - o único que me parece absolutamente irretocável, mas eu não os conheço todos - é aquele gravado em casa da Amália em Dezembro de 1969. (Vão buscá-lo à fnac, custa uma ninharia de onze euros, ou assim.) Para pôr aqui no blog, tive de fazer uma selecção muito estrita, e muito difícil. Escolhi, arbitrariamente, dez coisas, que porei ao longo dos próximos dez dias (contando com hoje). Infelizmente, o espaço que tenho disponível no servidor é limitado, de forma que, frequentemente, para colocar um som novo terei que retirar um anterior. (Assim como já tive online, e já retirei, a «breve consideração à margem do ano assassino de 1973».) Em suma, os dez excertos não poderão estar disponíveis simultaneamente, de modo que, se quiserem ouvi-los, terão de fazer o favor de ir passando por cá quase diariamente e de os descarregarem para o vosso disco rígido.
Começo com um depoimento de Chico Buarque. A lista para os próximos dez dias é a seguinte:
Quinta,7: «carta ao tom», do álbum gravado com Caymmi e o Quarteto em Cy, em 1964.
Sexta, 8: «rosa de hiroxima», gravada pelos secos&molhados de ney matogrosso.
Sábado 9: «o dia da criação» na versão integral, gravada em casa da Amália em 1969.
Domingo, 10: «depoimento de tom jobim», gravado salvo erro em 1993 e publicado em cd em 2003, numa edição comemorativa dos 90 anos do nascimento de Vinícius.
Segunda-feira, 11: «monólogo do orfeu», gravado em casa de Amália.
Terça-feira, 12: «samba da benção», na versão de Bebel Gilberto.
Quarta-feira, 13: «balada do mangue», gravado em casa de Amália.
Quinta-feira, 14: «nature boy» cantado por Vinícius, disponível no tal cd dos 90 anos.
Sexta-feira, 15: «saudação final» aos amigos portugueses, em casa de Amália.

Uma última nota: eu não ligo excessivamente ao número de visitas no blog (deve haver um mês que não consulto o sitemeter), mas gostava que estas coisas do Vinícius fossem divulgadas. Quanto mais divulgadas, mais feedback, e isso interessa-me, neste caso sobretudo se for do Brasil. De modo que, sem exigir nada a ninguém (se mo exigissem, eu não faria), desta vez, sim, eu agradeço links. Obrigado.
 
É apenas justo
Recebi do João Tordo o seguinte email:

Caríssimos,
Venho por este meio dar resposta ao post "Spanglish" sobre a revista Atlântico da qual sou colaborador. No vosso blog é insinuado que a revista parece uma "tradução do inglês". A questão, na realidade, não me parece ser essa. A questão reside no encerramento da língua portuguesa à utilização de novas expressões que, ainda que correctas, não são compreendidas por não corresponderem àquilo que lemos nos manuais da quarta classe.
Em primeiro lugar, o facto de não sabermos que uma palavra pode ser utilizada em determinado contexto não significa que ela não possa ser utilizada. Vejamos os casos:
Na primeira citação, a palavra "aprendemos" está em itálico, como se tivesse sido colocada no lugar indevido. Porquê? Aprender é adquirir conhecimento de alguma coisa; se a palavra não é habitualmente usada nesse sentido, é coisa que não me diz respeito; a língua portuguesa deve ser aberta o suficiente a este género de mutações para admitir casos pouco usados, mas perfeitamente possíveis.
Em segundo lugar, "Apologético" deriva da palavra "Apologia" que significa um discurso para justificar ou defender. Ora, em parte alguma do romance William Burroughs usa esse tipo de discurso (normalmente associado ao cristianismo e à sua defesa) para justificar (ou não) o uso de drogas; da mesma maneira que não faz o contrário disso. Portanto, a sua atitude é "nada apologética". Como seria possível que o autor (eu) quisesse dizer o contrário disso?
Apenas mais uma emenda: a palavra "teorético" existe e está no dicionário. Significa o mesmo que teórico. Normalmente, o dicionário é melhor que o Google, quando se quer criticar.
Cumprimentos
João


Os três casos são diferentes. O verbo aprender, em português, não tem o sentido em que João Tordo o emprega no texto, que é o de «ficar a saber» ou «ser informado de» - no caso, que William Lee tem uma mulher. Já o verbo «to learn», em inglês, tem esse sentido, para além dos sentidos em que se usa o verbo português. Qualquer dicionário permite esclarecer isto. O da Academia das Ciências, que é o que tenho à mão, diz que aprender é: «adquirir um saber; tornar-se apto para o desempenho de uma tarefa; tomar conhecimento de alguma coisa através do estudo, da observação ou da experiência; tornar-se gradualmente capaz de; melhorar de comportamento, de carácter..., reduzindo os erros». Em inglês posso dizer que «I learned that my brother was deaf» ou «we learned that he had a wife». Mas «aprendi que o meu irmão era surdo» ou «aprendemos que ele tinha uma mulher» seria muito estranho.
«Teórico» e «teorético» são palavras igualmente aceites em português, e em sentido quase equivalente. Creio que «teorético» é um pouco mais restritivo, diz apenas respeito aos princípios gerais de uma área de saber, ao passo que «teórico» abarca também tudo o que são conhecimentos de carácter mais ou menos geral e especulativo. No seu texto, Araújo emprega ambos os termos. Em português, «teórico» é muito mais frequente do que «teorético» - como se pode constatar consultando o google (mas não o dicionário). Em inglês, em contrapartida, existe apenas «theoretical». Ao escolher, na passagem em causa, empregar «teorético», Araújo fez uma opção que é legítima mas que me parece um pouco pretensiosa, e dispensável a não ser por tique anglófono. Mas é questão de gosto.
O problema do «nada apologético» é mais complicado. No email, João Tordo explica (correctamente) o uso da palavra «apologético» e diz que usou a expressão «nada apologético» no sentido pretendido e conforme com o dicionário – isto é, para significar que Burroughs não faz nenhuma defesa da utilização das drogas. O sentido geral do texto na Atlântico, porém, levou-me a pensar o contrário. Aí, Tordo diz que «há dois detalhes neste livro que irão espantar quem nunca o leu», a saber: o facto de que o autor «em momento nenhum tenta desculpar a sua adição ou penalizar-se por ela» e «o enfoque desmesurado na sua vida enquanto drogado». «Em Junky, praticamente todos os parágrafos são sobre droga, o seu uso, a sua procura ou a falta dela; todas as personagens a querem ou vendem; não existem amigos ou inimigos, tensão sexual ou emocional, projectos de vida ou subterfúgios para contar outras histórias. (...) Lee não tem moral, não tem sonhos nem ambições, não tem passado nem futuro, e é desprovido de emoções ou desejo sexual.» Ainda em criança, Burroughs disse para si mesmo «Hei-de fumar ópio quando for grande.» E conclui Tordo: a «atitude nada apologética [de Burroughs] em relação ao uso de drogas (...) ganhou-lhe [outra] o estatuto de escritor de eleição para toda a geração de beatniks da época.»
Sendo assim, talvez eu possa ser desculpado por ter pensado que Tordo queria dizer que Burroughs era unapologetic, isto é, não pedia desculpa por durante toda a vida ter usado drogas, e não «nada apologético» em relação ao seu uso. É possível (embora seja discutível) aceitar que, como diz agora Tordo no email, Burroughs não fosse apologético em relação ao uso de drogas, no sentido em que as queria para si mas não estava especialmente empenhado em recomendar o seu uso. Ainda assim, a expressão «nada apologético» sugere o contrário, isto é, que ele as desaconselharia. Se eu disser que o texto de Tordo não é «nada bom», ele vai achar que eu disse que não presta; se eu disser que os textos de Helena Matos são «nada profundos», ela vai achar que eu penso que são superficiais; ou, se eu disser que a direita inteligente é «nada inteligente», estarei na prática a chamar-lhe burra. Talvez Tordo quisesse dizer que Burroughs não faz nenhuma apologia das drogas; mas nem as frases anteriores iam nesse sentido, nem a expressão «nada apologético» é usada de maneira muito feliz.
No conjunto, Tordo acha que devemos enriquecer a nossa língua com expressões estrangeiras de uso comum, mesmo que elas não façam parte do nosso «manual da quarta classe». A observação é pertinente porque, tanto quanto julgo saber, Tordo e eu fizemos a 4ª classe na mesma escola e com a mesma professora (embora em anos diferentes); e eu, como se pode constatar lendo apenas meia-dúzia dos meus posts, estou de acordo com o ponto de vista dele, e incorporo amplamente expressões inglesas e do português do Brasil.
No entanto, há uma diferença entre fazer isso e traduzir à letra, à bruta, palavras do inglês. Por exemplo, há dias escrevi: «yeah, babe: you wish»; mas «sim, bebé: tu desejas» não faria muito sentido, pois não?
Uma minudência final. Eu não «insinuei» que muitos textos da Atlântico parecem escritos num inglês mal-traduzido: isso foi o que eu disse, e praticamente a única coisa que eu disse, naquele post.
De todas as formas, estou grato ao João Tordo por ter lido o blog e se ter dado ao trabalho de prestar o esclarecimento. No fim de contas, é, como ele diria, apenas justo, considerando que eu continuo a ler a Atlântico, e ainda pago por isso.
 
Títulos

Em complemento ao artigo de hoje do Pedro Mexia
 
Da série «Frases que impõem respeito»
(bombyx mori)

É advogada e tem três filhos.
 

segunda-feira, julho 04, 2005

Rifas
Escrevo como quem tira rifas, a ver se sai alguma coisa. Ser sincero é perfeitamente inútil. A maior parte das vezes sai denegação.
 

domingo, julho 03, 2005

III Temporada Balnear


- Young lady: you don’t fool me one bit.
- I’m not trying to. But I bet I could, though.
- No. You might convince this jackass that you love him, but you’ll never convince me.
- That’s too bad. Because I do love him.
- Certainly. For his money.
- No! Honestly!
- Have you got the nerve to stand there and expect me to believe that you don’t want to marry my son for his money?
- It’s true.
- Then what do you want to marry him for?
- I want to marry him for your money. (...)
- Well, at least we’re getting down to brass tacks. You admit that all you’re after is money.
- No, I don’t. Aren’t you funny? Don't you know that a man being rich is like a girl being pretty? You might not marry a girl just because she's pretty, but my goodness - doesn't it help? (…)
- They told me you were stupid. You don’t sound stupid to me.
- I can be smart when it’s important. But most men don’t like it. Except Gus: he’s always been interested in my brains.
- No! That much of a fool he’s not.

A Praia faz dois anos. Em certo sentido, isto não tem nada de surpreendente. Os anos acumulam-se, basta deixar o tempo correr. Não havia razões para fechar A Praia, da mesma maneira que não havia, em rigor, razões para a ter aberto. O blog faz a sua vida, faz o seu percurso. Não é útil, ou se cria «utilidades» é incidentalmente.
Não estou mais inteligente, nem mais maduro, nem mais rico, por ter começado este blog há dois anos. Não se devia dizer isto no aniversário, mas é verdade que não há mais de meia-dúzia de posts, aqui, que sobrevivam à data em que foram escritos ou que pudessem ser transplantados para outro formato. Certos blogs são livros, ou artigos de jornal, ou literatura. Certos blogs são blogs, nunca foram nem serão outra coisa - e A Praia é um caso desses. Vai-se fazendo por si. Há semanas com posts e semanas sem posts, posts com significado e posts virtualmente sem significado nenhum (a não ser para qualquer zona mais ou menos recôndita da minha própria cabeça). O que é certo é que nunca me telefonei a mim mesmo a exortar-me a escrever.
Devo agradecer a quem me lê e a quem de vez em quando me envia emails - porque estou grato, sinceramente. Agradecer também a quem acompanha, dialoga, faz links. Suponho que, se ninguém me lesse, este blog já teria fechado. Suponho - é natural que sim. Embora haja um plano em que isto é um exercício estritamente narcísico, afastado do mundo, protegido dos choques - e em que escrevo estritamente por mim. Gosto de abrir o computador e ter a página, que é bonita graças a um template que não desenhei. Gosto de ter umas imagens que não armazenaria de outra forma, umas frases, e ultimamente até umas músicas. Em certo sentido isto basta, e A Praia é um exercício tão fútil, narcísico, centrado sobre si mesmo, quanto isto.
Quase posso dizer que não há nada para celebrar, nestes dois anos, a não ser a passagem do tempo, o simples facto de continuar. (Há glória bastante em continuar, como escreveu uma vez, por outras palavras, o Miguel Esteves Cardoso.) Mas há em todo o caso uma utilidade prática. Graças aos blogs, conheci no espaço de dois anos um número invulgar de pessoas com quem partilho interesses e afinidades, boa parte das quais ficaram minhas amigas. Os melhores bloggers que por aí andam - incluindo aqueles em que isso não é assim tão evidente - são uma população de literatos fora do comum. Aprendi com a blogosfera: tenho livros nas estantes que não conhecia, interesses que não tinham sido despertados. Teoricamente, podia ter aprendido estas coisas, desenvolvido estas afinidades, sendo simplesmente leitor de blogs. Mas há um elemento de reciprocidade, e as pessoas que passei a conhecer têm alguma ideia do que eu faço, ou do que eu penso, ou do que eu sou, porque este blog existe. E, por mais que A Praia não seja demasiado importante em si mesma, serve para isso.
Nesse aspecto tenho de estar-lhe muito grato. É essa rapaziada - que eu leio, com quem falo, que me escreve, com quem mantive ou retomei contacto - que justifica o brinde. Dois anos de uma página inútil. Cheers.

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